domingo, 24 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 40


Diário da Samanta
16 de fevereiro de 2013, domingo

                                                    


Querido diário,

Aqui estou eu, na cobertura do hotel, olhando Londres inteira. Olhando os carros passarem sem parar, pessoas andarem apressadas pelas ruas, aviões sumirem dentre as nuvens. Pessoas entrando nos lugares, cada uma com sua vida, seus pensamentos, suas preocupações e seus destinos, sonhos, sentimentos. Enquanto algumas estão viajando, na praia, numa montanha-russa, num encontro, numa piscina, dando um show ou assistindo a um, eu estou aqui, olhando para o tempo e sofrendo calada. O que será que Harry está fazendo nesse exato momento? Onde será que ele está? Será que ele andou pensando em mim depois de tudo que houve? Será que ainda está magoado comigo ou está sentindo minha falta? Se bem que sentir a falta de uma pessoa não é grande coisa, e sim, sofrer pela falta dela. São tantos “serás” e “porquês” rondando a minha cabeça. Tantas suposições e questionamentos loucos para serem confirmados ou não. Eu tiro o celular do meu bolso, coloco na lista telefônica e vejo o número do celular dele. Me pergunto se eu devo ligar. Ligar pra tentar resolver as coisas, me explicar, falar que eu o amo. Talvez ligar só pra ouvir a voz dele dizendo “alô”. Ligar pra me sentir mais perto dele, pra poder ter certeza de que naquele exato momento, uma parte do tempo dele está sendo preenchida só por mim. Ter certeza que a minha voz é a única que ecoa nos ouvidos dele naquele momento. Não sei. Não sei de nada. Não sei se seria muita falta de vergonha da minha parte, indelicadeza ou se ele me acharia uma sonsa. Eu só queria poder parar de pensar tanto, discar o telefone dele de uma vez por todas e deixar acontecer, mas eu simplesmente não podia. O medo falava mais alto, o medo dele me desprezar de novo, me lançar palavras impiedosas e eu acabar ficando mais vulnerável do que estou agora. Amanhã numa hora dessas eu vou estar no aeroporto, pronta pra entrar em um avião e voar de volta para o Brasil. Essa temporada aqui em Londres foi fora de série. Eu me alegrei, me emocionei, chorei, me estressei, me animei, amei... Tudo intensamente. Não sei se devo me arrepender de algo que eu fiz, mas posso me arrepender de muita coisa que eu não fiz, disso eu tenho certeza. De não ter aberto o jogo com o Harry, de não ter sido eu mesma, de não ter sido corajosa o bastante. De tanta coisa, coisa que eu só enxergo agora. Como as pessoas dizem, às vezes só aprendemos com os nossos erros, infelizmente. Aí quando isso acontece, olhamos para trás e queremos voltar no tempo mas nos culpamos mais ainda porque sabemos que não podemos fazer isso. Então, decidimos que da próxima vez, faremos tudo diferente, mas mal sabemos que talvez não tenha próxima vez. Talvez o meu mal tenha sido ter planejado tudo, ter feito tudo do jeito que eu achava que seria melhor, ter criado roteiro pra a viagem da minha vida. Eu devia ter deixado as coisas acontecerem naturalmente, não devia ter forçado nada. No começo, tudo foi como um sonho. Pena que eu não pude mudar tudo antes de eu acordar dele... Dói saber que eu tive a minha chance e eu deixei ela escapar das minhas mãos. Dói saber que eu afastei o amor da minha vida pra tão longe e dói saber que amanhã, eu vou afastar ainda mais. Só Deus sabe como esse arrependimento está me matando. Só Ele sabe também o que eu faria pra mudar as coisas. Coisas que eu mesma fiz e por natureza, eu mesma tenho que resolver. Ou não. Enfim, diário, eu não vou mais ficar te enchendo com essas palavras que só trazem tristeza. Por mais que seja difícil, eu preciso seguir em frente. Preciso erguer a cabeça, contar até dez e dar os meus próximos passos, não ficar olhando para trás e ficar tentando apagar os que já foram. Eu já arrumei as minhas malas, só falta arrumar os meus pensamentos. Agora, eu vou tentar ocupar um pouco a minha cabeça e vou usar a internet, a minha próxima companheira nos próximos dias lá no Rio de Janeiro, como sempre foi. Mais tarde eu te conto o resto meu dia, diário! Espero poder voltar com palavras mais positivas. Realmente espero.

                                                           *  *  *

Oi, diário. Estou de volta. Logo depois que eu parei de escrever em você, fui para o quarto, entrei no meu notebook por pouco tempo e fui tomar um banho. Ana ficou um tempão conversando com o seu irmão, André, pelo telefone. Ela não parava de falar sobre o Niall, consequentemente, do banho, eu acabava pensando no Harry. Eu tentava começar a cantar, pra pensar em outra coisa, mas quando me dava conta, o que saía da minha boca também era Harry. Tentei tomar um banho pra renovar a minha mente e o meu corpo, mas a tentativa foi em vão. Talvez, saí da banheira pior do que entrei. Coloquei um roupão e saí do banheiro totalmente arrasada. Coloquei uma roupa qualquer e decidi descer para o saguão. Aquele quarto não me trazia boas lembranças. Eu e Harry já havíamos ficado ali, juntos. Foi ali que eu recebi o melhor abraço da minha vida. Não conseguia olhar para aquele sofá e não lembrar dele ali, deitado e me olhando. Fui para o corredor do hotel e entrei no elevador. As portas se fecharam e eu apertei o botão para fazer o elevador descer. Alguns segundos depois, as portas se abriram e eu saí, andando em direção à uma das mesas. Me sentei e apoiei os meus cotovelos na mesa, tampando o meu rosto com as minhas mãos e suspirando de cansaço. Cansaço de tudo aquilo. De repente, senti mãos nos meus ombros e um delicado beijo na minha cabeça. Soei frio. Meu coração palpitou aceleradamente e eu senti meu estômago embrulhar. Tirei as mãos do meu rosto e me deparei com John, bem sentado do meu lado. Dei um sorriso sem graça.

- Ah, é você. – Falei, tentando disfarçar o meu desanimo.
- Deixa eu adivinhar, achou que fosse o Harry. – John falou, sorrindo e me encarando. Fiquei surpresa.
- Do que você sabe? – Perguntei, o olhando com cara de assustada. Por que John achava que eu estava pensando em Harry? Ele sabia que eu o amava? Como? Que eu saiba, nunca tinha dado nenhum indício de que me importava tanto com Harry para ele!
- Do que eu sei? Do que todo mundo já sabe, ué! – John respondeu, rindo e levantando as mãos.
- Do que todo mundo já sabe, John? Não to entendendo. – Falei, completamente desentendida e nervosa. John bufou e revirou os olhos, tirando o seu celular do seu bolso.
- Eu estava entrando na internet hoje cedo pelo meu celular e me deparei com isso. – Ele falou, me mostrando a tela do seu celular. De repente, vi uma foto minha e do Harry. Estávamos nos beijando. Gelei. Nós dois estávamos naquele corredor escuro, de onde o One Direction tinha feito um show no outro dia. Foi quando Harry saiu do palco e me seguiu, quando eu saí do público sem rumo. Quem havia tirado essa foto? Estava totalmente confusa. Aquela foto me lembrava muita coisa, coisa que eu estava tentando esquecer. Olhando aquilo, deixei uma lágrima escapar e a sequei rapidamente.
- De onde veio isso? – Perguntei, série e olhando para baixo.
- Eu não sei, só sei que essa foto já está em milhares de sites pela internet! – John explicou, colocando o celular de volta no bolso. – Dizem que vocês estão namorando. É verdade?
- Eu prefiro não falar sobre isso, John. – Respondi, abatida.
- Então tudo bem. Não precisa responder. Nem está mais aqui quem perguntou! – Ele falou com um tom acolhedor, segurando a minha mão e sorrindo. – E aí, quais são seus planos para hoje?
- Pra falar a verdade, meu plano é ficar sentada aqui o dia inteiro. – Dei um riso desanimado.
- Não é mais! – John levantou da cadeira, me puxando.
- Como assim, John? – Perguntei, o encarando e dando um riso sem sal.
- Vamos andar por aí, aproveitar. Afinal de contas, você vai embora amanhã, não é?
- Onde você anda descobrindo essas coisas de mim? – Ri, o olhando assustada, fazendo John rir também.
- Eu perguntei pra aquele cara que vive seguindo você e sua amiga. Um cara careca, alto e de uniforme. – Ele respondeu, tentando me explicar.
- Sandro. – O ajudei.
- É, deve ser. – Ele riu. – Você está me devendo essa por ter me feito de idiota no dia que nos conhecemos, lembra? – John me olhou com cara de pidão.
- É, eu to lembrada. – Sorri, um pouco mais animada por ele estar se preocupando comigo. – Então vamos lá, vou pagar a minha dívida.

