segunda-feira, 27 de maio de 2013

CAPÍTULO 58

Diário da Samanta

14 de março de 2013, sábado


                                        





Acordei com o mesmo costume de sempre: Olhar o calendário para ver em que dia estamos. Sábado! Nossa, preciso confessar que a semana passou voando. Se fosse há algum tempo atrás, pularia de felicidade e celebraria até não poder mais a minha liberdade de poder dormir até a hora que quero e ficar até tarde acordada. Mas pra ser sincera, agora pouco me importo com o fim de semana ou não! Desde que as coisas mudaram e que eu realmente deixei que elas mudassem, não me importa mais qual a data, o que importa é que é mais um dia para fazer valer a pena e mais uma oportunidade pra evoluir. É, eu amo pensar desse jeito! Amo o fato de acordar com um sorriso e ir dormir também com ele! É tão bom voltar a se sentir viva, animada, de bem com a vida e estimulada a fazer o que você achava que seria incapaz de voltar a fazer. Diário, você deve estar pensando na tal receita secreta que me fez pensar assim e provavelmente, está certo! Exatamente: Começa com “Jo” e termina com “hn”. John me faz sentir como se eu tivesse perdido muito tempo com as minhas tais ilusões tão bobas e falsas. Ele me faz sentir como se finalmente eu tivesse me dado conta do que devia ter feito desde o início e não fiz, mas graças a Deus, estou fazendo agora. John me faz sentir especial, importante, uma pessoa que realmente vale alguma coisa para outra, uma pessoa que não só sobrevive, mas faz diferença na vida de alguém e no mundo. Pois é, John me faz sentir um outro ser humano, talvez a garota mais feliz do mundo no momento! Não vou dizer que de uma hora para a outra, mudei todos os meus pensamentos e sentimentos, mas continuo tentando e pretendo não desistir tão cedo. O tempo pode ser o remédio certo. Claro, é impossível esquecer e tirar certas memórias da cabeça, mas não é impossível! Queria poder ter uma espécie de poder sobrenatural para arrancar de vez todas as feridas do meu coração e poder apagá-las da minha mente, como se elas nunca tivessem ocorrido! Assim, eu poderia seguir em frente, em paz e aliviada. Mas como não sou nenhuma mutante, vou levando a vida como me é oferecida. 



Levantei da cama, tomei um banho, vesti meu roupão e fui usar um pouco a internet. Chequei o meu facebook e ninguém de interessante estava online. Nenhuma notificação e nenhuma mensagem, mas um milhão de solicitações de amizade. Pois é, parece que algumas pessoas ainda acham que eu tenho alguma coisa a ver com o Harry. Coitados, mal elas sabem que eu e ele, na verdade, nem nos conhecemos de verdade. Saí do facebook e fui checar o meu twitter, que por sinal, estava às moscas, já que fazia mais ou menos meio século que eu não acessava. Assim que entrei, fui ler os tt’s mundiais, como de costume. Passei os olhos e acabei lendo: “#IWishIWasBlonde (#EuQueriaQueEuFosseLoira)”. Estranhei e ri. Decidi clicar e ver o que as pessoas queriam dizer com aquilo. Quando a página finalmente carregou, pessoas não paravam de twittar coisas como: “Harry só pega garota feia! Se ele soubesse que eu estou bem aqui...”, “Viram a boca daquela garota? Ela devia tá praticamente engolindo ele! KKKKKKK” e “A noite foi boa, hein, Harold! Pelo menos a garota é nova. Menos mal HAHAHA”. A cada segundo que passava, mais e mais mensagens iam se acumulando sobre aquele assunto. Junto com os tweets, vinham alguns gifs e fotos. Óbvio, eu sou humana, fiquei curiosa pra saber do que eles se tratavam e continuei lendo coisas à respeito, até que decidi clicar em um dos links que as pessoas mandavam. Assim que cliquei, me deparei uma cena bastante inédita. Harry beijava uma garota loira.



                                                 
 

É, definitivamente, era ele. Aquele cabelo, aquela orelha, aqueles olhos e aqueles movimentos não enganavam ninguém. Ele estava beijando aquela loira e como estava! O braço dela em volta do pescoço dele, luzes de festa...



                                                



 Parece que o senhor Styles conseguiu pegar mais uma! Bravo, bravo. E loira ainda por cima, do jeito que ele gosta! Nossa, bingo! Estou muito feliz por ele, muito mesmo. Espero que ele não demore tanto pra esquecer o nome dessa outra, já que enquanto isso, ele pode estar esquecendo o nome de outras loiras fáceis e bonitonas. Quer dizer, bonitonas nem tanto né... Claro, a Caroline Flack, Cara, Taylor Swift e Emma até que eram bonitas, mas a Felicity e outras com que ele foi flagrado, no máximo, são apresentáveis. O que será que ele tem naquela cabeça? Será que ele ao menos suspeita de que elas só estão com ele porque ele é o Harry Styles? Será que ele não se dá conta de que no dia seguinte, elas vão falar pras amiguinhas: “Peguei o Harry do One Direction ontem em uma boate em Londres! Ele pagou uma bebida pra mim e me levou pro hotel dele. O garoto é bom!” e depois vão espalhar um monte de fofocas dele? É, ele deve ser muito inocente mesmo. Inocente pra isso, porque pra outras coisas, aposto que ele não é. Beijar essazinha e pronto, aposto que não foi. Só espero que ele amadureça um pouco antes de perder todo seu dinheiro com qualquer uma e de virar escândalo no mundo inteiro. Não, aquilo não era a hora de correr para a cama e chorar como um bebê, muito menos de encher a cara com um pote de sorvete enorme e gastar caixas e mais caixas de lenço. Aquela era a oportunidade perfeita pra fazer o mundo inteiro entender de uma vez por todas que Harry Styles está mais solteiro do que nunca. Decidi procurar na minha mochila um pedaço de papel onde eu havia anotado o telefone da revista “Atrevida”. Sim, pessoas que participam da produção dessa revista arranjaram o meu número de alguma forma e me imploraram por uma entrevista. No começo, achei desnecessário aceitar e apenas recusei o convite, já que achei que essa situação desaparecia com o tempo e não queria me expor. As pessoas, claro, sedentas por dinheiro e uma notícia bombástica, insistiram em deixar o telefone para contato caso eu mudasse de ideia. Parece que elas acertaram, porque eu acabei de mudar... Peguei o telefone o disquei. 

