Diário da Samanta
16 de fevereiro de 2013, domingo
16 de fevereiro de 2013, domingo
Querido
diário,
Aqui
estou eu, na cobertura do hotel, olhando Londres inteira. Olhando os carros
passarem sem parar, pessoas andarem apressadas pelas ruas, aviões sumirem
dentre as nuvens. Pessoas entrando nos lugares, cada uma com sua vida, seus
pensamentos, suas preocupações e seus destinos, sonhos, sentimentos. Enquanto
algumas estão viajando, na praia, numa montanha-russa, num encontro, numa
piscina, dando um show ou assistindo a um, eu estou aqui, olhando para o tempo
e sofrendo calada. O que será que Harry está fazendo nesse exato momento? Onde
será que ele está? Será que ele andou pensando em mim depois de tudo que houve? Será
que ainda está magoado comigo ou está sentindo minha falta? Se bem que sentir a
falta de uma pessoa não é grande coisa, e sim, sofrer pela falta dela. São
tantos “serás” e “porquês” rondando a minha cabeça. Tantas suposições e
questionamentos loucos para serem confirmados ou não. Eu tiro o celular do meu
bolso, coloco na lista telefônica e vejo o número do celular dele. Me pergunto
se eu devo ligar. Ligar pra tentar resolver as coisas, me explicar, falar que
eu o amo. Talvez ligar só pra ouvir a voz dele dizendo “alô”. Ligar pra me
sentir mais perto dele, pra poder ter certeza de que naquele exato momento, uma
parte do tempo dele está sendo preenchida só por mim. Ter certeza que a minha
voz é a única que ecoa nos ouvidos dele naquele momento. Não sei. Não sei de
nada. Não sei se seria muita falta de vergonha da minha parte, indelicadeza ou
se ele me acharia uma sonsa. Eu só queria poder parar de pensar tanto, discar o
telefone dele de uma vez por todas e deixar acontecer, mas eu simplesmente não
podia. O medo falava mais alto, o medo dele me desprezar de novo, me lançar
palavras impiedosas e eu acabar ficando mais vulnerável do que estou agora.
Amanhã numa hora dessas eu vou estar no aeroporto, pronta pra entrar em um
avião e voar de volta para o Brasil. Essa temporada aqui em Londres foi fora de
série. Eu me alegrei, me emocionei, chorei, me estressei, me animei, amei...
Tudo intensamente. Não sei se devo me arrepender de algo que eu fiz, mas posso
me arrepender de muita coisa que eu não fiz, disso eu tenho certeza. De não ter
aberto o jogo com o Harry, de não ter sido eu mesma, de não ter sido corajosa o
bastante. De tanta coisa, coisa que eu só enxergo agora. Como as pessoas dizem,
às vezes só aprendemos com os nossos erros, infelizmente. Aí quando isso
acontece, olhamos para trás e queremos voltar no tempo mas nos culpamos mais
ainda porque sabemos que não podemos fazer isso. Então, decidimos que da próxima
vez, faremos tudo diferente, mas mal sabemos que talvez não tenha próxima vez.
Talvez o meu mal tenha sido ter planejado tudo, ter feito tudo do jeito que eu
achava que seria melhor, ter criado roteiro pra a viagem da minha vida. Eu
devia ter deixado as coisas acontecerem naturalmente, não devia ter forçado
nada. No começo, tudo foi como um sonho. Pena que eu não pude mudar tudo antes
de eu acordar dele... Dói saber que eu tive a minha chance e eu deixei ela
escapar das minhas mãos. Dói saber que eu afastei o amor da minha vida pra tão
longe e dói saber que amanhã, eu vou afastar ainda mais. Só Deus sabe como esse
arrependimento está me matando. Só Ele sabe também o que eu faria pra mudar as
coisas. Coisas que eu mesma fiz e por natureza, eu mesma tenho que resolver. Ou
não. Enfim, diário, eu não vou mais ficar te enchendo com essas palavras que só
trazem tristeza. Por mais que seja difícil, eu preciso seguir em frente.