John sorriu e saímos andando, em direção à saída do hotel. Ficamos andando um tempão pelas ruas próximas do hotel, conversando. John me mostrava os lugares que conhecia e puxava assunto de todas as formas possíveis. Às vezes ele percebia que eu estava meio aérea, com os pensamentos em outro lugar e ficava mais calado. Eu me sentia mal por estar fazendo aquilo com ele e falava algo para mostrar pra ele que ele tinha a minha atenção. Eu dava alguns sorrisos pra ele não achar que eu continuava triste. Afinal de contas, John estava ali, gastando seu tempo comigo e me levando pra passear. Era o mínimo que eu podia fazer por ele. Continuamos andando e eu tentando viver o momento, não o passado. Mas parecia quase impossível. Depois de um tempo, decidimos entrar em uma lanchonete para beber e comer alguma coisa. Ela era muito agradável. Sentamos em uma das mesas e pegamos os cardápios. Uma garçonete veio e anotou os nossos pedidos. Eu e John continuamos conversando e eu fiquei completamente pasma, perplexa, sem reação com o que vi.

- Samanta? - John perguntou, preocupado, percebendo o meu olhar e minha expressão.

Não respondi, apenas continuei com o olhar fixo aonde estava desde o primeiro momento. Não acreditava no que os meus olhos viam. Parecia uma assombração. Não era possível que aquilo realmente estava acontecendo, bem ali, onde eu e John estávamos. No lugar errado, na hora errada, vendo a coisa errada. Eu não ouvia nada, só sentia mil sensações ao mesmo tempo. Sensações nada boas. Horríveis.

- Samanta, o que tá acontecendo? – John perguntou novamente. Mais uma vez, não respondi nada. Estava ocupada demais sofrendo com o que via. Então John desistiu de ouvir a minha resposta e virou o rosto, procurando ver o que eu via. Ele viu.

Harry estava em uma outra mesa, sentado com Liam, Zayn, Louis e Niall. Seus olhos estavam repletos de lágrimas, estavam extremamente vermelhos e inchados. Harry chorava. Chorava e desabafava com os meninos sobre algo. Eu desconfiava sobre o que era aquele algo. 

                                                  

Não podia acreditar que aquelas lágrimas caíam por minha causa. Eu não conseguia aceitar que Harry chorava por mim, por uma coisa que eu havia feito. Aquilo não podia ser verdade. Eu não conseguia enxergar mais aquele sorriso encantador e que iluminava o meu dia. Agora, só conseguia enxergar tristeza e decepção em seus olhos, que um dia, brilhavam quando olhavam e falavam de mim. Observando aquela cena, o meu coração se despedaçou em mil pedaços. Meu mundo desabou. Ver Harry daquele jeito já era demais. O que foi que eu fiz? O que foi que eu provoquei? Ele chorava feito uma criança por minha culpa. Só por minha. Fui eu que fiz aquelas lágrimas surgirem. Eu não podia aceitar que aquele estado dele era resultado do meu egoísmo. John me olhava sem dizer nada, com uma expressão de pena. Ele sabia que nem se quisesse, poderia achar algo para dizer. Na verdade, ele não devia fazer a mínima ideia do que estava acontecendo, mas com certeza, sabia que não era nada bom. Zayn, Louis, Liam e Niall ouviam Harry atenciosamente, todos pareciam estar decepcionados e sérios. Niall estava visivelmente triste, acabado e pensativo ouvindo o que Harry dizia e de certeza forma, incomodado com aquele assunto. 

                                               
De repente, o olhar de Louis encontrou o meu. No mesmo instante, Louis cochichou algo para os meninos e todos olharam em volta. Me viram. Quando Harry me olhou, senti meu coração parar. Na mesma hora, todos levantaram da mesa e andaram em direção à saída da lanchonete. Harry foi na frente. O observava andar até à porta e cada vez mais eu me sentia horrível. Eles me trataram como uma desconhecida, uma inimiga. Há um dia atrás, eu estava na casa da mãe do Harry, o beijando e podendo o chamar de namorado. Agora, eu o via me evitando, me odiando. Não podia suportar aquilo. Quando Harry ia sair pela porta da lanchonete, me olhou com um olhar que me matou de vez. Um olhar que mais me dizia: "Adeus."

                                                   
- Harry! - Gritei, em esperança dele me ouvir e parar. 

Não podia deixar aquilo daquele jeito! Não podia deixar que Harry continuasse daquela forma sem nem mover um dedo pra tentar mudar aquilo. Eu não podia deixar que aquela fosse a última vez que nos veríamos. Não podia deixar que aquele fosse o último olhar dele para mim. Não mesmo. Na mesma hora, me levantei e sem pensar duas vezes, corri até à porta. Harry já havia saído, com Liam, Louis e Niall. Zayn estava prestes a sair. Quando cheguei na saída, pronta para correr em direção à ele e tentar falar com Harry, Zayn me impediu.

- O que pensa que está fazendo, Samanta? - Zayn me perguntou, me olhando indignado e completamente sério.
- Eu preciso falar com ele, Zayn! Por favor, me deixa falar com ele. Eu preciso resolver as coisas!- Falei desesperada e chorando, tentando passar pela porta, mas sendo barrada  por ele.
- Ah, é? Precisa? - Ele me encarou. - Então deixa ele em paz de uma vez por todas. - Zayn acabou comigo. 

Suas palavras me cortaram como milhões de facas entrando ao mesmo tempo no meu corpo. Não só suas palavras, mas seu tom, sua voz, seu olhar. Eu permaneci ali, parada, me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa, de resolver qualquer problema. As lágrimas invadiam meu rosto. Zayn se afastou de mim, andando pela rua. Virou, me olhou mais uma vez cheio de frieza e foi embora, me deixando para atrás, perdida, desolada, devastada.

                                                     

Foi ali que eu percebi que nada que eu fizesse, dissesse ou sentisse, seria capaz de mudar aquela situação. A situação que eu mesma criei. A situação que só não eu estava, mas todos que os que eu amava e um dia, sonhei que me amassem também. E esse dia chegou, mas por culpa minha, sem mais nem menos, foi embora. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 39

