segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
CAPÍTULO 1
Diário da Ana
14 de janeiro de 2013, segunda-feira
Querido diário.
Eu não conseguia parar de chorar. Estava chorando tanto, que, quando dei por mim, minha família inteira estava parada na porta do meu quarto, com os olhos fixos em mim - provavelmente se perguntando o motivo de eu estar naquele estado.
― O que vocês querem? ― Perguntei entre um soluço e outro.
― Por que você está assim, minha Aninha? ― Respondeu minha mãe com outra pergunta.
"Minha Aninha". Ela sempre me chamava assim quando eu tinha oito anos e estava triste. Mas acontece que eu não tenho mais aquela idade, onde ser chamada de "Aninha" acalmava o meu choro e me fazia sorrir. O meu problema era muito maior, nunca seria resolvido com um mero apelido de mãe. Queria eu que fosse tão simples assim...
Desculpe estar te enchendo com as minhas angústias e desilusões amorosas (sim, amorosas! Mais tarde te explico melhor...), Diário, mas é que eu estava e ainda estou realmente muito triste.
― Por nada, mãe. ― Respondi, um pouco áspera ― Dá para me deixar sozinha, por favor?
Minha mãe deu uma rápida olhada para o meu pai e o meu irmão mais velho, que fizeram um sinal para saírem dali.
Agora eu estou aqui, deitada em minha cama, escrevendo neste diário. Ah, e peço desculpas por ter estreado o diário de uma forma tão horrível e por tê-lo molhado todo com as minhas lágrimas. Era para ele estar novinho em folha, considerando que o ganhei ontem da minha melhor amiga, Samanta (ela comprou um para ela também, disse que seria uma espécie de "diário da amizade").
Bem, um pouco depois dos meus pais e meu irmão terem saído do meu quarto, resolvi entrar no computador para ler as notícias mais recentes sobre eles. Certamente eu devo ter feito isso apenas para me torturar um pouco mais, afinal, não há mais nenhuma razão lógica para eu ter feito aquilo.
Assim que comecei a digitar no Google "One Direction", as lágrimas voltaram com força total. E eu achando que não havia mais uma gota d'água sequer dentro de mim, que eu já havia chorado tudo o que tinha para chorar.
Quando finalmente decidi fechar a janela, o título de uma notícia me chamou a atenção:
"Os meninos do One Direction farão na próxima segunda-feira um show gratuito em Londres!!!".
Suspirei, completamente acabada.
Por causa desse show, fiz a casa inteira se voltar contra mim, fiz os vizinhos quase chamarem a polícia e fiz até o meu gatinho Harry passar a me olhar de cara feia (sim, o meu gato se chama Harry. Não me culpe, Diário, eu não resisti! Encontrei-o na rua tão acabadinho e tão parecido com o meu Harry... quer dizer, com o Harry da Samanta - se ela ler isso ela me mata!!!).
Bem, o fato é que não fazia o menor sentido eu clicar para ler aquela notícia, eu não ia para o show mesmo...
Que droga. Odeio escrever sobre esse assunto, sempre acabo chorando e dessa vez não foi diferente. Peço desculpas mais uma vez por ter te molhando por inteiro, mas... é inevitável, eu me sinto derrotada, me sinto uma ninguém, um grão de areia no meio do mundo. Se, ao menos, eu pudesse tocá-los, me sentiria mais... viva, não sei. Agora parece que nada na minha vida faz mais sentido.
De repente alguém começou a bater na minha porta, interrompendo os meus pensamentos.
Desliguei rápido o computador, enxuguei minhas lágrimas e fui lá ver quem era.
O André, claro.
― O que você quer? ― Falei, ainda com a voz um pouco chorosa.
― Eu posso entrar?
Fiz que sim com a cabeça. O André sempre sabia o que dizer para me acalmar.
― Ana, ― Ele começou a dizer, sentado ao meu lado na cama ― quando eu tinha a sua idade, também achava que ser proibido de ir a algum show era o fim do mundo. Mas eu sei que você já é madura o suficiente para saber que não é. Com o tempo, você vai acabar esquecendo dessa banda de garotos e começar a se preocupar com outras coisas, como por exemplo faculdade, trabalho, namorados...
Meu choro, de repente, voltou.
― Você não entende, André. ― Dizia entre soluços ― Aliás, ninguém me entende e nem nunca vão me entender. Eu amo eles e para sempre vou amá-los. Eu quero muito ir a esse show. Pode até não ser o fim do mundo, mas com certeza vai ser o fim do meu mundo. Por favor, me ajuda, André, por favor. Eu tenho certeza que a mamãe vai te escutar.
O André suspirou, um pouco triste, e começou a passar a mão pelos meus cabelos, para tentar me acalmar.
― Tenta se acalmar, Aninha. Vai ficar tudo bem. Olha, eu prometo que vou tentar falar com a mamãe.
― Você não vai! ― Eu gritei ― Eu sei que não vai! Para de mentir para mim, eu não sou mais nenhuma criancinha, não. Eu já tenho dezesseis anos, sei quando vocês mentem para mim.
Eu tenho ódio quando eles me tratam feito um bebê. Quem o André pensa que é? Com certeza ele está se achando só porque completou 21 anos antes de ontem e ganhou um carro zero. Ha-ha-ha, coitado.
― Ana, eu não estou mentindo. Pode deixar que eu convenço a mamãe.
Eu não sabia se ria ou se chorava.
― Você está falando sério?
André sorriu, percebendo que metade da minha tristeza havia evaporado.
― Eu te prometo.
Puxei ele para mais perto de mim e comecei a beijá-lo, mais feliz do que qualquer outra pessoa do mundo.
― Eu te amo, sabia, maninho?
Nós dois rimos.
Ah, droga. Me desculpa, Diário, minha mãe acabou de vir aqui conferir se eu estava realmente dormindo e me pegou acordada escrevendo - certamente eu devo estar parecendo uma louca, pois ela me olhou um pouco assustada e disse:
― Filha, largue isso, seus pulsos devem estar doloridos. Quando voltar aqui quero te ver dormindo, ok? Durma com os anjinhos.
Bom, então é isso... boa noite e até amanhã, Diário!
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