Preciso erguer a cabeça, contar até dez e dar os meus próximos passos, não
ficar olhando para trás e ficar tentando apagar os que já foram. Eu já arrumei
as minhas malas, só falta arrumar os meus pensamentos. Agora, eu vou tentar
ocupar um pouco a minha cabeça e vou usar a internet, a minha próxima
companheira nos próximos dias lá no Rio de Janeiro, como sempre foi. Mais tarde
eu te conto o resto meu dia, diário! Espero poder voltar com palavras mais
positivas. Realmente espero.
* * *
Oi,
diário. Estou de volta. Logo depois que eu parei de escrever em você, fui para
o quarto, entrei no meu notebook por pouco tempo e fui tomar um banho. Ana
ficou um tempão conversando com o seu irmão, André, pelo telefone. Ela não
parava de falar sobre o Niall, consequentemente, do banho, eu acabava pensando
no Harry. Eu tentava começar a cantar, pra pensar em outra coisa, mas quando me
dava conta, o que saía da minha boca também era Harry. Tentei tomar um banho
pra renovar a minha mente e o meu corpo, mas a tentativa foi em vão. Talvez,
saí da banheira pior do que entrei. Coloquei um roupão e saí do banheiro
totalmente arrasada. Coloquei uma roupa qualquer e decidi descer para o saguão.
Aquele quarto não me trazia boas lembranças. Eu e Harry já havíamos ficado ali,
juntos. Foi ali que eu recebi o melhor abraço da minha vida. Não conseguia olhar para aquele sofá e não lembrar dele ali, deitado e me olhando. Fui para o
corredor do hotel e entrei no elevador. As portas se fecharam e eu apertei o
botão para fazer o elevador descer. Alguns segundos depois, as portas se
abriram e eu saí, andando em direção à uma das mesas. Me sentei e apoiei os
meus cotovelos na mesa, tampando o meu rosto com as minhas mãos e suspirando de
cansaço. Cansaço de tudo aquilo. De repente, senti mãos nos meus ombros e um
delicado beijo na minha cabeça. Soei frio. Meu coração palpitou aceleradamente
e eu senti meu estômago embrulhar. Tirei as mãos do meu rosto e me deparei com
John, bem sentado do meu lado. Dei um sorriso sem graça.
- Ah,
é você. – Falei, tentando disfarçar o meu desanimo.
-
Deixa eu adivinhar, achou que fosse o Harry. – John falou, sorrindo e me
encarando. Fiquei surpresa.
- Do
que você sabe? – Perguntei, o olhando com cara de assustada. Por que John
achava que eu estava pensando em Harry? Ele sabia que eu o amava? Como? Que eu
saiba, nunca tinha dado nenhum indício de que me importava tanto com Harry para
ele!
- Do
que eu sei? Do que todo mundo já sabe, ué! – John respondeu, rindo e levantando
as mãos.
- Do
que todo mundo já sabe, John? Não to entendendo. – Falei, completamente
desentendida e nervosa. John bufou e revirou os olhos, tirando o seu celular do
seu bolso.
- Eu
estava entrando na internet hoje cedo pelo meu celular e me deparei com isso. –
Ele falou, me mostrando a tela do seu celular. De repente, vi uma foto minha e
do Harry. Estávamos nos beijando. Gelei. Nós dois estávamos naquele corredor
escuro, de onde o One Direction tinha feito um show no outro dia. Foi quando
Harry saiu do palco e me seguiu, quando eu saí do público sem rumo. Quem havia tirado essa foto? Estava totalmente confusa. Aquela foto me lembrava muita coisa, coisa que eu estava tentando esquecer. Olhando aquilo, deixei uma lágrima escapar e a
sequei rapidamente.
- De
onde veio isso? – Perguntei, série e olhando para baixo.