Diário da Ana
16 de fevereiro de 2013, domingo


E então é isso.
Da água para o vinho. Do sonho para o pesadelo.
Eu estava fazendo as minhas malas, incapaz de acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.
Às vezes, em alguns momentos, as lágrimas molhavam as minhas roupas. Mas, quem se importa? Se eu perdi um amor, posso suportar perder miseras roupas também. Na verdade, eu não queria vê-las nunca mais. Ele havia dito que elas eram bonitas. E desde então elas me faziam chorar. 
Ele pode até ficar sem me ligar, sem me visitar, sem me escrever ou qualquer outra coisa. Mas eu não suportarei vê-lo me esquecer. 
Ah, meu Deus, como eu faço para secar essas lágrimas que insistem em descer? Como eu faço para curar essa ferida no meu peito? Como eu faço para voltar a sorrir? Como eu faço para reaprender a... viver?
Ele. Ele é a resposta para todas essas perguntas. E isso é o que mais me dói. 
A minha passagem e a da Samanta estão marcadas para amanhã à tarde. Antecipamos um pouco (na verdade muito), antes iria ser 2 de março - tudo para ficar mais tempo com... com ele. E agora nada disso tem mais importância. Eu só queria me distanciar, conhecer novas pessoas, me apaixonar novamente. Ou pelo menos tentar. Tentar achá-lo em outra pessoa, em outro sorriso, no meio da multidão. Quem sabe, andando por aí, eu não o encontre? Infelizmente, as chances de isso acontecer são zero. Não há um outro Niall solto por aí. Ele é insubstituível. 
Eu estou tentando, a todo custo, esquecê-lo. Sempre quando eu fecho os meus olhos e o vejo, sorrindo para mim, um nó enorme se forma em minha garganta e eu logo varro aquele pensamento para fora de mim. 
Por mais que eu saiba que eu sou a errada da história e não ele, sei que nós nunca mais vamos voltar. Para evitar mais sofrimento, prefiro fingir que ele nunca existiu em minha vida. O que não vai ser tão difícil, considerando que tudo pareceu realmente um sonho. Eu só não estava preparada para acordar.
― Não fica assim, minha ruivinha linda. ― Dizia o André pelo telefone, tentando há horas me consolar ― Olha, se você quiser eu pego um avião agora e vou aí dar uma surra nesse Niall, tudo bem?
Eu dei um leve risinho, completamente abalada.
― Você deveria pegar um avião para me dar uma surra. ― Falei, com o choro ameaçando desabar a qualquer momento ― Eu nunca deveria ter mentido para ele. 
― Ô, Aninha... Não fica assim, não...
De repente eu comecei a chorar.
Sempre quando alguém fica me consolando com uma voz melosa, de pena, me tratando como se eu fosse um bebê, tudo para me ver melhor, eu tenho vontade de chorar ainda mais. E dessa vez não foi diferente. 
Abracei o telefone, imaginando o André ali, e o meu choro foi intensificando cada vez mais.
― André, vem aqui me abraçar, por favor... ― Disse, entre um soluço e outro.
Enquanto isso a Samanta estava no banho, provavelmente chorando também. Ela estava assim desde ontem, pelos cantos... de vez em quando se trancava no banheiro, sem querer ver ninguém, apenas ficar sozinha com a sua tristeza. 
― Mas eu estou aí te abraçando, Aninha! Não está sentindo, não?
― André... ― Falei com a voz tremida, chorando ainda mais.
― Falta só mais algumas horas, Aninha... Você não aguenta, não? Qualquer coisa eu vou aí te buscar agora.
― Eu não estou aguentando mais um minuto aqui! Por favor, me leva daqui, André! Por favor! ― Dizia, fungando muito ― Eu quero ir embora! Tudo aqui me lembra o Niall. Tudo. Eu quero esquecer esse garoto, André. Por favor, me ajuda a esquecer ele!
Quando me dei conta, a Samanta havia saído do banho. Ela estava com o nariz muito vermelho e os olhos inchados.
― André, me liga daqui a meia hora, por favor. Eu quero fingir que você está aqui comigo... Tenho que desligar agora. Eu te amo.
― Tudo bem... Fica bem, Aninha. Eu também te amo muito!
Até que ele desligou. Fiquei um tempo ouvido o barulho da chamada caída, com vontade de abraçar o meu irmão, para ver se assim eu melhorava um pouco. Uns instantes depois coloquei de volta o telefone no gancho e olhei para a Samanta.
― Eu não consigo tirar da minha cabeça as palavras que o Harry me disse... ― Falou a Samanta, com o olhar distante.
E eu, não só as palavras do Niall, como também não estou conseguindo esquecer as palavras do Liam.
Umas cinco e quinze da tarde de ontem, quando eu já havia chorado um oceano inteirinho, o Liam me ligou. 
A princípio, pensei que ele quisesse me falar que estava do meu lado e que iria fazer de tudo para me reconciliar com o Niall. Porém, ao contrário disso, ele só me ligou para me deixar ainda mais triste e para baixo. Como se eu já não tivesse para baixo o suficiente. Eu estava me sentindo imunda, suja, falsa, mentirosa e tudo aquilo que o Niall provavelmente me xingou mentalmente. 
― Ana, por que você fez isso com a gente? ― O Liam de repente disse, assim que eu atendi ― Por que você fez isso com o Niall? 
― Liam? ― Foi só o que eu consegui dizer, tentando não transparecer o meu choro.
― O Niall está aqui chorando desde que chegou. ― Ele estava falando muito alto, parecendo estar muito preocupado ― Eu nunca vi ele sofrendo tanto como está agora.
Meu coração doeu só de imaginar aquela coisinha linda chorando. Ah, meu Deus, o que eu fiz para merecer isso? Eu não quero e não posso vê-lo sofrer desse jeito. 
― Liam, eu poss...
― Ana, por que não contou que era nossa fã? ― Perguntou ele, me interrompendo ― Por que escondeu isso? Como conseguiu ser tão fingida? A gente acreditou em cada palavra que você disse e agora vejo que era tudo uma completa mentira. 
Eu não consegui mais disfarçar e comecei a chorar muito alto.
Agora, não só o Niall, como todos eles estavam contra mim. Até o Liam, que até então era doce e educado comigo. 
A cada vez que eu tentava falar, ele era mais rápido e falava por cima de mim.
― Dói ver o Niall daquele jeito, Ana. Dói saber que eu achava que te conhecia mas, na verdade, eu não te conheço. Você fingiu ser quem não era o tempo todo. Aposto que se não tivesse fingido pularia em cima de nós e começaria a berrar, não é? Você não vê a gente como pessoas normais, como eu achava que você via. 
― Liam, pelo amor de Deus, me escuta! ― Berrei, chorando ainda mais alto ― No início o meu desejo era esse, sim, e daí? Mas depois eu comecei a me acostumar com a presença de vocês e agora eu não estou nem aí se eu tenho ou não um autógrafo de vocês, porque vocês são pessoas normais como eu, como qualquer um! 
― E quem me garante que você está dizendo a verdade? ― Ele também gritou, fazendo o meu peito doer de tanto chorar ― Quem me garante que você não está mentindo? Ein, Ana? Quem me garante?
― Eu! Eu te garanto!
― Olha, me desculpa mas a sua palavra não vale mais nada agora. E vê se esquece a gente, tudo bem? Porque a gente já te esqueceu. 
E então ele desligou, me deixando completamente sem chão, sem vida, sem nada.
Quando contei isso para a Samanta, ela só faltou se matar. Ela ficou tão triste e com tanta raiva que ligou depressa para a mãe, implorando para ela comprar uma passagem para aquele dia mesmo. Porém ela só encontrou para a segunda-feira, que, no caso, é amanhã.
E agora eu estou aqui, Diário, escrevendo em você, sem saber direito o que fazer ou o que pensar. Eu só sei chorar e chorar. Isso já está me irritando. Se eu pudesse eu sugaria todas as minhas lágrimas. Ou melhor, se eu pudesse eu arrancaria essa dor do meu peito e essa saudade dele que está me sufocando a cada segundo que passa. Aliás, se eu pudesse eu o apagaria da minha mente, para ver se assim essa minha volta para o Brasil é menos sofrida. 
Aqui em Londres, pelo menos, eu me sinto mais próxima dele e sinto que, de alguma forma, as coisas, com o tempo, irão se resolver. Ou, quem sabe, eu possa esbarrar com ele por aí. Mas quando eu voltar para o Brasil, nós nunca mais vamos nem ouvir falar um do outro. Quer dizer, eu vou ouvir falar dele, mas ele não de mim. Talvez ele até realmente esqueça que um dia eu existi em sua vida. Por isso estou tão triste com essa minha volta para o Brasil. Eu queria ficar aqui em Londres para sempre. Porém, por outro lado, eu queria esquecê-lo, para evitar sofrimento, e voltar de uma vez por todas para o Brasil. 
Ah, sei lá, eu não sei de nada no momento. Só sei que daqui à algumas horas eu estarei dando adeus a Londres. E dando adeus a todos os meus sonhos que deixarei para trás. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 38

Diário da Samanta
15 de fevereiro de 2013, sábado


                                                 


Querido diário,

Essa noite dormi como uma pedra! Assim que Harry saiu do quarto na noite passada, e logo após eu me lamentar sobre a minha volta para o Brasil, que se  aproximava cada vez mais, me deitei na cama e simplesmente apaguei. Tive uma noite de sono maravilhosa, dormi como uma rainha. Abri os meus olhos e lá estava eu, naquele quarto quentinho e confortável, com cortinas da grande janela de madeira que não permitiam a luz forte do sol entrar. Sorri e pousei as mãos na minha barriga, refletindo sobre o fato de eu estar ali, acordando na casa da mãe do meu namorado, Harry Styles, enquanto minha melhor amiga, Ana, provavelmente, estaria nesse momento se divertindo com seu namorado, Niall Horan. Parece um sonho. Um lindo e maravilhoso sonho, do qual eu nunca vou querer acordar! Fiquei mais alguns minutos ali, deitada e resolvi me levantar. Dobrei os lençóis, ajeitei o forro da cama e guardei tudo no armário. Olhei no meu celular e já eram 11:00h! Provavelmente, aquele horário seria tarde demais para Anne, Gemma e Harry, mas para mim, era o horário ideal para acordar. Espero que não tenha atrapalhado em nada o café da manhã deles ou alguma coisa parecida, não queria ser um peso de jeito nenhum. Entrei no banheiro e tomei um longo banho gelado, para enfim, despertar por completo. Saí do banho, me enxuguei e vesti uma saia jeans de Gemma, com uma bata branca e um chinelo. Escovei os meus dentes, arrumei o meu cabelo e desci para a sala, onde estavam Anne e Gemma, lendo revistas e conversando.

