sexta-feira, 29 de março de 2013

CAPÍTULO 42

Diário da Samanta
02 de março de 2013, segunda-feira

                                    


Querido diário,

Março chegou. E com ele, o início das aulas. De fevereiro, só restam lembranças, lembranças que me parecem mais ilusões. Eu sei que vivi tudo aquilo em Londres, sei que entrei na vida do Harry, mas ao mesmo tempo, tenho as minhas dúvidas. Do mesmo jeito que tenho essa certeza, me pergunto se o problema não sou eu, se eu não estou realmente mentindo pra mim mesma. É difícil ver uma realidade sendo destruída, a realidade que você passou sua vida inteira sonhando em vivenciar, sentir. Ela, finalmente, me achou, mas fez questão de sumir de novo. Isso é inaceitável, é uma dor que nem é possível de ser descrita, nem mesmo com todas as palavras que existem em um dicionário. Por mais que eu quisesse chorar, não podia mais. Todas as lágrimas haviam secado, haviam sido usadas. Eu não quero ouvir a voz de ninguém a não ser a dele. Não quero abraçar ninguém a não ser ele. Não quero me perder nos olhos de ninguém, a não ser nos dele. Não quero ir pra nenhum lugar a não ser onde ele está. Antes, eu estava deitava nessa cama imaginando como seria estar com ele, e agora, eu estava deitada nessa cama sentindo como é estar sem ele.

- Acorda, dorminhoca! Hoje você tem escola, esqueceu? – Minha mãe entrou inesperadamente no meu quarto. – As férias acabaram, mocinha. Agora a realidade voltou! Depois de ter ficado em Londres, até demais pelo visto, vai rever o colégio! – Minha mãe não fazia ideia do quanto acabava comigo com aquelas palavras que saíam da sua boca.

Não respondi nada, apenas levantei e fiquei sentada na minha cama, corcunda, olhando para o chão e suspirando. Era praticamente impossível achar forças para ir para o colégio, voltar para o meu verdadeiro mundo. Eu não me importaria de largar os estudos e passar o resto dos meus dias trancafiada no meu quarto, repassando todas as cenas dessas férias na minha mente de novo e de novo.

- Samanta, o café da manhã já está na mesa! Faça o favor de não demorar no banho, seu pai tem horário para chegar no trabalho. – Minha mãe continuou falando, como se eu estivesse interessada naquilo tudo.

Resmunguei e fui em direção ao banheiro. Tirei minha roupa, entrei no chuveiro e senti a água gelada cair sobre o meu corpo. Fiquei séculos lá, parada, de olhos fechados. Me ensaboei e novamente fui para debaixo da água, olhando para o chão e totalmente sem ânimo. Saí do banheiro, me enxuguei e vesti o meu uniforme escolar. Naquele momento, não me importava nem um pouco de usar aquela calça ridícula com aquela camisa desconfortável. Penteei o cabelo, calcei os meus tênis, espirrei um pouco de perfume em mim e saí do quarto com a mochila nas costas. Me deparei com a minha família reunida em volta da mesa de jantar.

- Finalmente a princesinha acordou. – Letícia reclamou, querendo me provocar.
- Ela ainda deve estar com o fuso horário da Inglaterra, Le. – Kaitlin entrou na onda. As duas caíram na risada. Mal elas sabiam que eu estava pouco me lixando pra tais provocações.
- Não comecem, meninas. – Meu pai falou. – Samanta, venha logo tomar o seu café da manhã. Não posso chegar atrasado no trabalho, filha.

Era inevitável não me desanimar com todas aquelas falas ditas todos os dias de todos os anos. Eu estava com vontade de fugir pra bem longe e nunca mais ter que voltar. Para evitar mais sermões e chateações, sentei na mesa. Meus pais conversavam e as minhas irmãs falavam sem parar, enquanto eu não dizia uma palavra e apenas olhava para o prato. De vez em quando, Letícia e Kaitlin tentavam me irritar, mas minha mãe cortava o barato delas. Comi uma fatia de bolo de fubá que minha mãe havia acabado de fazer, tomei um copo de suco de laranja e fui para o banheiro escovar os dentes. Me encarei no espelho, esfreguei as mãos nos meus olhos e voltei para a sala. Minhas irmãs já estavam no carro, prontas para irem para a faculdade. Meu pai revistava sua maleta, vendo se não estava esquecendo de alguma coisa importante. Minha mãe veio até mim, ajeitou minha camisa e me deu um beijo na testa.