- Alô, produção da revista “Atrevida”, boa tarde. – Atenderam. - Com quem eu falo? 
- Samanta, a ex namorada do Harry Styles. – Respondi. No mesmo momento, a voz do homem do outro lado da linha simplesmente mudou.
- Ah, a Samanta! Olá, Samanta! Posso ajudar em algo, querida?
- Na verdade, sim. Eu estou pronta pra falar tudo que sei. Tudo e mais um pouco. – Disse. – Eu vou dar a manchete que vocês tanto querem.

Naquele instante, o homem não parou de agradecer e passou a chamada para uma outra pessoa. Provavelmente, a pessoa que iria escrever a tal notícia. Após uns minutos esperando, uma mulher me atendeu e a entrevista começou:

Samanta! A brasileira que roubou o coração do fofo do Harry Styles! Como você está?

Muito bem, obrigada! Na verdade, melhor do que nunca. (risos)

Ah é?! E será que podemos saber o porquê dessa felicidade toda, Samanta?

É a minha vida em geral! Eu estou aproveitando a minha adolescência ao máximo, perto da minha família, dos meus amigos, do meu namorado!

Namorado!!! Por falar no Hazza, como ele está? Vocês já se falaram hoje? Ele comentou sobre vir te fazer uma visita?

Na verdade, não me refiro a ele! O Harry não é o meu namorado. (risos)

O Harry não é o seu namorado?! Como assim, Samanta?! E as fotos de vocês dois juntos na Inglaterra? Beijos, mãos dadas? A gente ficou até sabendo que você conheceu a família dele!

É, bom, tudo isso aconteceu, mas foi só um período. Eu e o Harry não estamos mais namorando! A família dele é um amor, gostei muito da mãe dele e da irmã dele, são pessoas muito legais mesmo! Eu até tenho contato com elas. O Harry continua com os trabalhos dele por lá e eu resolvi voltar para o Brasil pra continuar com os meus estudos.

Nossa, estou extremamente chocada! Mas qual foi o motivo do término do relacionamento? Ele parecia estar tão apaixonado, vocês pareciam ter química! E pra falar a verdade, formavam um casal bem fofo!!!

Simplesmente aconteceu porque tinha que acontecer, sabe? Quando não é pra ser, sempre acontece alguma coisa, então eu decidi aceitar e ele também aceitou numa boa. Eu sei perceber quando alguma coisa não tá indo pra frente, por isso o melhor é se afastar do que tá te atrasando. 

Entendo! E como você lidou com essa perseguição dos fotógrafos e emissoras de televisão atrás de você do nada? Foi difícil se adaptar assim tão de repente? Você se sentiu incomodada ou se acostumou com a ideia? Fãs do Harry chegaram a fazer algum tipo de ameaça pra você?

Eu pude ver de perto como tudo na vida de um artista acontece e eu posso falar que não é muito agradável! (risos) Eu admiro as pessoas que conseguem conviver com isso, deve ser bem difícil. Eu acredito que várias fãs do One Direction festejarão quando lerem essa entrevista e eu até entendo elas! Bom, meninas, o Harry é todinho de vocês! Podem aproveitar. Bom, quer dizer... eu não queria contar, mas parece que ele até tá namorando uma loira por aí! (risos)

E o seu namorado, Samanta? Onde você o conheceu e quando começaram a namorar mais ou menos?

Eu e o John nos conhecemos na Inglaterra quando eu fui passar as férias com uma amiga minha lá. Ele é um cara muito gentil e me faz sentir incrível! Eu amei conhecer ele e estou muito feliz mesmo! 

Ficamos felizes por você, então, Samanta! Bom, pra finalizar a entrevista: Conta pra gente algum segredinho do Harry que ninguém saiba e que você descobriu nesse tempo que passou com ele, vai!!!

Um segredinho? Bom, vou contar uma coisa que descobri com ele: Não é o fim do mundo não namorar um super astro de uma banda famosa! (risos)

É. Aquela tinha sido a entrevista. A entrevistadora agradeceu e eu, agradeci de volta. Uau! É como se tudo que estava preso tivesse saído e voado por aí! Agora só falta a revista ser devidamente concluída e comercializada. Mal posso esperar pra ver a reação das pessoas ao saberem de uma vez por todas que eu não tenho nada a ver com o Harry. Um peso a menos! Agora, o caminho tá bem mais fácil sem tanta coisa pra carregar. 
Meu telefone tocou e eu atendi.