- Bom dia, flor do dia! – Anne me viu descendo a escada, sorrindo.
-Bom dia! – Dei um sorriso sincero, a avistando.
- Minhas roupas ficam melhores em você do que em mim mesma. Isso não é justo.– Gemma comentou, me observando dos pés à cabeça, fazendo expressão de indignada.
- Gemma, nem vem! Você é linda de qualquer jeito. – Falei, fazendo Gemma rir.
- Finalmente Harry arranjou uma namorada descente. – Ela falou, fazendo todas nós rirmos.
- Samanta, como eu não sabia o que você gosta de comer no café da manhã, achei melhor você acordar e me dizer o que prefere! – Anne falou, fechando a revista e levantando do sofá.
- Não precisa se incomodar, Anne! Eu mesma me ajeito na cozinha. – Sorri, me aproximando da sala de jantar. - Obrigada mesmo assim!
- Se quiser, Gemma pode ir até lá te ajudar! – Anne me avisou, sendo gentil.
- Mãe, se me deixar fazer minhas próprias escolhas, ficaria agradecida! – Gemma protestou, me fazendo rir.
- Na verdade, eu gostaria sim que você viesse comigo, Gemma! – Sorri, puxando ela do sofá e à levando para a cozinha.

Gemma bufou e me olhou séria quando a soltei. Nos encaramos e caímos na risada. Gemma era simplesmente muito hilária! Havia algo nela de especial, que me deixava feliz, me fazia sentir viva, animada. Resolvi fazer algumas torradas enquanto ela preparava um suco de groselha para mim.

- O que achou do quarto de hóspedes? Não é tão ruim, é? – Gemma perguntou, enquanto pegava a jarra em um dos armários da cozinha.
- Que nada, é perfeito! Eu dormi muito bem. – Respondi, tirando alguns pães de forma de um saco que estava em cima do balcão.
- Então Liam é um exagerado mesmo, porque quando ele veio aqui, minha mãe não o deixou dormir comigo na minha cama e ele acabou indo dormir no quarto de hóspedes. Segundo ele, era quente demais e o colchão era mais duro que ele. – Ela comentou, me fazendo rir.
- Liam? Liam Payne? – Estranhei, a encarando e fazendo expressão de dúvida.
- Não, não! – Gemma gargalhou. – O meu namorado se chama Liam, mas não o Liam da Danielle. – Ela me explicou, rindo. - Esqueci de explicar esse pequeno detalhe.
- Ahhhh! – Ri, fechando o saco de pães. – Entendi... Harry ainda está dormindo, Gemma?
- Que nada! Harry sempre costuma acordar cedo. Ele foi encontrar um amigo dele, Will, mas já deve estar voltando. Ele disse que iria nos levar para almoçar fora. – Gemma respondeu, concentrada enquanto espremia as groselhas.
- Então tá. – Sorri, muito feliz com tudo aquilo.

Depois de um tempo, de muitas conversas e etapas do preparo do meu café da manhã, eu e Gemma sentamos no balcão da cozinha, ainda conversando, enquanto eu comia. Ficamos fazendo planos para o dia de amanhã, o domingo! Combinamos de ir na piscina que fica no quintal da casa deles, de irmos ver algum filme no cinema e ela ficou de me levar para conhecer o seu namorado, o famoso Liam sem ser o Payne. Nos animamos com os planos e começamos a conversar sobre sua vida em Cheshire. Gemma me contou os detalhes, empolgada com a minha curiosidade em saber de tudo. Ficamos conversando um tempão mesmo, nem vimos o tempo passar. Olhamos o horário e já eram 14:00h! Ficamos quase três horas conversando, que coisa! Depois de um longo tempo de conversa, vimos Harry entrar na cozinha, do lado de um menino de pele branca, cabelo castanho e olhos verdes. Harry sorriu ao me ver e eu sorri de volta.

- Olha quem acordou... – Ele disse, se aproximando de mim e me dando um rápido beijo.
- Bom dia! – Respondi, encantada e o olhando.
- Esse é um amigo meu, Samanta: Will. E Will, essa é a minha namorada, Samanta. – Harry falou, olhando para Will.
- Oi, Will! Prazer em te conhecer. – Estiquei minha mão em sua direção, já que ele já estava praticamente do meu lado.
- Oi, Samanta! Eu sou um velho amigo do seu namorado. Um simples garoto que o Harry abandonou depois que entrou para o One Direction, depois que deixou a nossa antiga banda, The White Eskimo. – Will disse, apertando a minha mão e fitando Harry, que começou a rir juntamente comigo. Eu sabia quem era ele, já havia o visto em um documentário do One Direction e em fotos do tempo em que Harry morava em Cheshire.

De repente, o celular de Harry começou a tocar. Ele pediu licença e saiu para o quintal, para atender. Eu, Gemma e Will ficamos conversando por um tempo. Will não parava de querer manchar a fita do Harry, contando segredos seus para mim e fazendo piadas sobre ele. Eu só sabia rir, já que Will era um brincalhão nato. Logo depois, ele começou a fazer propaganda de sua banda, The White Eskimo, falando de suas músicas e de seu estilo. Eu fazia perguntas sobre o assunto, para deixar Will satisfeito e feliz, que fazia questão de responder todas elas, até mais do que devia. A ligação que Harry recebeu foi bem longa, já que uma meia hora depois, ele regressou para a cozinha. Sua cara não parecia estar nada boa. Ele estava sério, parecia chateado, ao mesmo tempo, chocado com algo.

-Will, eu estava pensando que a gente podia fazer uma visita para os outros garotos. – Harry falou, deixando Gemma e eu totalmente de lado.
- Achei que iríamos sair para almoçar, Harry. – Gemma disse, o lembrando do almoço que havia combinado.
- Se quiser, saiam vocês. Eu vou almoçar com o Will e os meninos. – Harry respondeu, sendo totalmente ignorante e insensível.
- Mas não era isso que você tinha dito antes. - Ela argumentou, confusa.
- Mas é o que estou dizendo agora. - Harry foi totalmente frio, falando com pura ignorância e grosseria.
- Harry, eu não acho justo você descontar os seus problemas na sua irmã e na sua mãe. Elas não tem nada a ver com isso. – Me intrometi, o olhando sem entender aquele comportamento, deduzindo que ele estava daquele jeito pela ligação que havia acabado de receber, provavelemente, sobre negócios da banda.
- E você não deveria ser uma intrometida, Samanta. Não deveria ser uma fingida, mas mesmo assim, é. – Harry me olhou seco, me ofendendo sem pensar duas vezes, parecendo irritado e provocativo.
- O que foi que você disse? – Levantei, o olhando abismada, completamente desentendida.
- Viu, continua fingindo. – Harry deu um riso debochado, desviando o olhar e o lançando para mim novamente. – Por que você não faz essa mesma pergunta para a sua amiguinha de cabelo vermelho e faz o favor de parar de me fazer perguntas estúpidas? – Ele lançou mais uma, já se retirando da cozinha com Will, que estava pasmo com a ignorância de Harry, assim como todos.

Gemma estava sentada no balcão, calada e observando toda aquela ceninha que Harry fazia. Eu não ia deixar que ele dissesse aquelas besteiras que ele quisesse e saísse dali, sem nem me escutar primeiro e pedir desculpas. Fazia questão de explicações. Ninguém me ofende assim e me deixa falando sozinha, isso eu posso garantir. Não pensei duas vezes e fui atrás do Harry, que já estava na sala, pronto para ir embora. Entrei em sua frente e falei que queria conversar com ele. Ele tentou me driblar, mas eu permaneci e persisti, até que Harry ficou nervoso e começou a subir as escadas, indo para o seu quarto. O segui e o parei no corredor, impedindo que ele passasse pela porta.