- Espero que tenha um bom dia, querida! Mande lembranças para Ana e para a sua mãe, tá bom? – Ela falava, toda compreensiva e fofa.
- Tá bom, mãe. – Aquelas haviam sido minhas primeiras palavras do dia.

Ela sorriu, eu coloquei minha mochila nas costas e fui para o carro, e em seguida, meu pai fez o mesmo. Fui no banco do passageiro, ao lado do meu pai e as minhas irmãs, atrás. Elas não paravam de tagarelar sobre a faculdade. Eu liguei a rádio, eu precisava de música naquele momento. Música era a única bem-vinda em uma situação como essas. Não era possível, o destino só podia estar de brincadeira comigo, com os meus sentimentos. Aquilo só podia ser gozação. Meus ouvidos reconheceram, no mesmo instante, a voz do Harry. “I’ve just let these little things slip out of my mouth, cause it’s you, it’s you, oh it’s you, they add up to and I’m in love with you and all these little things…” Naquele momento, todos do carro ficaram tensos. Meu pai e minhas irmãs, possivelmente, já haviam visto a foto do Harry me beijando pela internet. Apesar daquilo poder, de alguma forma, ter sido constrangedor, eu não me importei com o que o meu pai acharia daquilo, apenas fiquei atenta à música, calada e pensativa. Segundos depois, chegou o seu fim. Logo, o locutor da rádio disse: “É isso aí, pessoal! A gente acabou de escutar o One Direction cantando Little Things, pra começar bem esse dia de hoje!” No meu caso, era pra começar  mal. Minutos mais tarde, cheguei em frente à escola. Meu pai estacionou o carro e eu dei um beijo na bochecha dele, pronta pra entrar no colégio.

- Não deixe alguma coisa que as pessoas disserem estragar o seu dia, minha filha. As pessoas são maldosas, mas você tem os seus amigos! – Meu pai sussurrou no meu ouvido.
Assenti com a cabeça e saí do carro. Na verdade, nem tinha parado pra pensar nesse aspecto. Meu pai estava certo. Algumas pessoas da escola podiam já saber sobre mim e o Harry. Eu não estava nem um pouco interessada em falar sobre isso com ninguém e nem ouvir nada sobre isso, torcia para que nada acontecesse. Fui andando pela calçada, até que avistei o portão da escola e entrei. Saí andando pelo corredor, para ver no mural em qual turma havia ficado. Não sei se era impressão minha, mas sentia que muitas pessoas me olhavam sem parar. Elas me encaravam impressionadas e outras, cochichavam algo. Respirei fundo e continuei andando. Parei na frente do mural e procurei minha turma. Segundo ano C, sala 212. Esse era o meu destino. Subi a rampa e tentei ao máximo relevar o fato dos alunos estarem me fuzilando com o olhar. Logo depois de andar, andar e andar, cheguei na sala 212. Entrei e me deparei com Arthur, Gabriel e Juliana já sentados nas carteiras do fundo, eles haviam guardado dois lugares. Um para mim e outro para Ana. Os três se animaram ao me ver e Juliana veio correndo na minha direção.