- Eu
não sei, só sei que essa foto já está em milhares de sites pela internet! –
John explicou, colocando o celular de volta no bolso. – Dizem que vocês estão
namorando. É verdade?
- Eu prefiro não falar sobre isso, John. – Respondi, abatida.
-
Então tudo bem. Não precisa responder. Nem está mais aqui quem perguntou! – Ele
falou com um tom acolhedor, segurando a minha mão e sorrindo. – E aí, quais são
seus planos para hoje?
- Pra
falar a verdade, meu plano é ficar sentada aqui o dia inteiro. – Dei um riso
desanimado.
- Não
é mais! – John levantou da cadeira, me puxando.
- Como
assim, John? – Perguntei, o encarando e dando um riso sem sal.
-
Vamos andar por aí, aproveitar. Afinal de contas, você vai embora amanhã, não
é?
- Onde
você anda descobrindo essas coisas de mim? – Ri, o olhando assustada, fazendo
John rir também.
- Eu
perguntei pra aquele cara que vive seguindo você e sua amiga. Um cara careca,
alto e de uniforme. – Ele respondeu, tentando me explicar.
-
Sandro. – O ajudei.
- É,
deve ser. – Ele riu. – Você está me devendo essa por ter me feito de idiota no
dia que nos conhecemos, lembra? – John me olhou com cara de pidão.
- É,
eu to lembrada. – Sorri, um pouco mais animada por ele estar se preocupando
comigo. – Então vamos lá, vou pagar a minha dívida.
John
sorriu e saímos andando, em direção à saída do hotel. Ficamos andando um tempão
pelas ruas próximas do hotel, conversando. John me mostrava os lugares que
conhecia e puxava assunto de todas as formas possíveis. Às vezes ele percebia
que eu estava meio aérea, com os pensamentos em outro lugar e ficava mais
calado. Eu me sentia mal por estar fazendo aquilo com ele e falava algo para
mostrar pra ele que ele tinha a minha atenção. Eu dava alguns sorrisos pra ele
não achar que eu continuava triste. Afinal de contas, John estava ali, gastando
seu tempo comigo e me levando pra passear. Era o mínimo que eu podia fazer por
ele. Continuamos andando e eu tentando viver o momento, não o passado. Mas
parecia quase impossível. Depois de um tempo, decidimos entrar em uma
lanchonete para beber e comer alguma coisa. Ela era muito agradável. Sentamos
em uma das mesas e pegamos os cardápios. Uma garçonete veio e anotou os nossos
pedidos. Eu e John continuamos conversando e eu fiquei completamente pasma,
perplexa, sem reação com o que vi.
-
Samanta? - John perguntou, preocupado, percebendo o meu olhar e minha
expressão.
Não
respondi, apenas continuei com o olhar fixo aonde estava desde o primeiro
momento. Não acreditava no que os meus olhos viam. Parecia uma assombração. Não
era possível que aquilo realmente estava acontecendo, bem ali, onde eu e John
estávamos. No lugar errado, na hora errada, vendo a coisa errada. Eu não ouvia nada, só sentia mil sensações ao mesmo tempo. Sensações
nada boas. Horríveis.
-
Samanta, o que tá acontecendo? – John perguntou novamente. Mais uma vez, não
respondi nada. Estava ocupada demais sofrendo com o que via. Então John
desistiu de ouvir a minha resposta e virou o rosto, procurando ver o que eu
via. Ele viu.
Harry
estava em uma outra mesa, sentado com Liam, Zayn, Louis e Niall. Seus olhos
estavam repletos de lágrimas, estavam extremamente vermelhos e inchados. Harry
chorava. Chorava e desabafava com os meninos sobre algo. Eu desconfiava sobre o
que era aquele algo.