- Sai da minha frente, Samanta. – Ele ordenou, me olhando irritado.
- Não até você me explicar o porquê dessa sua atitude ridícula. – Falei, já irritada com o modo que ele agia.
- Eu não te devo explicações! Muito pelo contrário, você que me deve! – Harry gritou, completamente vermelho e descontrolado, me deixando pasma e assustada. O olhava sem entender nada, preocupada com seu comportamento e totalmente perdida, sem nem saber o que dizer. – Vai, diz! Pode dizer que eu sou um idiota, um estúpido! Pode rir na minha cara e dizer que você conseguiu seus quinze minutos de fama às minhas custas! Às custas desse imbecil aqui! – Harry gritava cada vez mais alto, com toda sua grosseria e brutalidade, me assustando cada vez mais.
- Do que você tá falando, Harry? Quem te ligou, o que te disseram? Eu juro que quero entender o que tá acontecendo! Me explica! – O olhava desentendida, me perguntando o que havia feito ele ficar daquele jeito. Harry ficou em silêncio e esfregou as mãos no rosto. Estava visivelmente violento e impaciente.
- Me explica você, Samanta! Me explica você o seu plano e da Ana de se passarem por quem não eram e nunca foram pra mim e o pro Niall só por um capricho das duas! – A cada grito que Harry dava, suas mãos faziam movimentos bruscos, mostrando o quanto Harry estava bruto. – Me explica você o fato das duas amiguinhas brasileiras quererem namorar o Niall Horan e o Harry Styles da banda do One Direction! – Eu só ouvia os gritos de Harry ecoarem pelo corredor, sem reação, não acreditando no que os meus ouvidos estavam escutando. – Você não tá namorando comigo porque realmente se apaixonou por mim, está? – Harry começou a rir de si mesmo, balançando a cabeça e olhando para baixo. – Você mediu cada passo, esquematizou cada encontro, fez questão de que eu dissesse tudo que você queria ouvir, manipulou todos os meus pensamentos. A Samanta que eu conheci não é real, ela é ensaiada, inventada. – Ele me encarou, me lançando um olhar de decepção, parecendo totalmente acabado. – Ela é uma farsa.

Harry terminou de acabar comigo, que já estava totalmente devastada e já chorava como uma criança. Aquelas palavras me atingiram como milhões de facas. Aquele tom de voz do Harry me matou como um tiro certeiro no meu peito. Aquele Harry não era o Harry que eu amava, era um Harry mudado, fora de controle, alterado, violento, descontrolado. Percebi que ele me olhava, esperando que tivesse coragem de dizer alguma coisa, me olhando com um olhar de pena, nojo, rejeição. Estava me sentindo um lixo, a pior pessoa do mundo. Quando Harry percebeu que eu não diria nada, ele balançou a cabeça levemente, observando minha condição de coitada naquele momento. Haviam tantas coisas que eu queria deixar claro, falar e colocar pra fora, mas na verdade, nem sabia como, por onde começar. Me deu uma última chance de falar. Permaneci em silêncio, chorando e machucada. Harry se virou, andando, pronto para ir embora.

- Harry, me deixa explicar. – Falei, já sem forças e deixando todas as últimas lágrimas escaparem.
- Por favor, Samanta, não faça questão de perder o pouco da dignidade que ainda te resta. Se é que você já ouviu falar nisso.– Harry me falou sem piedade, me dirigindo a palavra pela última vez, dando as costas e descendo as escadas, sumindo da minha visão, que agora, não enxergava nada. Aliás, não enxergava tudo: Harry. Tudo para mim.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 37


Diário da Ana
15 de fevereiro de 2013, sábado



Assim que entrei no quarto, na noite anterior, me joguei na cama e fiquei olhando fixamente para o teto, sorrindo feito uma boba. Uma boba completamente apaixonada.
Na manhã seguinte, custei a levantar. Estava ocupada demais imaginando suposições de cenas minhas e do Niall em minha mente.
Quando será que ele irá me pedir em namoro? Eu tenho quase certeza que ele está apenas  esperando o momento certo. Ou, quem sabe, eu esteja me iludindo demais. Para ele, provavelmente, nós deveríamos estar apenas "ficando". Bem, não tem outro motivo para ele não ter feito esse pedido tão importante que é, não só para mim, como para todas as outras garotas.
Mais tarde, relembrei cada detalhe dos momentos em que eu passei ao lado dele. Desde o dia em que nos conhecemos até às 13h30 do dia de hoje. Depois desse horário, todo o meu sonho se transformou em pesadelo.  Porém, antes, relatarei para você, Diário, todo o fim desse conto de fadas, afinal, não tenho coragem de deixá-lo sem um final, por mais que ele não houvesse sido tão feliz assim...
Bem, depois de muito me obrigar, acabei finalmente levantando da cama, pois já deviam ser umas onze horas. E eu estava certa.
Comi qualquer coisa do frigobar, pois àquela altura do campeonato o café da manhã do hotel já teria acabado há tempos.
Enquanto passava o fio dental nos meus dentes, após ter terminado de comer, fiquei pensando na Samanta e no Harry. Ela ainda não havia voltado da tal ida à casa da família Styles. Provavelmente ela estaria se divertindo, assim como me diverti ontem à noite.
Foi tão mágico conhecer todos aqueles pontos turísticos de perto, com um guia turístico incrível... Bem, eu sei que sou um pouco suspeita a falar. Porém, de qualquer forma, foi maravilhoso. Ele explicou tudo tão direitinho para mim... Eu tenho que te confessar que, às vezes, não prestava atenção no que ele falava, apenas em seu jeito fofo e engraçado de ser.
Meus pensamentos logo foram interrompidos pelo barulhinho estressante do meu celular, indicando uma nova mensagem.
Bufei e fui me rastejando pegâ-lo, para ler a tal mensagem. Era da Samanta. E tinha mais três não lidas.
"Oi, Ana! Estou te escrevendo só pra avisar que vou passar o fim de semana na casa do Harry. Tenho que ir agora. Um beijão! Sam."
Nossa, então era assim? Eles passavam um fim de semana juntos e ela me avisava como se fosse a coisa mais natural e normal do mundo? A coisa entre eles devia estar realmente boa.
"Anoca!!! Nunca mais você me mandou mensagens! A mamãe e o papai estão aqui morrendo de saudades (e eu também, claro!). A Beatriz tá te mandando um beijo e dizendo que você é linda (mostrei suas fotos para ela). Ah, e o Harry está aqui te mandando uma lambida. Um beijão, minha maninha linda!"
Pfff, Beatriz. Já tinha até me esquecido de sua existência. Com certeza ela só falou aquilo para puxar o meu saco, pois percebeu que eu a detestei logo de cara.
Reli de novo a mensagem e me dei conta de que eu estava morrendo de saudades do meu gatinho Harry. Poxa, eu nunca havia ficado tanto tempo assim sem olhá-lo, sem poder beijá-lo um milhão de vezes seguidas. Tadinho... ele devia estar sentindo muito a minha falta, pois eu passava a maior parte do tempo do meu dia grudada nele. Ele até dormia abraçado comigo! Um amor, não é, Diário?
As outras duas mensagens eu nem me dei ao trabalho de ler, eram do Gabriel e do Arthur. O mesmo Arthur, por sinal, que quase acabou com a minha relação com o Niall. Por mais que ele não tenha sido exatamente o culpado (pelo menos não diretamente), eu sentia um pouco de raiva dele. Eu então logo apaguei a sua mensagem, sem nem mesmo lê-la antes. Minha consciência pesou um pouco, mas, bem, eu não poderia fazer mais nada agora.
Meia hora mais tarde, enquanto cantarolava What Makes You Beautiful, alguém bateu na porta. Fui lá atender, ainda cantando. Até que, bem na minha frente, estava o Niall. Quase morri de susto e vergonha ao mesmo tempo. E se ele tivesse me escutado cantar? Que constrangedor.
― Baby, you light up my world like nobody else... ― Falou ele assim que eu abri a porta, sorrindo para mim, fazendo menção à um trecho da música que eu estava cantando.
Senti meu rosto simplesmente pegar fogo. Eu estava tão sem graça que nem reparei no que ele segurava em uma das mãos: uma rosa vermelha.


― Niall! ― Exclamei, tentando disfarçar ao máximo o meu constrangimento.
Detalhe: eu vestia um pijama de ursinho e meus olhos provavelmente estavam borrados do rímel da noite anterior. Isso sem contar que meu cabelo provavelmente deveria estar assustador.
Antes mesmo que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele me envolveu em seus braços e me deu um beijo maravilhoso, daqueles de cinema. Me senti nas nuvens por uns três minutos, que foi quando ele se afastou um pouco e disse, meio sem jeito, me estendendo a rosa:
― Trouxe para você!