- John! – Atendi, feliz.
- Samanta! – Ele riu do outro lado da linha. – Como vai a mais nova cantora do Rio de Janeiro? 
- Não sei, por que não pergunta pra ela? – Falei, fazendo John rir.
- Espera aí! A Ana já me contou que vocês andaram conversando e você decidiu aceitar fazer parte da banda! Era história dela? – Ele perguntou.
- Ah, poxa, a Ana e sua boca grande! – Ri. – Eu só queria fazer um drama, só isso!
- Querendo fazer o seu namorado aqui de palhaço, né? – Ele brincou. – E ele adora isso.
- E eu te adoro! – Respondi. – Fala sério, John! Você acabou de me fazer parecer uma namorada melosa e boba! Isso não é nada bom! – Ri, indignada.
- Toda fera tem o seu ponto fraco! – John me provocou.
- E eu sou o seu, né? 
- Tá me chamando de fera? – Ele indagou.
- De onde você tirou isso? – Brinquei.
- Ai, você faz uma coisa óbvia parecer confusa! – John riu. – Bom, eu te liguei pra te avisar que depois do almoço vamos ter o nosso primeiro ensaio da banda!
- Hã, como assim? Não podemos fazer isso, John! Ainda tem o Jota, ele ainda não topou participar da banda! 
- Claro que topou. Ele mesmo me ligou dizendo e foi ele mesmo que deu a ideia do primeiro ensaio ser hoje! – Ele explicou. – A gente vai dando uma adiantada no nome da banda, na função de cada um dentro dela e em tudo mais básico!
- Sendo assim... – Respondi.
- Podemos almoçar juntos? Eu tava pensando em te levar num restaurante aqui perto do hotel. Passei algumas vezes em frente a ele e fiquei morrendo de vontade de entrar lá, parece ser muito bom! – John me convidou.
- Estava esperando convidar! – Eu ri. – Já estava demorando!
- É, talvez eu esteja te acostumando mal... 
- Então continue assim! Faz tempo que ninguém me mima! – Falei.
- Eu já to querendo fazer isso há um tempo... – Ele riu. – Bom, então eu passo aí daqui há umas duas horas e a gente vai lá, tudo bem?
- Tudo ótimo! Um beijo! – Me despedi.
- Outro.

Desliguei o telefone e suspirei. Entrevista, um encontro, ensaio da banda e olha que o dia mal começou! É, a vida finalmente sorriu para mim! Não custa nada sorrir de volta, né?!

sábado, 25 de maio de 2013

CAPÍTULO 57

Diário da Ana
13 de março de 2013, sexta-feira

                                                       


Sexta-feira treze. Antigamente eu costumava temer este dia, mas hoje eu não me importo, considerando que desde que voltei de Londres o meu calendário parece marcar todos os dias sexta-feira treze. 