- Samanta! Que saudade, caramba! – Ela exclamou e me abraçou. Eu sorri e ela foi logo me puxando para eu me sentar perto deles.
- Oi, meninos. – Falei, sorrindo e colocando minha mochila na carteira.
- Por que não respondeu as minhas mensagens? – Gabriel perguntou, sério e cruzando os braços, me encarando. Franzi a testa e ri.
- Falou o namorado dela! – Arthur riu, me fazendo rir e Gabriel revirar os olhos. – Senti sua falta, Samanta! – Ele me abraçou, sendo totalmente fofo.
- Pena que ela não possa dizer o mesmo da gente, né, já que estava ocupada demais beijando o tal do Harry do One Direction. – Gabriel exclamou, inconformado e me fazendo ficar totalmente envergonhada.
- Gabriel, você quer falar baixo? – Reclamei, tampando a boca dele.
- Nossa, Samanta, dito e feito! Lembro como se fosse ontem, você falando que quando conhecesse o Harry, ele ia comer na sua mão. Poderosa, hein, amiga! – Juliana falou, impressionada e batendo de leve no meu ombro.
- A Ana também tá namorando aquele Niall, Samanta? – Arthur ficou sério.
- Vocês estão sendo totalmente equivocados, tá legal? O Harry não tá “comendo na minha mão”, Juliana. Não somos nem sequer namorados, tá? – Esclareci, abaixando o meu tom de voz na últimas palavras. Era horrível ter que admitir aquilo. – E não, Arthur, a Ana não tá namorando o Niall. – Falei, desanimada e completamente sem forças, sentando na carteira e abaixando a minha cabeça.
- Menos mal. – Gabriel comentou, animado.
- Gabriel, você quer calar a boca? – Juliana falou. – Não tá vendo que ela tá chateada por causa disso? Samanta, conversa comigo. Me conta o que houve lá. Se vocês não estão namorando, que foto é aquela que tá percorrendo o mundo inteiro? – Ela passou a mão no meu cabelo, falando cuidadosamente, com medo de me magoar.
- Eu não quero falar sobre isso, gente. Por favor. – Pedi, cruzando os braços, apoiando minhas costas na cadeira e olhando pra baixo.
- Ana! – Arthur gritou. Voltei meu olhar para cima e vi Ana entrando na sala.

Todos correram em direção à ela e a abraçaram. Faziam perguntas sobre a viagem e diziam o quanto ela estava diferente. Ana forçava um sorriso, assim como eu. Logo depois, vieram na minha direção e ela colocou sua mochila na carteira que estava à minha frente.

- Eu não to acreditando que a gente tá aqui. – Falei para Ana, quase chorando.
- Não chora, Sam! – Ana tentou me ajudar, ela estava visivelmente triste também. – Um monte de gente ficou me encarando quando eu entrei no colégio, com você também aconteceu? – Ela perguntou, abatida e com uma voz desanimada.
- Aconteceu. Espero que isso acabe logo. – Respondi, passando as mãos nos meus olhos.

Ana apenas ouviu, aflita, sem vida e virou para a frente. As aulas começaram. Aulas que eu nem se quer consegui prestar atenção. Matemática, biologia, português, filosofia e história. Só gravei as matérias que foram, mas nada que os professores disseram ou explicaram. As aulas passavam e eu só estava presente em corpo, porque a minha mente estava longe. Beeeem longe. Eu até acabei cochilando em alguns momentos, não estava com um pingo de concentração e paciência pra tentar entender alguma coisa. De vez em quando Arthur ficava me cutucando, eu me irritava e ele ria. Eu tinha que admitir, estava realmente insuportável. Mas eu não me culpo, culpo o destino, a vida em si. Cada um com o seu humor e o seu dia. No recreio, sentamos em uma das mesas da cantina e algumas garotas vinham fazer perguntas ridículas sobre o One Direction. Eu respondia com toda frieza e grosseria que conseguia, porque eu não aguentava mais o jeito que elas se referiam a eles, principalmente ao Harry. Minha garganta coçava. Eu estava com vontade de gritar pra o mundo inteiro o que realmente houve, mas não podia falar nada, simplesmente nada. Não podia expor a vida dele assim, poderia causar gravíssimas consequências pra ele e pra banda. O dia na escola foi simplesmente estressante. Quando finalmente o sinal da saída tocou, coloquei minhas coisas na mochila e saí com Ana da sala de aula, fomos para a frente do colégio esperar nossos pais. Quando saímos pelo portão da escola, ficamos totalmente abismadas. Haviam muitos fotógrafos desesperados para tirar fotos nossas e repórteres quase subindo na gente fazendo milhares de perguntas: “Os meninos do One Direction disseram algo sobre virem ao Brasil? Eles vão visitar vocês? O Niall e Harry são bons namorados?” Ana e eu apenas andávamos rápido para a outra rua, onde nossos pais sempre nos esperávamos. As pessoas que passavam ficavam curiosas e iam se aglomerando por perto, tornando tudo mais difícil e estressante. Os fotógrafos corriam mais rápido ainda à nossa frente e andavam para trás enquanto nos fotografava sem parar. Avistei o carro do meu pai e ofereci carona para Ana até seu apartamento. Corremos em direção ao carro e entramos, meu pai arrancou o carro dali. Estava ofegante, despenteada e de saco cheio daquela situação. Ana parecia assustada com tudo aquilo, confusa.