Não podia acreditar que aquelas lágrimas caíam por minha causa. Eu não conseguia aceitar que Harry chorava por mim, por uma coisa que eu havia feito. Aquilo não podia ser verdade. Eu não conseguia enxergar mais aquele sorriso encantador e que iluminava o meu dia. Agora, só conseguia enxergar tristeza e decepção em seus olhos, que um dia, brilhavam quando olhavam e falavam de mim. Observando
aquela cena, o meu coração se despedaçou em mil pedaços. Meu mundo desabou. Ver
Harry daquele jeito já era demais. O que foi que eu fiz? O que foi que eu
provoquei? Ele chorava feito uma criança por minha culpa. Só por minha. Fui eu
que fiz aquelas lágrimas surgirem. Eu não podia aceitar que aquele estado dele
era resultado do meu egoísmo. John me olhava sem dizer nada, com uma expressão
de pena. Ele sabia que nem se quisesse, poderia achar algo para dizer. Na verdade, ele não devia fazer a mínima ideia do que estava acontecendo, mas com certeza, sabia que não era nada bom. Zayn,
Louis, Liam e Niall ouviam Harry atenciosamente, todos pareciam estar
decepcionados e sérios. Niall estava visivelmente triste, acabado e pensativo
ouvindo o que Harry dizia e de certeza forma, incomodado com aquele assunto.
De
repente, o olhar de Louis encontrou o meu. No mesmo instante, Louis cochichou
algo para os meninos e todos olharam em volta. Me viram. Quando Harry me olhou,
senti meu coração parar. Na mesma hora, todos levantaram da mesa e andaram em
direção à saída da lanchonete. Harry foi na frente. O observava andar até à
porta e cada vez mais eu me sentia horrível. Eles me trataram como uma
desconhecida, uma inimiga. Há um dia atrás, eu estava na casa da mãe do Harry,
o beijando e podendo o chamar de namorado. Agora, eu o via me evitando, me
odiando. Não podia suportar aquilo. Quando Harry ia sair pela porta da
lanchonete, me olhou com um olhar que me matou de vez. Um olhar que mais me
dizia: "Adeus."
-
Harry! - Gritei, em esperança dele me ouvir e parar.
Não podia deixar aquilo daquele jeito! Não podia deixar que Harry continuasse daquela forma sem nem mover um dedo pra tentar mudar aquilo. Eu não podia deixar que aquela fosse a última vez que nos veríamos. Não podia deixar que aquele fosse o último olhar dele para mim. Não mesmo. Na mesma hora, me levantei e sem pensar duas vezes, corri até à
porta. Harry já havia saído, com Liam, Louis e Niall. Zayn estava prestes a
sair. Quando cheguei na saída, pronta para correr em direção à ele e tentar
falar com Harry, Zayn me impediu.
- O que pensa que está fazendo, Samanta? - Zayn me perguntou, me olhando
indignado e completamente sério.
- Eu preciso falar com ele, Zayn! Por favor, me deixa falar com
ele. Eu preciso resolver as coisas!- Falei desesperada e chorando, tentando
passar pela porta, mas sendo barrada por ele.
- Ah, é? Precisa? - Ele me encarou. - Então deixa ele em paz de
uma vez por todas. - Zayn acabou comigo.
Suas palavras me cortaram como milhões de facas entrando ao mesmo
tempo no meu corpo. Não só suas palavras, mas seu tom, sua voz, seu olhar. Eu
permaneci ali, parada, me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa, de resolver
qualquer problema. As lágrimas invadiam meu rosto. Zayn se afastou de mim,
andando pela rua. Virou, me olhou mais uma vez cheio de frieza e foi embora, me
deixando para atrás, perdida, desolada, devastada.
Foi
ali que eu percebi que nada que eu fizesse, dissesse ou sentisse, seria capaz
de mudar aquela situação. A situação que eu mesma criei. A situação que só não
eu estava, mas todos que os que eu amava e um dia, sonhei que me amassem
também. E esse dia chegou, mas por culpa minha, sem mais nem menos, foi embora.