Alarguei um sorriso, completamente encantada, e agradeci.
O Niall devia ser um príncipe fugitivo de um desses contos de fadas que veio para me fazer feliz.
― Eu estava passando pela floricultura e aí vi um buquê de rosas vermelhas... Elas me lembraram você e então decidi roubar uma rosa. ― Ele riu um pouquinho ― Um dia você tinha me dito que gostava de vermelho, não é?
Fiz que sim com a cabeça, provavelmente com os olhos brilhando, e o beijei, em forma de agradecimento.
Definitivamente, eu só podia estar sonhando.
― Eu amei, Niall! ― Falei, me desvinculando de seus braços ― São tão lindas!
Ele sorriu, feliz por eu ter gostado.
Entramos no quarto e eu logo pedi para que ele não reparasse na bagunça - por mais que, no estado em que aquele lugar estava, atender a esse meu pedido era meio impossível.
Fui até o armário e peguei um copo de vidro. Depois o enchi de água e, com o maior cuidado, botei a rosa lá dentro. Mesmo que depois de um tempinho ela murchasse, eu a guardaria comigo para sempre.
Assim que saí da pequena cozinha e olhei para o Niall, todo fofo me aguardando, me veio uma ideia brilhante em mente.
― Niall, eu preciso que você prove uma coisa! ― Falei, toda empolgada.
― O que? ― Perguntou ele, rindo da minha empolgação.
― Na verdade, eu ainda vou preparar essa coisa... ― Disse, querendo fazer mistério ― Quer dizer, nós dois vamos!
― Iiiih... Eu só sou bom de boca, já de cozinhar... ― Falou ele, fazendo graça.
Comecei a rir e disse que qualquer um sabia fazer aquela comida, que era até mais fácil que fritar um ovo. Ele pareceu acreditar e então foi comigo até a cozinha.
― O Sandro, meu motorista, comprou ontem os ingredientes ― Comecei a dizer ―, que só vendem no Brasil. Quer dizer, aqui também vende, mas é meio raro. Ainda bem que ele encontrou!
― Que suspense! Que comida é essa? Eu já estou até ficando com água na boca, mesmo sem saber o que é.
Nós dois começamos a rir e então eu resolvi acabar logo como o mistério. Falei que era brigadeiro e perguntei se ele conhecia. Ele disse que sim, que já tinha ouvido falar, mas que nunca havia provado.
― Ótimo! Prepare-se para se deliciar, Niall Horan.
Eu comecei a ensiná-lo como preparar o brigadeiro. Primeiramente acendemos o fogo do fogão embutido e logo depois colocamos a panela em uma das bocas. O Niall fez questão de fazer o próximo passo, que era apenas despejar o leite condensado na panela. Depois eu coloquei o Nescau e ele ficou mexendo, até dar o ponto. Desliguei o fogão e peguei duas colheres.
― Nós vamos comer na panela mesmo? ― Perguntou ele.
― Com certeza! É bem mais gostoso!
Fomos andando até o sofá, enquanto o Niall dizia que fazer brigadeiro era mais fácil até que pegar um copo d'água. Eu comecei a rir, concordando com ele.
Assim que nos sentamos, peguei um pouco de brigadeiro com a colher e dei para o Niall provar. Fiquei com os olhos cravados nele, esperando atentamente a sua reação.
Até que, uns segundos depois, ele fez "Huummmmm...".
― E aí?! Gostou?!
― A melhor coisa que já comi na minha vida! ― Falou ele, de olhos fechados, saboreando o brigadeiro.
― Eu sabia que você ia gostar! ― Eu sorri, aliviada por ele ter aprovado.
― Hum... Muito bom, muito bom! ― Disse ele, ainda com os olhos fechados, lambendo a colher.
Comecei a rir da cara dele, que estava saboreando cada detalhe do brigadeiro.
― O que foi? ― Perguntou ele, abrindo os olhos ― Eu não posso fazer nada se eu estou apaixonado por isso aqui!
E então, de repente, ele aproximou o seu rosto do meu e sorriu.
― Mas não tanto quanto eu estou por você.
Meu coração quase parou com o susto que eu levei e depois começou a palpitar muito mais rápido.
Ele nunca havia me dito diretamente que estava apaixonado por mim. Eu não consigo nem acreditar. Agora eu posso dizer com toda certeza: o Niall também gosta de mim.
Abaixei os cílios, toda sem graça, e o beijei, por não saber exatamente o que falar. Aquilo que ele havia dito tinha me deixado completamente sem palavras.
Quando nos afastamos, voltamos a comer e a nos deliciar com o brigadeiro. A cada colherada que o Niall dava, ele dizia um elogio diferente. Era tão engraçado!
Assim que finalmente terminamos de comer, o Niall fez questão de lavar a panela e as colheres. Por mais que eu tivesse negado, ele me ignorou e foi se direcionando até a pia, para lavar as coisas.
Uns dois minutos mais tarde, ele voltou e se sentou novamente ao meu lado. Percebi que ele estava reparando na mala que estava deitada bem na nossa frente.
― Que mala enorme!
― É que tem as coisas que eu gosto lá dentro. ― Falei ― E são muitas coisas que eu gosto. ― Ri.
― Eu posso ver? ― Perguntou o Niall.
Completamente anestesiada pela sua fofura, assenti, sem consciência alguma.
Enquanto ele ia até a mala ver o que tinha, eu disse que iria ao banheiro escovar os meus dentes.
Fechei a porta e fiquei um tempo analisando o meu reflexo. Eu estava mesmo horrorosa. Mas o Niall pareceu não se importar nem um pouco com esse detalhe. Sorri ao constatar aquilo. Provavelmente se ele estivesse no mesmo estado que eu, eu também nem ligaria e continuaria o achando o garoto mais lindo do mundo. Bem, do meu mundo.
Passei rápido o fio dental, pois eu queria aproveitar cada segundo que me restava ao lado dele, pois logo, logo escureceria. Logo em seguida escovei os dentes e abri um sorriso, para conferir se eles estavam realmente limpos e brancos. E estavam.
Abri a porta, enquanto ajeitava rápido o meu cabelo, e me deparei com o Niall lendo uns papéis amaçados. Ele estava tão lindo e concentrado... Quer dizer. Espera aí. Que papéis eram aqueles? E por quê ele estava com uma cara estranha?
― O que está lendo? ― Perguntei, com um sorriso nervoso.
Ele desviou a sua atenção do papel e voltou o seu olhar para mim. Percebi que os seus olhos estavam frios. E ao mesmo tempo vermelhos e molhados.
Eu gelei.
― Niall, o que está lendo? ― Repeti, com a voz tremula.
Ele ficou um tempo sem responder, apenas me olhando, intacto, como se eu fosse uma completa desconhecida.
― Por que não me contou? ― Foi só o que ele disse.
Minhas mãos começaram a tremer e a suar frio.
― Contar o que?
― Que você era, na verdade... ― Ele parou um instante, como se fosse muito difícil dizer aquilo ―, a minha "fã número um".
De repente, eu comecei a chorar.
― Do que está falando, Niall?
Ele se levantou brutalmente e me olhou bem profundamente. Percebi que as lágrimas estavam ameaçando cair a qualquer momento de seus olhos.
― Se você não soubesse do que eu estou falando, não estaria chorando, Ana. ― Ele balançou um pouco a cabeça e de repente soltou uma risada ― Ou melhor, Anastácia. Até isso você escondeu de mim.
Eu comecei a chorar ainda mais, morrendo de medo de perdê-lo.
― Eu esqueci, Niall! Eu juro que eu esqueci! Por favor, acredita em mim! ― Supliquei, soluçando muito ― Eu imploro!
Ele pareceu não ter se abalado nem um pouco, por mais que lágrimas estivessem descendo de seus olhos.
Até que ele começou a menear a cabeça e, depois, cravou os olhos em mim.
― Quem é você?
Assim que ele me perguntou aquilo, o meu mundo desabou.
Aquelas três simples palavras fizeram uma ferida tão profunda no meu coração que eu não sei nem se dor é a palavra apropriada para expressar o que eu senti naquele momento. E ainda estou sentindo.
― Ana, Niall! Ana! A sua Ana! ― Respondi, chorando desesperadamente ― Por favor, acredita em mim...
― Eu não consigo mais acreditar em uma palavra que você diz. ― Disse ele, visivelmente decepcionado e abalado.
Depois de muito ter chorando, enquanto ele permanecia paralisado em minha frente, provavelmente ainda sem acreditar no que havia lido, eu resolvi ceder.
― Tudo bem, Niall... ― Falei, prendendo com todas as minhas forças o meu choro ― Você realmente não conhece quem eu sou de verdade. E, pelo visto, nunca vai conhecer.
Por mais que ele estivesse certo daquilo que eu havia dito, de algum modo, ele pareceu chocado. Foi como se, aquelas palavras sendo admitidas por mim, soassem mais sérias, mais certas.
Niall então me olhou por uma última vez e disse:
― Adeus.

