segunda-feira, 6 de maio de 2013

CAPÍTULO 54

Diário da Samanta

11 de março de 2013, quarta-feira

                                                   




Mais parecia um domingo, dia de não fazer nada, apenas ficar jogada na cama, olhando para o teto e relembrando tudo que aconteceu. Na verdade, se for assim, todos os dias da minha vida são domingos. É, mas agora, mais do que nunca, todas as coisas parecem erradas. Até sábado, tinha certeza que podia contar com o John para tudo que eu precisasse, mas agora, nem sei se ele tem vontade de olhar na minha cara de novo. Pelas coisas que ele disse desde a última vez que nos vimos, eu realmente perdi um amigo. Pois é, o que eu mais temia, acabou acontecendo. Está mais do que na hora de tomar uma iniciativa e colocar todas as coisas em ordem. Eu preciso, de uma vez por todas, separar e organizar todos os meus sentimentos. Isso é uma prioridade. Precisa ser uma prioridade, porque se não for, eu não sei até quando vou suportar sentir o que eu sinto toda vez que abro os olhos e me deparo nesse quarto, vivendo essa vida, tendo que reviver a tristeza, a dor e a angústia que vivo todos os minutos dos meus dias. Afinal de contas, se eu não fizer isso por mim mesma, quem fará? Ele que não vai ser. Eles que não vão ser. Não parece certo ficar vendo a minha vida passar, sem fazer nada para torná-la melhor ou menos pior, enquanto todos à minha volta fazem planos e aproveitam tudo que a vida lhes oferece. Nós só temos uma vida, temos que lutar por ela. Lutar com unhas e dentes, e não insistir em destruí-la e afundá-la para o fundo do poço. É, diário, e não basta apenas colocar isso em palavras. Essas palavras precisam se tornar atitudes. Não estava com cabeça para ir para a escola. Ela podia esperar um pouco, mas a minha paz, não.


Levantei da cama e me enfiei no chuveiro. Quando saí, vesti um short jeans desbotado, uma regata branca, calcei meus chinelos, escovei meus dentes e amarrei o meu cabelo de um jeito qualquer. Abri lentamente a porta do meu quarto, já que ainda era 6:10h da manhã e todos da minha casa deviam estar dormindo. Na verdade, com certeza estavam. Fui até a cozinha, bebi um copo d’água e saí do apartamento. O dia ainda estava amanhecendo, a luz do sol surgia no céu e o azul ia aparecendo aos poucos. Que vista linda! Como é bom respirar e apreciar o que temos à nossa volta todo dia, mas às vezes, esquecemos que existe. Saí andando pelas ruas do Leblon, pensando sobre a vida, em passos lentos e curtos. A pressa não era bem-vinda naquele momento. Ouvia o canto dos pássaros bem de perto, que provavelmente estavam nas enormes e antigas árvores. Fazia tanto tempo que eu não fazia aquilo! Nem me lembro da última vez que tirei um tempo para mim mesma, um tempo, nem que seja pequeno, para colocar o que não está certo em ordem. Um tempo para refletir sobre tudo que precisa ser refletido. E sem dúvidas, eu precisava disso.

Andei mais um pouco pelas ruas e finalmente, cheguei na praia. Saí da calçada, segurei as minhas sandálias e enfiei o meu pé na areia macia. Como aquilo soava bom e relaxante... Fui andando em direção ao mar. Ele estava calmo, apenas abrigava ondas pequenas e tranquilas, que quebravam lentamente. Finalmente, sentei, cruzei as minhas pernas e suspirei. Fechei os meus olhos. Naquele exato momento, foi como se tudo na minha mente, clareasse e estivesse nítido o que eu precisava, o que eu devia fazer. No mesmo instante que me deixei levar pelo som das ondas do mar e pela brisa fria que tocava a minha pele, senti uma paz imensa tomar conta do meu corpo, da minha alma, do meu coração! É como se ali, só comigo, eu conseguisse enxergar tudo que me faltava. Nada e nem ninguém podia confundir os meus pensamentos, fazer minha cabeça, tentar me direcionar para algum caminho. Só eu tinha o poder de fazer aquilo comigo mesma. 