- Filha, você não está namorando esse rapaz dessa banda, não é? – Meu pai perguntou, aflito e sério com toda aquela situação.
- Claro que não, pai. Não estou. – Respondi, já totalmente estressada e sem paciência.

Liguei a rádio e aumentei o volume. “Isso mesmo, senhores ouvintes. Samanta e Anastácia, esses são os nomes das supostas namoradas brasileiras do Harry e Niall, do One Direction! Sortudas, não?” Fechei os olhos e gelei, completamente esgotada. Como eu queria poder confirmar aquelas palavras. Parece que a minha sorte já tinha acabado há um bom tempo.






sexta-feira, 1 de março de 2013

CAPÍTULO 41


Diário da Ana
17 de fevereiro de 2013, segunda-feira



"Você está presente todos os dias, todas as tardes, todas as noites, bem aqui, no meu pensamento
Você está presente em cada sorriso, em cada esquina, em cada pessoa
Eu te vejo aqui e ali, todas as horas, todos os minutos
Eu te vejo ao meu lado amanhã e depois
Eu vejo os nossos olhos se olhando, as nossas mãos se sentindo, os seus braços me abraçando
Pode ser amanhã ou depois, eu espero
Pode ser no próximo verão ou no próximo outono, eu espero
Eu posso esperar as quatro estações se for preciso
Só peço que me espere também
Vamos nos esperar juntos?"

