02 de março de 2013, segunda-feira
Querido diário,
Março chegou. E com ele, o início das aulas. De fevereiro, só restam lembranças, lembranças que me parecem mais ilusões. Eu sei que vivi tudo aquilo em Londres, sei que entrei na vida do Harry, mas ao mesmo tempo, tenho as minhas dúvidas. Do mesmo jeito que tenho essa certeza, me pergunto se o problema não sou eu, se eu não estou realmente mentindo pra mim mesma. É difícil ver uma realidade sendo destruída, a realidade que você passou sua vida inteira sonhando em vivenciar, sentir. Ela, finalmente, me achou, mas fez questão de sumir de novo. Isso é inaceitável, é uma dor que nem é possível de ser descrita, nem mesmo com todas as palavras que existem em um dicionário. Por mais que eu quisesse chorar, não podia mais. Todas as lágrimas haviam secado, haviam sido usadas. Eu não quero ouvir a voz de ninguém a não ser a dele. Não quero abraçar ninguém a não ser ele. Não quero me perder nos olhos de ninguém, a não ser nos dele. Não quero ir pra nenhum lugar a não ser onde ele está. Antes, eu estava deitava nessa cama imaginando como seria estar com ele, e agora, eu estava deitada nessa cama sentindo como é estar sem ele.
- Acorda, dorminhoca! Hoje você
tem escola, esqueceu? – Minha mãe entrou inesperadamente no meu quarto. – As
férias acabaram, mocinha. Agora a realidade voltou! Depois de ter ficado em
Londres, até demais pelo visto, vai rever o colégio! – Minha mãe não fazia
ideia do quanto acabava comigo com aquelas palavras que saíam da sua boca.
Não respondi nada, apenas
levantei e fiquei sentada na minha cama, corcunda, olhando para o chão e
suspirando. Era praticamente impossível achar forças para ir para o colégio,
voltar para o meu verdadeiro mundo. Eu não me importaria de largar os estudos e
passar o resto dos meus dias trancafiada no meu quarto, repassando todas as
cenas dessas férias na minha mente de novo e de novo.
- Samanta, o café da manhã já
está na mesa! Faça o favor de não demorar no banho, seu pai tem horário para
chegar no trabalho. – Minha mãe continuou falando, como se eu estivesse
interessada naquilo tudo.
Resmunguei e fui em direção ao
banheiro. Tirei minha roupa, entrei no chuveiro e senti a água gelada cair
sobre o meu corpo. Fiquei séculos lá, parada, de olhos fechados. Me ensaboei e
novamente fui para debaixo da água, olhando para o chão e totalmente sem ânimo.
Saí do banheiro, me enxuguei e vesti o meu uniforme escolar. Naquele momento,
não me importava nem um pouco de usar aquela calça ridícula com aquela camisa
desconfortável. Penteei o cabelo, calcei os meus tênis, espirrei um pouco de
perfume em mim e saí do quarto com a mochila nas costas. Me deparei com a minha
família reunida em volta da mesa de jantar.
- Finalmente a princesinha
acordou. – Letícia reclamou, querendo me provocar.
- Ela ainda deve estar com o fuso
horário da Inglaterra, Le. – Kaitlin entrou na onda. As duas caíram na risada.
Mal elas sabiam que eu estava pouco me lixando pra tais provocações.
- Não comecem, meninas. – Meu pai
falou. – Samanta, venha logo tomar o seu café da manhã. Não posso chegar
atrasado no trabalho, filha.
Era inevitável não me desanimar
com todas aquelas falas ditas todos os dias de todos os anos. Eu estava com
vontade de fugir pra bem longe e nunca mais ter que voltar. Para evitar mais
sermões e chateações, sentei na mesa. Meus pais conversavam e as minhas irmãs
falavam sem parar, enquanto eu não dizia uma palavra e apenas olhava para o
prato. De vez em quando, Letícia e Kaitlin tentavam me irritar, mas minha mãe
cortava o barato delas. Comi uma fatia de bolo de fubá que minha mãe havia
acabado de fazer, tomei um copo de suco de laranja e fui para o banheiro
escovar os dentes. Me encarei no espelho, esfreguei as mãos nos meus olhos e
voltei para a sala. Minhas irmãs já estavam no carro, prontas para irem para a
faculdade. Meu pai revistava sua maleta, vendo se não estava esquecendo de
alguma coisa importante. Minha mãe veio até mim, ajeitou minha camisa e me deu
um beijo na testa.
- Espero que tenha um bom dia,
querida! Mande lembranças para Ana e para a sua mãe, tá bom? – Ela falava, toda
compreensiva e fofa.