É óbvio que eu vivi momentos incríveis em Londres, momentos que, com toda certeza, nunca esquecerei. Conhecer Harry sempre foi um dos meus maiores sonhos, se não o maior deles. Eu sempre quis dizer um “olá” para ele, sentir o seu abraço, uma foto ao seu lado, e eu acabei tendo bem mais que isso. Eu acabei tendo a oportunidade de não só sentir o seu abraço, mas o seu beijo, de não só dizer um “olá”, mas a oportunidade de poder trocar palavras de todo tipo com ele por vários dias. Tudo parecia um sonho, tudo aconteceu muito depressa. Nem eu e nem ele tivemos tempo para processar tudo que estava acontecendo ao mesmo tempo. É normal que tenhamos confundido tudo. Eu me deixei levar pelo o meu amor de fã, pelo perfume encantador dele, pelo seu sorriso fascinante, pela sua voz irresistível. E ele... Ele enxergou algo em mim que eu nem sei dizer exatamente o que foi, mas foi passageiro, insignificante. Agora, nós não temos nada mais a ver um com o outro, não mantemos contato, não faço ideia de onde ele esteja e nem ele de onde eu esteja. Tivemos alguma coisa? Tivemos. Mas acabou, passou. O que passa, não volta mais. Não estou dizendo que vou esquecer de tudo que ele me disse e de todos os momentos que eu pude passar ao seu lado, mas também não significa dizer que eu vá continuar sofrendo por ele e me lamentando por tudo ter acabado do jeito que acabou. A vida sabe o que é melhor para cada um de nós. Se as coisas acabaram do jeito que acabaram, era pra ser. A vida dele segue e com a minha não será diferente. Se todas as pessoas deixassem de viver por uma coisa que aconteceu no passado, ninguém iria ao trabalho, ninguém sorriria, ninguém diria um simples “bom dia” para o seu próximo. O mundo não mudaria. Quer dizer, mudaria, claro, para pior. Eu sei que se eu pudesse, não mudaria nada. Nada do que eu falei para ele, nada do que ele falou para mim. Não cabe a mim julgar se tudo que ele me disse foi mentira ou verdade, mas apenas sei que foi o que ele me disse, o que saiu da sua boca, o que ecoou na sua voz. Não sei se ele ainda pensa em mim, mas sei que ele já pensou, que eu já fui dona dos seus pensamentos e já tomei conta de toda sua visão por alguns momentos. É isso. Aconteceu, acabou, passou, não existe mais. E nem nunca vai existir. Por que era tão difícil para mim enxergar isso? É tão óbvio que chega ser ridículo. Claro, não era óbvio para mim porque eu só sabia olhar tudo pelo lado negativo e chorar pelo leite derramado, mas nunca sabia me dar conta do que melhorou depois que ele se foi. Talvez um dia eu ainda o encontre por aí, em alguma rua, em algum lugar. É possível que ele esteja com sua namorada, sua noiva, sua esposa. Eu podia escolher contar muitas coisas ao seu respeito para a mídia, a imprensa. Podia espalhar e desabafar para todos o que ele faz, como vive, com quem anda. Mas o que vou escolher fazer é simples: Sorrirei e passarei direto, como se ele nunca tivesse existido. Como se nunca tivesse existido “nós”. 

Abri os olhos e junto com eles, um sorriso. Aquele era o momento! Levantei e saí correndo em direção à saída da praia. Peguei um táxi e fui até o Copacabana Palace. Tirei todo o dinheiro que tinha da bolsa e joguei para o taxista, sem nem me importar com o troco ou com quanto o trajeto tinha dado. Entrei na recepção e entrei no elevador. Escutei alguns seguranças gritando para eu parar onde estava, mas não dei atenção alguma. Andar 8. Quarto 16. Toquei a campainha e esperei, totalmente impaciente e ofegante. A porta se abriu. John estava bem na minha frente, surpreso e descabelado, com cara de sono e vestido com um roupão preto. Não pensei duas vezes e o abracei com toda a minha vontade e todas as forças que me restavam. Fechei os meus olhos e o apertei forte contra o meu corpo, como se aquela fosse a minha salvação. Os braços de John foram se encostando no meu corpo aos poucos, provavelmente, ele estava com uma expressão desentendida e completamente desconfiado. Não estava entendendo o que eu pretendia com aquilo e o porquê de eu estar daquele jeito.

- Senhor, senhor! Algum problema por aqui? – Um segurança enorme parou em frente ao quarto, preocupado e totalmente sério. John me olhou, ainda sem reação.
- Não, problema nenh... – John começava a responder, antes que eu começasse a lhe interromper.
- Na verdade, há um problema imenso aqui. – Respondi, encarando o segurança. – O problema é que eu não dei valor pra quem eu realmente devia ter dado desde o início. Eu preferi alimentar uma ilusão que eu carregava dentro da minha cabeça. Mas agora, eu consigo enxergar tudo. – Pausei e olhei nos olhos de John. – E tudo que eu preciso é você.

John engoliu em seco e me olhou atencioso, emocionado. Quando acabei a minha frase, John me deu um carinhoso beijo na testa e encostou meu rosto em seu peito, me abraçando e me aquecendo. Ao perceber que o segurança depositava toda a sua atenção em nós dois, John não resistiu e deu um lindo sorriso. O segurança fez o mesmo. A partir daquele momento, muitos sorrisos estavam para surgir, e junto com eles, uma nova vida. Uma nova vida minha, ao lado dele. Uma nova vida feliz, positiva, sem arrepedimentos. Uma nova vida sem mentiras, dramas, sem holofotes.

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