Só que hoje, especialmente hoje, a minha sexta-feira treze foi de sorte e alegria. Ah, e... muita, muita esperança! 
E não, não é por causa da banda. Quer dizer, não é só por causa da banda. Bem, estou dando tantas pistas que eu acho que você já sabe o que é.
Antes de eu revelar o que me fez ficar assim, tão contente, vou contar um pouco sobre as novidades da proposta que o John nos fez ontem.
Assim que a Samanta saiu da minha casa, ela logo me ligou. Passamos horas no telefone e eu quase que não dormi de tanto escutar a Samanta falar. Pois é, é isso mesmo que você está lendo, Diário: a Sam estava tagarela. Dá para imaginar? 
Ela passou quase que a madrugada inteira me perguntando se ela deveria aceitar a proposta de seu namorado (como soa estranho escrever isso). Eu, é óbvio, respondia que com certeza sim, que será a nossa chance de alcançar o estrelato, de realizar o nosso sonho - pois eu sei muito bem que no fundo, no fundo a Sam sempre desejou ser uma cantora famosa. 
Um pouco mais tarde, ainda não convencida de meus argumentos, a Sam disse que não iria aceitar, que era loucura. Então eu resolvi apelar: 
― Poxa, Samanta, poxa! ― Lamentei. ― Lembra quando subimos no terraço do meu prédio e fingimos que aquilo era um palco e lá em baixo era a platéia? Nós nos acabamos de dançar e cantar as nossas músicas prediletas daquela época. Foi incrível... Eu lembro até que, quando terminamos de brincar, eu disse: "Me promete que, um dia, ser cantora não será mais uma brincadeira? Será realidade?" e então você respondeu: "Prometo". ― Sam estava calada. ― Eu acho que a hora de você cumprir essa promessa chegou. 
― E eu acho que você está voando alto demais. ― Falou ela simplesmente, orgulhosa. ― Não se cumpre esse tipo de promessa. 
― Que tipo de promessa? ― Me alterei. ― Uma promessa impossível? Ah, me poupe, Samanta. Até você? Lembra que também era impossível conhecer o One Direction?
Ela se calou do outro lado da linha e então eu percebi que as minhas palavras a tocaram.
― Você tem toda razão. ― Respondeu ela depois de um tempo. ― Chegou a hora de eu cumprir a minha promessa.
― Isso quer dizer que...?
― Que eu aceito fazer parte da banda.
Eu não sabia se gritava e acordava a vizinhança inteira ou se corria até a casa da Samanta para abraçá-la até não poder mais.
Emoção, felicidade, alegria, empolgação... era tudo fichinha para o que eu estava sentindo naquele momento.
Fui dormir sorrindo e acordei também sorrindo. Até me esqueci de olhar o calendário. 13 de março de 2013, sexta-feira.
― Bom dia, família! ― Exclamei, sentando na mesa. ― Eba! Bolo de ameixa!
Todos, que estavam acostumados a me ver cabisbaixa, me olharam incrédulos.
― Posso saber o motivo dessa felicidade toda, minha filha? ― Perguntou o meu pai, cortando o seu pão francês.
― Não quero contar agora pra vocês... Vou manter em sigilo o motivo da minha felicidade, para ela não acabar fugindo de mim. 
― Bom, o importante é que a minha boneca está feliz. ― Falou a minha mãe, colocando um pouco de café com leite na minha xícara. 
― Eu mereço! ― Disse o André do nada. ― O que esse babaca está fazendo na TV? ― E então ele logo se levantou para desligar a televisão.
Virei para trás e então eu vi. Vi do que o André estava se referindo. Estava passando, ao vivo, um show do One Direction.
Só em saber que era ao vivo já me deu um friozinho na barriga. 
É estranho saber que naquele exato momento o Niall estava lá, em cima daquele palco, cantando para um tantão de gente. 
Vira e mexe eu me pegava perguntando: "O que será que o Niall está fazendo nesse exato momento?". E agora eu sabia o que ele estava fazendo. Foi por isso que logo me apressei em dizer: 
― Não, André! Não desliga. Deixa aí. Por favor. 
Ele bufou e atendeu ao meu pedido, voltando para a mesa com a maior expressão de ódio.
Me levantei da cadeira com o meu pedaço de bolo e me sentei no sofá, em frente à TV. Por coincidência, o Niall estava dizendo alguma coisa, mas o volume estava muito baixo, então eu logo aumentei no máximo. 
― Aonde você estiver, quero que saiba que, hoje, eu dedico esta música à você, meu amor de verão. ― Dizia o Niall, enquanto a melodia de Summer Love invadia o local.
Meu coração gelou.
A platéia foi à loucura com as suas belas e tocantes palavras. Enquanto aqui, o meu coração ia à loucura.
O Zayn começou a cantar e eu só conseguia repassar na minha mente as palavras ditas pelo Niall. A ficha ainda não havia caído. 
Eu simplesmente não posso acreditar que a garota mencionada por ele era... eu. Todas as meninas presentes ali, literalmente todas, não só desejavam ser aquela garota como a invejavam. E aquela garota era EU. Talvez a minha ficha nunca caia. 
Eu paralisei. Ele começou a cantar.
― Cause you were mine for the Summer, now we know its nearly over. Feels like snow in September, but I always will remember, you were my Summer love. You always will be my Summer love.
As lágrimas rolavam pelo meu rosto sem que eu percebesse. "Você sempre será o meu amor de verão...". Como estas palavras confortaram o meu coração. 
Naquele instante eu percebi que a esperança não é a última que morre. A esperança simplesmente não morre.
Quando eu já estava esperando que a voz do Louis saísse, veio no lugar dela a do Niall. Ele estava cantando a parte do Louis. E ela é justamente a minha parte preferida da música.
― Wish that we could be alone now. If we could find some place to hide, make the last time just like the first time, push a button and rewind.
― Isso é demais pra mim! ― Falei, entre um soluço e outro.
O aperto no meu coração era enorme. Eu só queria poder entrar dentro da televisão e abraçá-lo. Abraçá-lo para sempre. Eu quero de volta a sensação de tê-lo por perto. De tê-lo para mim. Só eu sei o quanto doí essa distância, tanto literal quanto metafórica. 
Todo o encanto se desfez quando o André parou de frente para mim, de braços cruzados, tampando a televisão.
― Ana, para de se torturar desse jeito. Você sabe muito bem que ficar vendo essas coisas não vai mudar nada. O que passou, passou. ― E então ele se sentou ao meu lado e ficou acariciando as minhas costas. ― Ficou para trás. Já está mais do que na hora de você seguir em frente, não acha?
― Mas eu vou seguir em frente, André. ― Falei, fungando. ― Aliás, já estou seguindo em frente. Eu vou mostrar para ele que aquela que ele conheceu era o tempo todo eu. Eu nunca fui outra pessoa além de mim. 
― Você não precisa provar nada para esse cara, Ana. Se você está com a consciência limpa, ótimo. É apenas isso que importa. ― Disse o André. ― Bom, por falar nisso, você está atrasada para a aula. E, nesse momento, é apenas isso que importa.
Nós dois começamos a rir.
Perto do André eu sempre sou uma pessoa feliz.
Entrei na sala de aula pouco antes do sinal tocar. Meu coração estava disparado por eu ter corrido todos os trinta e seis degraus até o segundo andar.
― Oi, gente! ― Exclamei, ofegante, pendurando a minha mochila atrás da minha cadeira.
― Oi!!! ― Falou a Ju, vibrando, por algum motivo, de emoção. ― Como vai, srta. Horan?!
O Gabriel deu um risinho, já o Arthur e a Sam estavam com expressões sérias.
― Vocês também viram? ― Disse, com um sorriso de orelha à orelha.
― Eu não acredito, Ana! ― Falou a Sam. ― Que sorriso é esse na cara? O plano não era esquecê-los?
Meu sorriso logo se apagou.
― Eu sei... Mas é que, Sam, se ele dedicou àquela música para mim, significa que ele ainda gosta de mim!
A Sam revirou os olhos e disse:
― Ele não gosta de você e nunca gostou. Porque se gostasse, não teria te despachado daquela maneira e não estaria com a Amanda agora. Ou você se esqueceu disso? ― É, eu havia me esquecido. ― Sem falar que, como ele mesmo disse, você foi apenas um amor de verão. E o verão já passou, junto com o amor dele por você. 
Aquelas palavras foram tão cruéis que pareceram facadas no meu coração. Mas talvez a Samanta tenha mesmo razão. Eu não devo alimentar as minhas esperanças e fazer papel de boba novamente. Como o André mesmo disse, já está mais do que na hora de eu seguir em frente. E é exatamente isso que eu vou fazer. Só que na direção contrária que a Niall, para eu não correr o risco de esbarrar com ele por aí.
Sentei na minha carteira e não abri a boca para falar mais nada.
De repente o meu celular vibrou. Peguei-o disfarçadamente para ver o que era. Era uma mensagem do Jota, e nela dizia:
"A proposta ainda está de pé?"



                                              

quinta-feira, 23 de maio de 2013

CAPÍTULO 56

Diário da Samanta

12 de março de 2013, quinta-feira


                                                





Acordei como se fosse outra pessoa. Uma pessoa renovada, zerada, que finalmente decidiu mudar e conseguiu. E se ainda não conseguiu, pelo menos,
 tomou providencia do início dessa mudança. É, é isso aí. A velha Samanta se foi, e eu preciso admitir que gosto mais da nova. Ela é mais decidida, confiante e se valoriza muito mais do que antes. Por mais que hoje tivesse aula, eu não me importei. Nada podia me desanimar no momento. Levantei da cama, fiz todo o meu ritual de sempre e meu pai me levou para o colégio. Vi a Ana, o Arthur, a Juliana e o Gabriel na sala de aula.