- Tá bom, mãe. – Aquelas haviam
sido minhas primeiras palavras do dia.
Ela sorriu, eu coloquei minha
mochila nas costas e fui para o carro, e em seguida, meu pai fez o mesmo. Fui
no banco do passageiro, ao lado do meu pai e as minhas irmãs, atrás. Elas não
paravam de tagarelar sobre a faculdade. Eu liguei a rádio, eu precisava de
música naquele momento. Música era a única bem-vinda em uma situação como
essas. Não era possível, o destino só podia estar de brincadeira comigo, com os
meus sentimentos. Aquilo só podia ser gozação. Meus ouvidos reconheceram, no
mesmo instante, a voz do Harry. “I’ve
just let these little things slip out of my mouth, cause it’s you, it’s you, oh
it’s you, they add up to and I’m in love with you and all these little things…” Naquele momento, todos do carro
ficaram tensos. Meu pai e minhas irmãs, possivelmente, já haviam visto a foto
do Harry me beijando pela internet. Apesar daquilo poder, de alguma forma, ter
sido constrangedor, eu não me importei com o que o meu pai acharia daquilo,
apenas fiquei atenta à música, calada e pensativa. Segundos depois, chegou o
seu fim. Logo, o locutor da rádio disse: “É isso aí, pessoal! A gente acabou de
escutar o One Direction cantando Little Things, pra começar bem esse dia de
hoje!” No meu caso, era pra começar mal.
Minutos mais tarde, cheguei em frente à escola. Meu pai estacionou o carro e eu
dei um beijo na bochecha dele, pronta pra entrar no colégio.
- Não deixe alguma coisa que as pessoas disserem estragar
o seu dia, minha filha. As pessoas são maldosas, mas você tem os seus amigos! –
Meu pai sussurrou no meu ouvido.
Assenti com a cabeça e saí do carro. Na verdade, nem
tinha parado pra pensar nesse aspecto. Meu pai estava certo. Algumas pessoas da
escola podiam já saber sobre mim e o Harry. Eu não estava nem um pouco
interessada em falar sobre isso com ninguém e nem ouvir nada sobre isso, torcia
para que nada acontecesse. Fui andando pela calçada, até que avistei o portão
da escola e entrei. Saí andando pelo corredor, para ver no mural em qual turma
havia ficado. Não sei se era impressão minha, mas sentia que muitas pessoas me
olhavam sem parar. Elas me encaravam impressionadas e outras, cochichavam algo.
Respirei fundo e continuei andando. Parei na frente do mural e procurei minha
turma. Segundo ano C, sala 212. Esse era o meu destino. Subi a rampa e tentei
ao máximo relevar o fato dos alunos estarem me fuzilando com o olhar. Logo
depois de andar, andar e andar, cheguei na sala 212. Entrei e me deparei com
Arthur, Gabriel e Juliana já sentados nas carteiras do fundo, eles haviam
guardado dois lugares. Um para mim e outro para Ana. Os três se animaram ao me
ver e Juliana veio correndo na minha direção.
- Samanta! Que saudade, caramba! – Ela exclamou e me
abraçou. Eu sorri e ela foi logo me puxando para eu me sentar perto deles.
- Oi, meninos. – Falei, sorrindo e colocando minha
mochila na carteira.
- Por que não respondeu as minhas mensagens? – Gabriel
perguntou, sério e cruzando os braços, me encarando. Franzi a testa e ri.
- Falou o namorado dela! – Arthur riu, me fazendo rir e
Gabriel revirar os olhos. – Senti sua falta, Samanta! – Ele me abraçou, sendo
totalmente fofo.
- Pena que ela não possa dizer o mesmo da gente, né, já
que estava ocupada demais beijando o tal do Harry do One Direction. – Gabriel
exclamou, inconformado e me fazendo ficar totalmente envergonhada.
- Gabriel, você quer falar baixo? – Reclamei, tampando a
boca dele.
- Nossa, Samanta, dito e feito! Lembro como se fosse
ontem, você falando que quando conhecesse o Harry, ele ia comer na sua mão.
Poderosa, hein, amiga! – Juliana falou, impressionada e batendo de leve no meu
ombro.
- A Ana também tá namorando aquele Niall, Samanta? –
Arthur ficou sério.
- Vocês estão sendo totalmente equivocados, tá legal? O
Harry não tá “comendo na minha mão”, Juliana. Não somos nem sequer namorados,
tá? – Esclareci, abaixando o meu tom de voz na últimas palavras. Era horrível
ter que admitir aquilo. – E não, Arthur, a Ana não tá namorando o Niall. –
Falei, desanimada e completamente sem forças, sentando na carteira e abaixando
a minha cabeça.