Sorri ao ler aquela letra de música. Eu a havia escrito em 2011, aos meus 14 anos, quando eu chorava a cada vez que me diziam que conhecer o "loirinho daquela banda que esqueci o nome" era impossível. "Quem dirá namorar com ele", essas palavras eram atiradas no meu peito a todo instante. Foi difícil permanecer com a fé e a esperança, mas eu permaneci.
Naquela época eu ainda não tinha você, Diário, então o meu maior e único refúgio era escrever canções que me motivassem a continuar lutando pelo meu amor - que muitos julgavam ser falso. Bem, agora eu posso provar para todos aqueles que me desestimularam que eu consegui, sim, não só conhecer, como quase namorar o Niall Horan. Esse "quase" é tão doloroso de ser escrito... me vem lágrimas nos olhos a cada vez que eu penso que eu quase consegui namorá-lo, que ele quase me amou, que o meu sonho quase se realizou, que eu quase fiquei muito tempo com ele, que eu quase mostrei a música para ele, que eu quase fiz com que esse "quase" sumisse da minha vida.
Nesse tempo em que ficamos juntos, a cada esquina que íamos, víamos de longe vários paparazzis escondidos tentando capturar uma boa imagem nossa. No início, eu adorava aquilo tudo e tentava aproveitar cada minuto de fama que eu tinha, pois eu sabia que logo, logo eu iria ser esquecida e outra notícia bombástica tomaria o lugar da minha. Porém, com o passar dos dias, eu fui ficando cada vez mais irritada com essa perseguição insistente dos fotógrafos  E no dia seguinte sempre havia uma ou outra notícia mentirosa nos sites de fofoca, dizendo coisas do tipo: "Niall Horan está namorando uma brasileira", "Niall Horan está em um relacionamento de fachada" e afins. E tudo era mentira. Infelizmente ou felizmente, não sei. Bem, agora nada disso importa mais. Agora ele não quer me ver nem pintada de ouro. Os jornalistas que vão adorar saber dessa fofoca fresca. Infelizmente só eles...
De 11h00, duas horas antes de eu ir para o aeroporto (o meu voo e da Samanta seria às 16h00), fui até o saguão encontrar o Eric, primo do John.
Ele me ligou de manhãzinha dizendo que queria me encontrar antes que eu fosse embora para o Brasil. Segundo ele, provavelmente essa seria a nossa primeira e última conversa. Ele também disse que estava triste com isso, pois gostaria muito de ter me conhecido melhor. Como eu não poderia dizer "eu sinto o mesmo", disse apenas que sentia muito.
Cheguei na hora marcada, e ele já estava lá, me esperando.
― Oi, Ana! Que pontual! ― Ele estava todo sorridente.
Para não desapontá-lo, esbocei um leve sorriso.
Foi inevitável compará-lo com o Niall. Provavelmente se ele estivesse dentro daquela situação, diria apenas: "Oi, Ana!" e me daria um beijo junto com um abraço. Mas Eric é apenas um conhecido, não poderia sair me beijando por aí. E, bem, ele não é o Niall.
Eu tenho que parar de procurar o Niall em outras pessoas. Quando eu vou me tocar que nunca vou achá-lo?
― Oi...
Ele disse para eu me sentar ao seu lado no sofá e assim o fiz.
― Que tal... darmos um passeio? ― Sugeriu ele, meio inseguro ― Tem alguma sugestão de lugar?
Tive vontade de chorar e fugir dali o mais rápido possível. O Niall saberia exatamente aonde eu queria ir, de cor e salteado, sem precisar me perguntar nada. O Niall me lançaria um olhar sorridente e encantador, sem precisar sorrir exatamente com a boca. O Niall alegraria o meu dia. O Niall... é o Niall.
― Não. ― Respondi simplesmente, sem vontade até de estar ali.
― Hum... tudo bem, então. Ficamos aqui.
Nós não tínhamos nenhuma química, nenhum assunto, nada em comum. Eu quis dizer que eu o achava tedioso e monótono, mas aí eu feriria os sentimentos dele. Se é que ele tem algum sentimento. Esse garoto parece pensar só nele mesmo, fica batucando na mesa e nem sequer se dá ao trabalho de puxar algum assunto.
Ficamos uns vinte minutos sem falar absolutamente nada um com o outro. Ele ficava discando em seu celular e eu ficava olhando a paisagem, imaginando como seria se o Niall estivesse ali. Ele jamais deixaria o silêncio reinar no meio de nós, dependendo da situação.
Até que o Eric olhou para o relógio, bufou e disse:
― Você vai ficar mesmo sem falar nada? Olha, eu não te fiz nada para você me tratar desse jeito indiferente. Eu tento puxar assunto e você responde pela metade. Parece até que é monossílaba.
Eu fiquei muito irritada e magoada quando Eric me disse aquilo. Ele falou em um tom tão grosseiro e arrogante que eu acho que o hotel inteiro sentiu as minhas dores.
Tive vontade de chorar, mas eu não queria me mostrar vulnerável na frente dele, um covarde estúpido.
― Hum. ― Falei, engolindo todo o meu choro e ódio.
Se eu abrisse a boca, era capaz de o choro escapulir, então preferi permanecer calada.