- Bom dia! – Exclamei, abrindo um enorme sorriso em seguida.
- Vai, me conta logo! – Ana levantou e correu em minha direção, completamente curiosa e aflita.
- Vai com calma, garota! – Ri, abismada com a reação dela.
- Samanta, você disse que ia me contar logo que chegasse na escola! Vai, conta de uma vez por todas! Antes que eu morra de curiosidade, poxa! – Ana insistia, e eu, claro, só ria.
- Agora vai ter que contar pra todo mundo! – Juliana disse, levantando com Gabriel e Arthur.
- Não é hora de interrogatório, gente. – Sentei, revirando os olhos e querendo fazer mistério.
- Ai, quando a Samanta quer ser irritante, ela consegue! – Juliana resmungou. – Eu detesto ser curiosa!
- Cuidado, a curiosidade matou o gato. No caso, a gata. – Arthur aproveitou o momento para uma das suas piadas sem graça.
- Então, pelo visto, a Samanta não é curiosa, porque ela tá vivinha da Silva. – Gabriel comentou.
- Eu juro que podia passar o resto dos meus dias sem essa! – Arthur gargalhou tanto que ficou vermelho.
- Não vai dar nenhum fora nesse comentário brega do Gabriel, Samanta? – Juliana perguntou, surpresa.
- Que nada! Deixa ele falar. Ele tem uma boca, merece essa liberdade. – Respondi, sorridente. Todos estavam desentendidos.

Ana estava de braços cruzados e me olhando com um olhar mortal. Pelo visto, estava morrendo de raiva por eu estar fazendo aquela cerimônia toda para contar o que eu tinha pra contar. Ela me conhece bem, sabia que eu queria, no mínimo, a irritar e a provocar. Não resisti, puxei o braço dela e saímos correndo pelo corredor da escola em direção ao banheiro. Entramos rápido, antes que Juliana nos visse e paramos, ofegantes.

- Vai contar ou não? – Ana perguntou, já sem paciência.
- Vou, vou! – Falei, ainda cansada. Respirei um pouco e logo voltei a olhá-la de um modo empolgante.
- Desembucha! – Ana me chacoalhou.
- Eu e o John estamos namorando. – Soltei de vez.

Ana ouviu e apenas ficou séria.

- Ah, fala sério, Samanta! Não tem graça. Ele tá magoado com esse assunto, não acho legal você ficar brincando com uma coisa dessas. – Ela dizia, com cara de pena.
- Ana...
- Ele me mandou um e-mail super fofo dizendo o quanto queria que você gostasse dele e o quanto tava super mal com o que houve lá na casa da Ju. – Ana continuava.
- Ana. 
- Na minha opinião, você devia dá uma chance pra ele! O John é um cara muito gente boa e vai te tratar como uma princesa, além de que...
- ANA! – Gritei. Ana parou de falar, arregalou os olhos e me olhou atenta.
- Eu e o John ESTAMOS namorando. – Repeti.

Ela inclinou a cabeça e franziu a testa, como se perguntasse mais uma vez se isso era verdade, esperando uma confirmação. Suspirei e balancei a cabeça positivamente. No mesmo momento, Ana começou a saltitar e pular pelo banheiro com a notícia.

- Ai, caramba! Eu mal posso acreditar! Vocês são tão fofos juntos! O John deve estar tão feliz nesse momento! Nós três podíamos marcar de sair um dia desses e conversar! Vai ser tão divertido! – Ela tagarelava, fazendo planos e com os olhos brilhando.
- É, pode ser... – Ria. 

Vendo que Ana não ia parar de falar tão cedo, decidi puxar o braço dela e levá-la de volta para a sala, enquanto ela ainda sim continuava soltando frases constantemente. A aula começou e trocamos bilhetinhos o dia inteiro. Conversamos sobre isso e Ana me convidou para ir ao seu apartamento quando a aula acabasse. Aceitei! O tempo foi passando, o recreio passou e o sinal da saída finalmente soou! Gabriel e Juliana ainda continuaram insistindo para que contássemos o segredo, mas eu disse que contaria depois. Eles estavam tão interessados para saber da notícia que ficaram a todo instante tentando roubar os recados e ler o que eu e Ana estávamos falando sobre John. Bom, agora ele é o meu namorado. Logo, logo eles iriam saber disso. Não se deve esconder uma coisa dessas dos seus amigos, nem mesmo dá pra esconder uma coisa dessas dos seus amigos...
Liguei para os meus pais e pedi para ir para o apartamento de Ana. Para a nossa alegria, eles deixaram! Saímos do colégio e o pai de Ana estava a esperando no carro na esquina. Fomos até lá e entramos. Minutos depois, chegamos no condomínio e subimos correndo para o apartamento! Sim, subimos correndo literalmente. Não usamos o elevador, e sim, as escadas. Fingimos que estávamos em uma perseguição. Eu era o ladrão e Ana, a vítima. Ela fugia de mim assustada e gritava de nervosismo, enquanto eu também gritava para assustá-la. Assim que chegamos no andar, caímos na risada. Entramos no apartamento e vimos André sentado na sala com uma garota loira. Provavelmente era a sua namorada, Beatriz, a garota que tanto Ana falava mal.

- Oi, maninho! – Ana o abraçou, sorrindo.
- Oi, Anoca. – Ele riu, bagunçando o cabelo dela.
- Samanta, essa é a Beatriz, a namorada do André. E Beatriz, essa é a Samanta, minha melhor amiga. – Ana nos apresentou. Beatriz me olhou dos pés a cabeça e abriu um sorriso amarelo.
- Olá, Samanta! Amei o seu tênis! Onde você comprou? – Beatriz me cumprimentou.
- Ah, obrigada! Eu comprei pela internet mesmo. – Respondi. – Já eu amei o seu namorado! Onde você arranjou?

No mesmo momento, Ana me olhou vermelha e começamos a rir. Saímos correndo para o seu quarto e o trancamos. Caímos na cama e rimos novamente. Nós somos tão bobas! Eu amo ser boba, principalmente do lado da Ana.

- Samanta, você não tem jeito! – Ana ria e imprensava a barriga com as mãos.
- Ah, vai me dizer que você não gostou? – Perguntei, rindo.
- Gostei até demais!