CAPÍTULO 36

Diário da Samanta
14 de fevereiro de 2013, sexta-feira




Vi aquela cena e engoli seco, tirando as mãos dos ombros do Harry e me afastando. Eu não iria dar um escândalo, começar a gritar e puxar o cabelo daquela vagabunda, não queria me passar por uma baixa e descontrolada, apesar dela sim ser isso. Apenas andei até à sala e me sentei no sofá, cruzando as pernas e agindo normalmente, mas morrendo de raiva por dentro, claro. Gemma veio atrás de mim, sentando do meu lado. Ela estava preocupada, temendo que eu terminasse com Harry ou tomasse alguma outra providência pela situação que eu acabara de presenciar. Me explicou que Felicity era uma ex namorada de Harry. Disso eu sabia, já tinha visto fotos deles dois juntos. Gemma me contou que eles namoraram no ano de 2010, mas Felicity nunca se contentou com o término do namoro e tentava reconquistar Harry até hoje. Eu apenas assenti com a cabeça, atenta e sorri. Gemma não estava entendendo a minha reação. Ela ficou calada, pensativa. Provavelmente, estava pensando que qualquer namorada normal, se visse seu namorado sendo beijado por qualquer outra garota, no mínimo, arrancaria os cabelos da tal biscate, mas eu, não iria mover um dedo por aquilo, sinceramente. Não que eu não estivesse com vontade, mas só queria ver o que iria acontecer. Engoli todo o meu ódio e minha vontade de enfiar a mão na cara daquela garota e apenas respirei. Ouvi Harry gritando baixo lá na sala de jantar com Felicity, se é que isso existe, diário.

- Felicity, nós terminamos há três anos! Você precisa aceitar isso, tá legal? Precisa seguir em frente, viver a sua vida e me deixar viver a minha! – Harry falava, furioso e ao mesmo tempo, tendo cuidado para não fazer escândalo algum.
- Harry, ambos sabemos que não foi bem assim que aconteceu. – Ela começava a falar, com uma voz melosa e que esbanjava cinismo. – Não adianta negar que ainda pensa em mim, que ainda chama o meu nome quando está com outra. – A cada palavra que saía daquela boca nojenta, minha mão coçava mais ainda, louca pra dar o tapão que aquele garota merecia bem no meio da cara.
- Eu estou cheio dessa sua persistência, Felicity. – Harry apareceu na sala, puxando o braço dela e indo em direção à porta. Eu só assistia ao “show”. – Não queria ser grosso, mas não tenho outra escolha. Vai embora e me esquece, tá bom? – Ele abriu a porta, olhando irritado para baixo e vermelho.
- O que está acontecendo nessa casa? – Anne apareceu, preocupada com a “gritaria”.
- Anne, eu só vim ver o seu filho e ele está me expulsando da sua casa. Eu não estou entendendo! – Disse Felicity, se fazendo de coitada.
- Eu não estaria fazendo isso se você agisse do modo que age. – Harry a olhou, sério. – Eu achava que pelo menos, poderíamos ter uma relação amigável, mas pelo jeito, você não quer facilitar as coisas. Felicity, você apenas não é a garota certa pra mim. – Ele tentava explicar, impaciente e a olhando nervoso.
- Ah, é? Não era isso que eu ouvia da sua boca quando eu deitava na sua cama. – Ela falou, dando fim no pingo de paciência que ainda me restava.

No mesmo instante, levantei do sofá, peguei minha bolsa e a coloquei no ombro. Me despedi de Gemma, à abraçando e dando um beijo em sua bochecha. Quando Harry percebeu que eu estava pronta para ir embora, andou em minha direção e colocou as mãos em meus ombros.

- Samanta, você não vai embora. Não é você que tem que sair por aquela porta. – Ele falou devagar, tentando me convencer e me tranquilizar.
- Acontece que eu não sou obrigada a ficar vendo essa palhaçada, Harry. – O olhei nos olhos, esgotada e séria.
- Não é você que eu namoro? Não é de você que eu sou namorado? – Harry perguntava, sussurrando e me olhando fixo. – Me deixa resolver isso e eu te levo para o hotel, tá?
- Não tem importância, eu pego um táxi. – Falei, ignorando totalmente o que ele tinha dito.

Saí de perto dele e fui andando em direção à porta. Harry suspirou e colocou suas mãos em sua nuca, fechando os olhos, irritado com aquilo tudo, assim como eu. Felicity estava parada ao lado de Anne, observando toda séria, mas no fundo, adorando a situação toda.

- Anne, muito obrigada pelo almoço, foi tudo ótimo! – Falei, olhando para Anne, segurando suas mãos e sorrindo.
- Samanta, você acabou de chegar! Não acredito que já está indo embora. – Anne se lamentou. – Fique mais um pouco, querida! – Pediu ela.
- Eu prometo que te faço uma visita em breve, Anne, de verdade! Obrigada por tudo! – A abracei, já me despedindo.
- Samanta... – Falou Harry, tentando me impedir de ir.

O ignorei e saí pela porta, atravessando o jardim e andando pela calçada. Não fazia ideia de como pegaria um táxi naquele lugar, mas eu não queria ficar tendo que suportar o Harry discutindo “relação” com uma ex namorada. Aquilo era o cúmulo. Ele nem devia permitir que essa louca entrasse na casa dele, pra começar. Não que ele tivesse culpa de tudo aquilo, mas eu não tenho paciência pra ficar calada, esperando que a boa vontade daquela oferecida fizesse ela sair logo dali. Se eu ficasse mais um minuto naquela casa, as coisas não acabariam nada bem. Por isso, era melhor eu ir embora antes da minha cabeça começar a esquentar de verdade, me fazendo tomar alguma decisão precipitada. Faziam apenas dois dias que eu estava namorando o Harry e já havia acontecido um problema. Que ótimo. Anne e Gemma são realmente muito amáveis, mas por mais que elas tenham pedido, eu não podia ficar lá, sentada no sofá, calada, vendo tudo aquilo, fazendo papel de uma namorada bundona e como se nem ligasse para o fato da ex namorada do meu namorado ter beijado ele bem na minha frente. Saí andando sem rumo pela calçada da longa rua da casa do Harry, pensando em como voltaria para Londres. De repente, escuto passos rápidos vindos em minha direção e eu me viro. Gemma vinha ofegante, correndo.

- Samanta, não acredito que está indo embora por causa daquela víbora da Felicity! – Gemma começou. – Eu sei, o meu irmão é um babaca, já devia ter mandado ela se mancar de vez, mas o Harry é muito cuidadoso, ele fica com medo de ser grosso demais e acabar gerando alguma polêmica sobre ele tratar ela mal. Se isso acontecesse, provavelmente ela abriria a boca por aí e acabaria com a imagem dele. – Gemma tentava me explicar tudo, esperançosa em me convencer a ficar.
- Gemma, eu não to com raiva do Harry. Não exatamente. Eu to com raiva da situação, do destino que só me traz problemas. – Ri, meio desanimada.
- Olha, hoje é sexta-feira! O final de semana tá aí, todo pela frente! Você pode dormir aqui até o domingo. Nem precisa olhar pra cara do meu irmão, é só ficar comigo. – Riu ela, segurando minhas mãos e dando um sorriso gigante. – A mamãe gostou muito de você, Samanta. Ela iria ficar tão feliz se você voltasse! – Gemma disse para me fazer ficar, me fazendo rir. A olhei e fiz cara de pensativa.
- Ai, tá bom... – Cedi, fazendo Gemma pular de alegria e me abraçar. – Mas antes, vamos em alguma lanchonete aqui perto tomar um café gelado, estou com vontade. – Sorri. – É bom que passa um tempo e aquela oferecida vai embora. Não quero nem olhar na cara dela.
- Assim que se fala! – Gemma riu.