Ele ficou um tempo com os olhos cravados em mim, enquanto eu olhava para baixo, sem coragem de encará-lo. Comecei a ficar assustada, pois se passaram uns dois minutos e ele continuou a me fitar.
― Você realmente não vai falar nada? ― Ele disse de repente, fazendo eu quase dar um pulo de susto ― Quer saber? Eu vou embora. Você é muito chata, garota. Eu só fiz perder meu tempo vindo aqui.
E então ele se foi, me deixando com a maior cara de trouxa, parada olhando para o nada. Assim que o perdi de vista, desabei. As lágrimas caíam a cada segundo e o soluço aumentava mais e mais.
Estava me sentindo um nada, uma qualquer. Ele falou de uma forma tão arrogante que doeu até a alma. Queria tanto que o Niall estivesse lá para me defender... É uma pena que não podemos ter tudo o que queremos. E eu nem quero tantas coisas assim... apenas o Niall.
Fui andando de cabeça baixa até o elevador, completamente desolada. Só quando eu entrei no elevador e apertei o número do meu andar que fui perceber que havia uma senhorinha bem ao meu lado, de chapéu e óculos escuros. Os cabelos dela eram bem acinzentados, mas a sua pele quase não tinha rugas.
Fiquei me sentindo um pouco incomodada, pois o elevador estava num completo silêncio, só se ouvia o meu soluço.
Até que a senhora tirou os óculos, deixando à mostra um belo par de olhos azuis, e os guardou dentro da bolsa.
― Não fique assim, querida... ― Falou ela, em inglês, de repente.
A olhei incrédula, procurando uma resposta do por quê ela ter me dito aquilo.
― Você não tem motivos para lágrimas ― continuou ela ―, apenas para sorrisos.
Assim que ela me disse aquilo, o meu andar chegou. Saí do elevador calada, refletindo cada palavra que ela havia me dito.
O que será que ela quis dizer com "Você não tem motivos para lágrimas, apenas para sorrisos"? Bem, eu não sei. Só sei que, depois disso, fiquei até um pouco mais alegre.
Entrei no quarto e me deparei com a Samanta guardando os seus últimos pertences em sua mala. Me bateu uma tristeza no instante em que vi aquilo, mas no fundo eu acreditava que não iríamos viajar, que o Niall, no último minuto, apareceria no aeroporto e nos impediria de entrar no avião. Vai ver que esse é o motivo daquela senhora ter me dito aquilo no elevador...
Tomei um banho rápido, me arrumei e fui conferir as minhas três malas, para ver se eu havia realmente guardado tudo. Depois de ter conferido, descemos para o saguão para esperar o Sandro acertar as últimas coisas da nossa hospedagem.
Alguns minutos mais tarde, entramos no carro e fomos em direção ao aeroporto.
Durante o caminho, nenhum de nós três falou absolutamente nada. Eu e a Samanta estávamos ocupadas demais com os nossos pensamentos, com as nossas angústias e tristezas. E a cada rua que o carro passava, indicando que estávamos cada vez mais próximos do aeroporto, meu coração acelerava. Eu não queria acreditar que o Niall estaria lá me esperando, porém, por mais que eu tentasse, eu acreditava fielmente naquilo. Tudo o que eu menos queria naquele momento era me decepcionar mais uma vez.
Antes, nós demos uma rápida passada em um local para devolver o carro alugado, e então fomos para o aeroporto.
Assim que pisei naquele local enorme, gelado e que dá frio na barriga, não pude evitar e então comecei a olhar para todos os lados, procurando algum garoto lindo, loiro e baixinho. Procurei, procurei e... nada. Bem, ele poderia ter se atrasado.
Enquanto o Sandro resolvia toda aquela burocracia para poder viajar, eu e a Samanta aguardávamos em um banquinho, de frente para uma livraria.
Nós duas estávamos muito caladas, distantes, lamentando a nossa volta para o Brasil mentalmente.
Tudo isso ainda parece inacreditável. Eu não consigo acreditar que estou realmente voltando para o meu país. Se eu pudesse, moraria para sempre aqui em Londres, para pelo menos fingir que eu tenho o Niall ao meu lado.
Uma hora e meia mais tarde, uma voz feminina ecoou por todo o local que estávamos, chamando o nosso voo.
Me deu um frio na barriga imenso e uma vontade de chorar maior ainda.
Olhei por uma última vez para os lados, ainda com esperança que ele aparecesse de repente, acenando para mim e pedindo que eu não viajasse.
Quando eu percebi que realmente ninguém apareceria para se despedir de nós (quer dizer, de mim, já que o John veio para se despedir da Samanta...), me vi chorando.
Assim que eu entrei na sala de embarque, a ficha caiu. Eu estava voltando para o Brasil e deixando para trás tudo o que eu demorei para conquistar. Eu estava voltando à estaca zero. Eu estava voltando para a parte da minha canção que dizia "Eu te vejo ao meu lado amanhã e depois". A parte em que eu ainda não tinha o Niall, mas sentia que um dia o teria. Agora, naquela sala de embarque, eu sentia isso, exatamente como antes.
Pode ser amanhã ou depois, eu espero. 
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Final da 1º temporada