Logo depois, fomos para a cozinha almoçar. André e sua namorada não estavam mais na sala, deviam ter saído. Comemos e Ana decidiu ligar para John para ele dar uma passada no apartamento dela. Fiquei super empolgada e concordei. Ela discou o número e ele atendeu. No mesmo instante, a campainha tocou. Fui até a porta e abri, afinal de contas, Ana estava ocupada falando no telefone. Dei uma olhada no olho mágico e avistei Jota lá, parado, olhando para baixo e com as mãos enfiadas no bolso. Destranquei a porta.

- Olha só quem decidiu aparecer! O lobo mau! Por que não soprou o apartamento até derrubá-lo ao invés de tocar a campainha? Que sem graça! – Jota riu.
- Eu não queria machucar as minhas lindas porquinhas! – Ele respondeu, dando um sorriso e coçando sua barba.
- Ah, conta outra! Como se você pudesse machucar alguém. Não deve ter coragem nem de matar uma formiga!
- Eu machucaria para salvar minhas belas donzelas. - Jota piscou e mudou de assunto. - Você vai ficar mesmo me barrando ou eu posso entrar?
- Eu não deixaria, mas o apartamento não é meu, né. Fazer o que... – Respondi, rindo. Jota entrou e eu fechei a porta. 
- Seu senso de humor é mesmo de se admirar. – Jota comentou em meio a um sorriso, me olhando fixamente.
- Queria poder dizer o mesmo. – Pisquei, cruzando os braços.
- Jota? O que faz aqui? – Ana se assustou ao chegar na sala com o telefone na mão. 
- Caramba! Como estou sendo bem recepcionado hoje nessa casa. – Ele riu, batendo as mãos nas pernas.
- Apartamento, tecnicamente. – Decidi comentar.
- Casa, tecnicamente. – Jota retrucou. 
- Casa, apartamento! Que seja, gente! – Ana riu. 
- Bom, já que o Jota não vai responder... Ana, ele vem ou não? – Perguntei.
- Quem? O John? Mas é claro que vem! Aliás, ele já deve estar chegando! – Ana respondeu, animada.
- Ah, aquele cara meio sem noção que tava na festa. – Jota comentou.
- É, meu namorado. – Respondi, sorrindo sinicamente. Jota levantou as mãos.
- Foi mal, mas sou mais eu. – Ele falou.
- Ai ai... O mundo tá perdido. – Disse, depois de uma alta gargalhada. Ana riu e Jota deu um sorriso convencido, sentando no sofá.

Sentei no outro e Ana sentou do meu lado. Nós três ficamos conversando um pouco, até a campainha tocar novamente. Levantei empolgada e corri até a porta. Olhei pelo olho mágico e lá estava ele, lindo e paciente. Sorri e destranquei a porta.

- Olá, posso falar com a Ana? – John perguntou, sorrindo. Ri, dei um beijo em sua bochecha e o abracei forte. – Nada mal! – Ele falou, me abraçando de volta e cheirando o meu cabelo.
- Ah, fala sério! Nem rola um beijo na boca? – Jota perguntou, sendo totalmente inconveniente e idiota.
- Pode rolar um soco na cara, que tal? – O ameacei, fazendo John e Ana riram. 

Fechei a porta e eu e John fomos em direção aos sofás. John sentou do lado de Jota em um dos sofás e eu, do de Ana em outro sofá.

- Acho que não fomos apresentados devidamente no outro dia. – John falou para Jota. – Prazer, eu sou o John. – Ele esticou a mão.
- Nossa, não esperava que o namorado da Samanta fosse assim não refinado... – Jota comentou, apertando a mão do John.
- O que quer dizer com isso? – Perguntei.
- Não vai querer que ele responda, Sam... – Ana riu.

Passamos a tarde inteira conversando, só nós quatro. Resolvemos ir para o quarto de Ana para conversar melhor. Conversa vai, conversa vem, até que chegamos em um assunto bem tenso, eu diria... 

― Bom, ao invés de um quarteto amoroso, eu proponho que formemos um quarteto... musical. – John falou, logo após desconsiderar uma ideia estúpida do Jota.
- Uma banda? – Perguntei, assustada e perplexa.

Assim que John falou aquilo, meu coração gelou. Olhei para Ana e ela estava com os olhos brilhando, totalmente de acordo com a ideia e por ela, podíamos começar a cantar ali mesmo. Jota ficou totalmente surpreso e me olhava desconcertado. John esperava uma resposta de nós três e eu só conseguia pensar na loucura que tinha sido aquela ideia.

- E aí, o que me diz? – John me perguntou, segurando a minha mão e sorrindo.
- Não me leva a mal, gente, mas sem chance nenhuma... – Falei, surpresa e perplexa. – Isso é loucura. Eu não me vejo numa banda, não tenho vocação pra fazer parte de uma e prefiro continuar pensando na minha carreira como modelo, obrigada. 
- Samanta! Seria incrível! Imagina, nós quatro dentro de uma mesma banda! Podíamos ensaiar, compor juntos, tocar em lugares e ainda por cima trabalhar juntos! Eu não consigo pensar numa ideia melhor que essa! – Ana parecia estar mais feliz do que nunca, afinal de contas, estávamos falando do seu sonho. – John, você é genial!
- Ana...
- Olha, não precisamos de uma resposta nesse momento. Vamos pensar nisso com calma e tomar uma decisão em conjunto. Tá bom? – John me interrompeu, olhando para nós três.

Balancei a cabeça e Ana disse que sim. Jota parecia confuso, parecia estar com medo daquela ideia. Eu não me sentia nada diferente. Uma banda? Não que fosse ruim trabalhar junto com Ana, Jota e John, mas eu não tinha certeza se tinha talento pra uma coisa daquelas! Ana tem uma voz linda e John é ótimo tecladista. Pelo que Ana me contou, Jota é bom na bateria e onde fico eu nessa história? Tocando triângulo? Bom, Ana sempre disse que a minha voz era bonita, mas eu nunca acreditei muito nisso. Só cantava mesmo por hobby, mas nunca pensei em usar as minhas cordas vocais para algo realmente sério. Aliás, ter uma banda não é nada fácil! Não sei se aguentaria aqueles fotógrafos chatos no meu pé pra qualquer lugar que eu vá e não ter privacidade alguma, nem controle da minha própria vida. Eu só conseguia pensar em palco como passarela, não com microfones e instrumentos musicais! Depois que tocamos nesse assunto, todos ficamos calados. Bom, pelo menos eu, Jota e John, que só ria pela animação da Ana. O clima ficou um tanto que pesado. Decidi ver que horas eram e já era tarde, mas resolvi ficar mais um pouco por lá, conversando. John levantou do sofá e se despediu de todos, pois já estava de saída para o seu hotel.

