terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 2

Diário da Samanta
14 de janeiro de 2013, segunda-feira

Querido diário,
...

hoje o dia realmente está com um clima um tanto confuso. Desde manhã tudo parece estar dando errado na minha vida. Na verdade, desde sempre. Parece que eu sigo um mesmo roteiro toda vez que levanto, todos os dias são praticamente os mesmos. Eu nunca fui muito satisfeita com a minha vida, mesmo. Eu não sou como essas pessoas que aguentam a vida que levam de boca fechada, com lamentação no interior mas com um sorriso falso estampado no rosto. Eu tenho sonhos grandes, ambições que muitas vezes aos olhos dos outros, são impossíveis. Mas disso, você já sabe.

- Samanta, o papai ligou e perguntou se você quer que ele compre algo. Depois do trabalho ele vai pra aquela loja que a gente gosta. – Disse Kaitlin, minha irmã dois anos mais velha entrando no meu quarto.
- Kaitlin, quantas vezes eu vou ter que dizer pra você bater na porta antes de entrar, caramba?! – Falei, alterando o tom da minha voz e levantando da cama.
- Samanta, eu não sigo ordens suas. Você devia estar agradecendo por eu estar aqui, perdendo o meu tempo tentando te ajudar. Agora para de ser infantil e diz logo.
- Ah, então ele quer saber o que eu quero, né?
- Exatamente. Foi o que eu te disse. – Falou Kaitlin, seca.
- Liga pra o PAPAI e diz que se ele realmente quer fazer algo pra mim e me ver feliz, que ele me mande pra bem longe daqui, de todos vocês e dessa vida estúpida que eu levo! – Gritei, levantando e empurrando Kaitlin para fora do meu quarto, batendo a porta em seguida.

É, diário, você deve estar achando que eu enlouqueci de vez e que estou mais ignorante que nunca com a minha família. Você pode estar certo. Mas é que eu não aguento passar mais um dia enfiada nessa casa, sem nada pra fazer, sem nenhuma novidade e tendo que aturar minhas irmãs e minha mãe com seus papos de sempre, enquanto meu pai se mata de trabalhar e acha que comprando alguma coisa cara, vai conseguir fechar minha boca.
Minha mãe com aquela mania dela de sempre querer me fazer ser como as minhas irmãs, enquanto elas puxam o saco dela e sempre estão contra tudo e qualquer coisa que eu diga. Eu sinceramente não entendo. Se eu fosse minha mãe, estaria orgulhosa de ter uma filha como eu, que luta por aquilo que acredita, que defende seu ponto de vista e tem um espírito independente.

- Samanta Martins Prado, posso saber por que dessa gritaria e grosseria com sua irmã? – Resmungou minha mãe, abrindo a porta do meu quarto e cruzando os braços, querendo me intimidar.
- Mãe, eu sei que vocês adoram me tirar do sério e estragar a minha alegria, mas pode deixar pra fazer isso outro dia, por favor? Eu quero ficar sozinha.
- O problema é que você SEMPRE quer ficar sozinha! Você não gosta de se entrosar, conhecer pessoas novas! Você mora em um CONDOMÍNIO, Samanta. Saia, conheça novas pessoas, pare de ficar dentro desse quarto escutando músicas dessa banda de meninos e vá viver a vida! – Reclamava ela.
- Bem que eu faria isso. Se realmente valesse a pena, eu iria, pode ter certeza disso. Mas por enquanto, eu continuo preferindo ficar aqui ouvindo “essa banda de meninos”, obrigada. – Falei, sendo sarcástica.
- Enquanto você perde sua vida, suas irmãs estão fazendo faculdade, saindo com os amigos, correndo atrás de seus objetivos de vida! Você sempre foi assim, reclamona, rebelde e descontente com tudo! Tem que começar a ver o lado bom da sua vida e a agir como deve!
- Eu não to acreditando no que acabei de ouvir! – Me exaltei, levantando e gritando. – Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu TENTO correr atrás do que eu quero, dos meus sonhos, mas tudo que você e o papai fazem é me julgar, implicar com o que eu quero e não concordar comigo! Vocês colocam porém em tudo e eu já estou farta disso! E daí que eu não quero ser advogada ou trabalhar na empresa do papai como a Kaitlin e a Letícia? Eu tenho objetivos muito maiores e incríveis! Eu quero ir morar fora, mãe, levar uma vida diferente! Se você e o papai pudessem pensar nisso e...
- Eu não vou mais falar o que acho dessa história. – Disse ela, me interrompendo. – Eu e suas irmãs estamos indo na casa da Isabel, acertar os últimos preparativos da festa da sua irmã. Não demoramos.

Ela disse tudo que queria e saiu, me deixando ignorada e chateada, como sempre. Fechei a porta do meu quarto e enfiei minha cara no travesseiro. É, eu não sei o que fiz pra merecer isso. Todos e tudo contra o que eu quero e penso. Ah, claro, menos a minha melhor amiga, a Ana. Ela sim me entende, me escuta e me ajuda. Nós nos conhecemos há três anos, no nosso curso de inglês e mais tarde, ela se mudou pra o meu colégio. Desde lá, nós planejamos coisas, sonhamos juntas e contamos tudo uma para a outra. Ela é a minha salvação nessa vida tediosa e de mesmices. Nós gostamos praticamente das mesmas coisas, temos muito em comum, apesar dela fazer o tipo de menina doce e inocente.
Mas pra piorar o dia, eu liguei pra ela mais cedo e ela estava do mesmo jeito que eu: desanimada, desestimulada e triste. Não quis me contar o motivo, apenas falou que queria chorar e pensar na vida. Pelo menos, ela me convidou pra ir na casa dela amanhã, disse que quer contar umas novidades. Não sei como ela consegue guardar a tristeza só pra ela, sem falar nada ou sem dar um grito. Eu não, se eu estiver triste, insisto em jogar isso na cara de quem e do que me fez ficar desse jeito.
Bom, faltam dois meses para começarem nossas aulas e eu não quero de jeito nenhum que esse dia chegue! Não aqui, nessa cidade, naquela escola, com aquelas pessoas! Mal posso esperar pra ir morar em Londres e colocar o que eu realmente gosto em prática. Nem que eu tenha 80 anos quando isso acontecer.
Minha mão já está doendo de tanto escrever, diário. Obrigada por mais uma vez aguentar as minhas confissões e os meus desaforos. Boa noite!
 

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