- Menos mal. – Gabriel comentou, animado.
- Gabriel, você quer calar a boca? – Juliana falou. – Não
tá vendo que ela tá chateada por causa disso? Samanta, conversa comigo. Me
conta o que houve lá. Se vocês não estão namorando, que foto é aquela que tá
percorrendo o mundo inteiro? – Ela passou a mão no meu cabelo, falando
cuidadosamente, com medo de me magoar.
- Eu não quero falar sobre isso, gente. Por favor. –
Pedi, cruzando os braços, apoiando minhas costas na cadeira e olhando pra
baixo.
- Ana! – Arthur gritou. Voltei meu olhar para cima e vi
Ana entrando na sala.
Todos correram em direção à ela e a abraçaram. Faziam
perguntas sobre a viagem e diziam o quanto ela estava diferente. Ana forçava um
sorriso, assim como eu. Logo depois, vieram na minha direção e ela colocou sua
mochila na carteira que estava à minha frente.
- Eu não to acreditando que a gente tá aqui. – Falei para
Ana, quase chorando.
- Não chora, Sam! – Ana tentou me ajudar, ela estava
visivelmente triste também. – Um monte de gente ficou me encarando quando eu
entrei no colégio, com você também aconteceu? – Ela perguntou, abatida e com
uma voz desanimada.
- Aconteceu. Espero que isso acabe logo. – Respondi,
passando as mãos nos meus olhos.
Ana apenas ouviu, aflita, sem vida e virou para a frente.
As aulas começaram. Aulas que eu nem se quer consegui prestar atenção.
Matemática, biologia, português, filosofia e história. Só gravei as matérias
que foram, mas nada que os professores disseram ou explicaram. As aulas passavam
e eu só estava presente em corpo, porque a minha mente estava longe. Beeeem
longe. Eu até acabei cochilando em alguns momentos, não estava com um pingo de
concentração e paciência pra tentar entender alguma coisa. De vez em quando
Arthur ficava me cutucando, eu me irritava e ele ria. Eu tinha que admitir,
estava realmente insuportável. Mas eu não me culpo, culpo o destino, a vida em
si. Cada um com o seu humor e o seu dia. No recreio, sentamos em uma das mesas
da cantina e algumas garotas vinham fazer perguntas ridículas sobre o One
Direction. Eu respondia com toda frieza e grosseria que conseguia, porque eu
não aguentava mais o jeito que elas se referiam a eles, principalmente ao
Harry. Minha garganta coçava. Eu estava com vontade de gritar pra o mundo
inteiro o que realmente houve, mas não podia falar nada, simplesmente nada. Não
podia expor a vida dele assim, poderia causar gravíssimas consequências pra ele
e pra banda. O dia na escola foi simplesmente estressante. Quando finalmente o
sinal da saída tocou, coloquei minhas coisas na mochila e saí com Ana da sala
de aula, fomos para a frente do colégio esperar nossos pais. Quando saímos pelo
portão da escola, ficamos totalmente abismadas. Haviam muitos fotógrafos
desesperados para tirar fotos nossas e repórteres quase subindo na gente
fazendo milhares de perguntas: “Os meninos do One Direction disseram algo sobre
virem ao Brasil? Eles vão visitar vocês? O Niall e Harry são bons namorados?”
Ana e eu apenas andávamos rápido para a outra rua, onde nossos pais sempre nos
esperávamos. As pessoas que passavam ficavam curiosas e iam se aglomerando por
perto, tornando tudo mais difícil e estressante. Os fotógrafos corriam mais
rápido ainda à nossa frente e andavam para trás enquanto nos fotografava sem
parar. Avistei o carro do meu pai e ofereci carona para Ana até seu
apartamento. Corremos em direção ao carro e entramos, meu pai arrancou o carro
dali. Estava ofegante, despenteada e de saco cheio daquela situação. Ana
parecia assustada com tudo aquilo, confusa.
- Filha, você não está namorando esse rapaz dessa banda,
não é? – Meu pai perguntou, aflito e sério com toda aquela situação.
- Claro que não, pai. Não estou. – Respondi, já totalmente
estressada e sem paciência.
Liguei a rádio e aumentei o volume. “Isso mesmo, senhores
ouvintes. Samanta e Anastácia, esses são os nomes das supostas namoradas
brasileiras do Harry e Niall, do One Direction! Sortudas, não?” Fechei os olhos
e gelei, completamente esgotada. Como eu queria poder confirmar aquelas
palavras. Parece que a minha sorte já tinha acabado há um bom tempo.