- Nos vemos depois, Ana! – John a abraçou. – Cuida bem dela enquanto a sua família não chega, hein, Jota!
- Pode deixar. Vou cuidar direitinho dela. – Ele a olhou, estalando os dedos. 
- Eu sei me cuidar. – Ana decidiu falar, o olhando séria. Ri.
- Não quer mesmo que eu te dei no seu condomínio? – John me perguntou, com as mãos no m eu rosto.
- Não precisa, John! Daqui a pouco meu pai chega do trabalho e eu peço pra ele me pegar. Afinal de contas, quem sabe o que pode acontecer nesse apartamento se eu sair e deixar esses dois a sós por uns cinco minutos? – Ri e os encarei.
- Pois é, pode rolar de tudo... – Jota falou, olhando atentamente para Ana.
- No mínimo, uma briga das feias! – Ana comentou, encarando Jota. John riu.
- Não esqueçam de pensar na proposta, pessoal. Ela é bem séria! – John nos lembrou. – Até mais, Ana! Bom te conhecer melhor, Jota. – John sorriu e me deu um beijo.

Fui o deixar na porta e ele se foi. Voltei para o sofá e eu, Ana e Jota continuamos conversando um pouco, até que não deu muito tempo e o interfone tocou. Um dos porteiros disse que o meu pai estava me esperando lá embaixo. Me despedi dos dois e desci. Entrei no carro e dei um beijo na bochecha do meu pai. Ele começou a me contar coisas que aconteceram no escritório nessa tarde, mas pra falar a verdade, eu não conseguia prestar atenção em nada que saia da sua boca. Estava ocupada demais com a cabeça nas palavras que John havia falado. Será que vale a pena arriscar? Arriscar tudo assim, de uma vez só? Bom, se eu já me arrisquei uma vez, por que não me arriscar outra?

CAPÍTULO 55


Diário da Ana
12 de março de 2013, quinta-feira


Eu mal posso acreditar. A Samanta veio aqui hoje à tarde juntamente com o... John. A princípio, não desconfiei de nada; mas depois os dois começaram a lançar olhares apaixonados um para o outro e então eu percebi tudo (quer dizer, a Samanta ainda estava meia tentando se acostumar com a ideia, mas o John parecia estar completamente derretido): os dois estavam juntos. Juntinhos da silva!
Fiquei tão contente pela minha amiga! Ela precisava mesmo de alguém para tampar o buraco no peito que o Harry deixou. Porém, ao mesmo tempo, eu ainda tinha (e tenho) esperanças que eles voltassem um dia... Você pode até estar me achando uma boba iludida, mas a vida é imprevisível, hoje eu posso estar aqui deitada nessa cama, escrevendo no meu diário, e amanhã eu posso estar ganhando um prêmio no Grammy (meu maior sonho!!!!). E mais: com o Niall me aplaudindo de pé na platéia.
Pode até parecer ilusão minha achar que um dia vou realizar todos esses sonhos, mas eu acredito que vou e se eu acredito, já é meio caminho andado para eu conseguir concretizá-los.
― E então é isso? ― Perguntou o Jota, sentado no puff do meu quarto.
― E então é isso o que, garoto? ― A Sam perguntou, ao lado do John na cama.
― Vocês musicam poemas e nem me chamam! ― E então ele se virou para mim e piscou. ― Minha bateria daria um toque especial nas suas músicas, Ana.
― Você mesmo disse que arranjaria problemas na sua casa se se envolvesse com coisas desse tipo.― Falei. ― Ninguém te entende, Jota!
Ele suspirou e coçou a nuca.
― É complicado... Mas eu tentaria dar um jeito, ― falou, sorrindo de lado ― afinal, faço de tudo para ajudar meus amiguinhos que ainda não tem experiência no ramo.
Nós três, ao mesmo tempo, gargalhamos debochadamente.
― E você pelo menos tem alguma experiência, Jota, para poder ensinar seus amiguinhos aqui? ― Brincou o John.
― Ele deve parecer uma barata tonta no ramo da música! ― Disse a Sam, debochada.
O Jota se acha "O adulto da 'turminha'", sendo que o John tem praticamente a mesma idade que a dele. Sem falar que de dezesseis para vinte e três nem é tanta diferença assim, e, se bobear, eu sou mais madura que o Jota. Quer dizer, se bobear não, eu sou mais madura que o Jota.
O Jota ficou um pouco pensativo, deu um sorrisinho e, por fim, disse:
― Eu tenho mais experiência nesse ramo do que vocês imaginam. Pode apostar.
Ficamos totalmente incrédulos, mas depois percebemos que o Jota só disse aquilo para nos impressionar e também para retrucar. Típico dele.
Passamos a tarde inteira num clima um pouco estranho, já que eu e o Jota estávamos segurando vela para a Sam e o John, ou seja, eu e o Jota acabávamos ficando meio excluídos, ou seja, eu me via obrigada a ficar conversando somente com ele, e, você sabe, nenhuma conversa é completamente normal com o Jota.
Vira e mexe ele falava alguma canalhice e eu relevava, afinal, ele é o melhor amigo do meu irmão, e também eu não vou perder o meu tempo tentando reeducar o Jota.
Quando já estava anoitecendo, de repente me bateu uma tristeza, uma sensação esquisita, não sei. Ver a Sam e o John juntos só me fez ficar com mais vontade de estar ao lado do Niall... Eu só queria arranjar uma maneira de prová-lo que em momento algum me aproximei dele por interesse, apenas por amor e somente por amor.
― Um lanchinho pra vocês, crianças! ― Disse a minha mãe, entrando no quarto com uma bandeja cheia de mini cachorros-quente.
Eu estava tão sensível naquela hora que simplesmente comecei a chorar quando ela disse aquilo.
O Niall ama cachorro-quente e comer cachorro-quente só me faz lembrar dele. Sem falar que... sei lá, eu estou no Brasil, convivendo com pessoas desanimadoras a todo tempo (não a minha família e amigos, e sim os meus colegas de classe)... tudo isso me faz ficar tão triste, tão desanimada com a vida. Eu queria estar em cima de um palco cantando as minhas canções e ouvindo a platéia me acompanhando; queria estar namorando o Niall; queria ser famosa. Não pense que é futilidade da minha parte, já que sei que existem vidas muito piores e precárias que a minha e eu aqui reclamando dela e ainda ousando sonhar ser famosa etc. Mas a minha intenção não é ruim, é o meu sonho, não posso fazer simplesmente nada.
Quando eu era pequena eu costumava colocar o meu DVD do show da Hannah Montana e então eu começava a dublar as músicas e a imitar os seus movimentos, como se eu que estivesse em cima do palco enorme que ela estava. E o engraçado é que eu realmente sentia a emoção de estar cantando para uma multidão. Porém, depois que o DVD terminava, toda a magia se ia e então eu voltava para a realidade; me olhava no espelho, me via vestida de pijama de estrelinhas, no meu quarto vazio, e pensava: eu definitivamente não estou em um show.
― O que foi, minha filha? Eu falei alguma coisa de errada? ― Perguntou a minha mãe, preocupada.
― Não é nada, não, mãe. ― Respondi, fungando um pouco. ― É besteira minha.
Minha mãe custou a acreditar, mas depois acabou saindo do quarto, ainda incorfomada.
Ainda bem que o André tinha saído com a Beatriz, senão ele iria vir com um interrogatório daqueles pra cima de mim.
― A mim você não me engana, senhorita Ana, então pode ir me contando o motivo desse choro. ― Falou a Samanta.
Como não adiantaria absolutamente nada ficar fingindo para a Sam, acabei contando a verdade de uma vez. Apenas acabei esquecendo de um detalhe na hora do impulso: o John e o Jota estavam lá e acabaram escutando tudo.
― Ai, gente, me desculpa. Eu sei que sempre quando toco nesse assunto o clima fica meio pesado. Principalmente agora que você e a Sam estão... bem, enfim. É melhor mudarmos de assunto.
O John prefirou não comentar nada, apenas disfarçou a tristeza e esboçou um sorrisinho amarelo.
― Ana, acho que esse é o momento certo para eu te falar uma coisa... ― Falou o John, fazendo o que eu sugeri (mudar de assunto). ― Na verdade, é uma proposta.
― Qual é a proposta? ― Se intrometeu o Jota. ― Formarmos um quarteto amoroso? Eu topo na hora!
Eu e a Sam achamos aquele comentário tão desnecessário e idiota que jogamos, ao mesmo tempo, um monte de almofadas em cima do Jota.
O John apenas revirou os olhos e continuou:
― Mas na verdade é quase isso.
― Quase isso? ― Indaguei, incrédula. ― Eu estou começando a ficar com medo.
― E eu. ― Comentou a Sam, parecendo curiosa.
― Bom, ao invés de um quarteto amoroso, eu proponho que formemos um quarteto... musical.
― Uma banda?! ― Perguntou a Sam, parecendo estar totalmente horrorizada com a ideia.
Já eu não abri a boca para dizer uma palavra sequer. Na verdade, acho que nem raciocinei direito na hora, levei um tempo para processar tudo aquilo. O meu maior sonho estava sendo oferecido para mim assim, de bandeja? E ainda mais os meus melhores amigos iriam fazer parte disso tudo? Eu simplesmente fiquei sem reação. Não sabia se gritava, se chorava, se pulava em cima do John ou se, sei lá, me descabelava toda.
― Uma banda? ― Eu apenas repeti, ainda sem acreditar, depois de um tempo.
― Epa, epa, epa... ― começou o Jota ― um quarteto? Podem tirar o cavalinho da chuva que eu não vou participar disso, não.
― Jota, você toca bateria e quer ver a Ana feliz, não quer? ― E então ele se virou para a Samanta. ― E, Sam, eu sei que por baixo desse disfarce de durona você tem uma garotinha com sonhos. E nem adianta negar, a Ana me contou que você sonhava em ser cantora quando pequena.
A Sam revirou os olhos e cruzou os braços.
― Mas isso foi há muito tempo atrás. Faz tanto tempo que eu nem me lembrava mais disso. Sem contar que eu vi com os meus próprios olhos o quanto é ruim ser um cantor famoso e eu não quero aquilo pra mim de jeito nenhum. Eu tenho nojo desse mundinho asqueroso da fama.
― Mas, Sam, ― me intrometi ― eu sei que no fundo você deseja tanto quanto eu ser cantora. A sua voz é incrível, você é incrível e, poxa, é o meu sonho também. Com vocês me ajudando tudo se tornaria tão mais fácil de se realizar... Pensem com carinho, vai!
O Jota e a Samanta negaram várias vezes seguidas, argumentando coisas diferentes a cada instante.
Alguns minutos mais tarde o John falou que teria que ir embora, então ele se despediu de nós e disse:
― A proposta vai continuar de pé, ouviram? Eu espero que vocês pensem melhor.
Eu respondi que eu pelo menos nem precisava pensar, que já estava totalmente dentro e a favor da ideia.
Me dá um friozinho bom na barriga só de estar escrevendo essas coisas aqui em você, Diário.
Eu sinto que, em um futuro próximo, as pessoas ainda ouvirão falar muito de nós. E eu nem preciso te pedir para anotar estas palavras, pois elas já estão anotadas.