Eu e Gemma andamos pelas ruas de Cheshire, indo em direção à uma cafeteria que ela dizia ser a melhor da cidade. Cheshire era tão fofa, aconchegante e visivelmente calma! As casas bonitas, mas não exageradas, enfileiradas em ruas arborizadas e super organizadas. Tudo era calmo, lindo e admirável. O ar parecia puro. Quase não havia trânsito e barulho. Parecia o paraíso. Gemma me perguntava sobre os meninos brasileiros, se eles eram bonitos ou feios. Eu ria e respondia à toda pergunta dela sobre o Brasil. Era engraçado, porque ela perguntava sobre o país toda empolgada e eu respondia sempre falando do Brasil negativamente, a desanimando. Mas eu sempre colocava um “mas” depois das frases, para mostrar que o Brasil também tem suas qualidades, como qualquer outro país. Minutos depois, chegamos na cafeteria, sentamos e pedimos nossos cafés gelados. Passamos umas duas horas conversando uma com a outra, mas confesso que não parava de pensar em se era realmente uma boa ideia passar o fim de semana na casa da família do Harry. Pedi licença para Gemma e fui ligar para Ana no banheiro.

- Ana, sou eu, Samanta! – Falei logo depois que Ana atendeu seu celular.
- Oi, Sam! Como tá indo o almoço na casa do Harry? Conheceu a Gemma? Ela é legal? E a Anne? Ela é tão linda quanto parece ser nas fotos? – Ana perguntava, animada e tagarela.
- Mal, sim, sim, sim, sim e sim. – Respondi as perguntas, rindo.
- Eu ouvi um “mal”? – Ana ficou confusa.
- É uma longa história! Quando chegar aí, te conto tudo. Ana, eu vou passar o fim de semana aqui na casa da família do Harry. A Gemma me convidou e eu não pude recusar o convite. Volto no domingo de noite, tá bom?
- Hm... Já está toda amiguinha da família do Harry, NE? Daqui a pouco, num piscar de olhos, já estão virando noivos! – Ana brincou, rindo.
- Ah, claro. – Ri.
- Tudo bem, então! Se divirta muito e quando chegar aqui, quero saber todos os detalhes!
- Como sempre! – Comentei, rindo. – Bom, beijo, Ana! Se divirta com o Niall enquanto eu não estou aí pra te encher o saco. – Brinquei.

Ana riu e me mandou um outro beijo, desligando o celular em seguida. Voltei para a mesa e eu e Gemma pagamos os cafés. Fomos andando, voltando para a casa dela. Já estava escurecendo. Uma brisa leve e fria batia nos meus cabelos e nas folhas das árvores, fazendo elas caírem na calçada. Passei o caminho inteiro em Cheshire, estava completamente obcecada por aquela vista. Andamos, andamos, andamos e finalmente, chegamos na casa. Gemma bateu na porta e Anne a abriu.

- Samanta! Você voltou! – Anne me abraçou, empolgadíssima. – Olha, tem um quarto de hóspedes bem do lado do quarto do Harry! Lá tem lençóis, cobertores, banheiro com toalhas limpas... Tudo certinho! Gemma vai te emprestar umas roupas até domingo! – Anne falava, visivelmente animada com a ideia de eu dormir em sua casa. – Se sentir fome ou sede, não sinta vergonha de abrir a geladeira e ir na dispensa! Essa é a sua segunda casa agora!

Apenas ria e agradecia. Anne falou que iria dormir, pois estava cansada e precisava acordar cedo para resolver umas coisas. Já eram 20:00h! Uau, o tempo voou. Gemma foi literalmente arrastada por para ir dormir também, pois Anne queria que ela à acompanhasse logo de manhã. Gemma não gostou nada da ideia, relutou mas acabou aceitando, indo dormir também. Ela me levou em seu quarto, me deu umas roupas para eu usar e eu agradeci, desejando boa noite e indo para o quarto de hóspedes. Era realmente fofo! Havia uma cama de solteiro de madeira, com um colchão super macio e cheiroso. O quarto era pequeno, aconchegante. Me sentia protegida nele! Tranquei a porta e entrei no banheiro, indo tomar um banho. Vesti uma calça super confortável, cinza e de algodão, junta com uma camiseta longa azul marinho. As roupas de Gemma couberam perfeitamente em mim! Escovei meus dentes com os dedos e resolvi ir para a sala ver um pouco de televisão, já que não estava com nem um pouco de sono. Saí do quarto e andei pelo corredor, descendo as escadas. Peguei o controle remoto no centro da sala, sentei no sofá com as pernas cruzadas e liguei a televisão. Passava os canais procurando algum filme bom, mas só passavam filmes que eu já tinha assistido antes. As janelas da casa estavam fechadas, mas mesmo assim, sentia um frio muito grande. Decidi ir até o quarto e buscar um cobertor para me cobrir. Levantei do sofá e quando ia subir o primeiro degrau da escada, percebi que Harry estava descendo.

- Ouvi sua voz do meu quarto. – Harry disse, enquanto descia as escadas, com a mão no corrimão. – Fico feliz que tenha decidido ficar. – Ele sorriu, colocando as mãos na minha cintura e se aproximando o seu rosto do meu.
- É, a Gemma me convenceu. – Falei, me afastando e voltando para o sofá, sentando no mesmo. Harry me seguiu e se deitou do meu lado, encostando a cabeça no meu colo, me encarando com um sorriso gigante no rosto, querendo fazer graça. Ignorei.

Harry sentou e suspirou. Eu passava os canais sem calar nada, não desgrudava os olhos da televisão. Não estava acreditando que Harry ia agir como se nada tivesse acontecido, sem dar explicação nenhuma. Eu sei muito bem o porquê daquela cena mais cedo, mas queria ouvir da boca dele. Ele também estava em silêncio, com uma perna dobrada com o pé em sua do estofado e a outra, deitada em baixo dele. Ele apoiava seu cotovelo nas costas do sofá e sua cabeça, na mão.

- Essa seria um boa hora para uma pipoca, né? – Harry me perguntou, animado e me olhando.
- Você vai mesmo continuar fingindo que nada aconteceu? – O encarei, séria.
- Samanta, eu não armei tudo aquilo, sabia? – Ele falou, me encarando.

                                                  

 – Não tenho culpa se aquela garota não me deixa em paz. Eu não fazia ideia de que ela viria na minha casa e faria isso. – Ele argumentou.
- Mas eu acho que pelo menos merecia explicações, Harry. As coisas não funcionam assim. – Revirei os olhos, me levantando e indo para a cozinha.
- Eu tentei explicar, mas você preferiu me ignorar e ir embora. Lembra? – Harry veio atrás de mim, se justificando.
- Ficar lá, parada, com cara de imbecil e olhando ela querendo se esfregar em você, eu não ia. – Ironizei, abrindo a geladeira e pegando a caixa de leite, já que Anne havia me dado permissão para fazer isso. Peguei um copo no armário, o coloquei no balcão e o enchi de leite, tomando um gole.
- Isso tudo é ciúme? – Harry me encarou. Vendo ele, acabei deixando um riso escapar.

                                                  
- Claro que eu fiquei com ciúmes, Harry. Eu não vou mentir, você é o meu namorado. Se qualquer garota ficasse dando em cima de você, principalmente uma ex namorada, é claro que eu ficaria com ciúmes. – Harry deu um sorriso e veio até mim, me abraçando por trás.
- Não é a Felicity que eu estou namorando. – Ele falou no meu ouvido, me dando um beijo no pescoço.
- Sério? Não tinha percebido. – Falei em meio aos risos, me afastando dele e lavei o copo. Coloquei o leite de volta na geladeira. 
- Harry Styles é só seu. – Ele mudou a voz e fez uma cara engraçada, me fazendo gargalhar. 

                                           
Voltei para a sala e sentei novamente no sofá.

Harry também voltou e sentou do meu lado, colocando seu braço por trás de mim. Encostei minha cabeça em seu ombro. Ficamos assistindo Parental Control, um programa onde os pais não gostam do namorado da filha e arranjam dois outros garotos para sair com ela. No final, ela escolhia com quem gostaria de namorar. Harry ficava dizendo o quanto era melhor que todos aqueles garotos, e eu só sabia rir. De repente, Harry ficou sério. Do nada. Estranhei.

- Que foi? – Perguntei.
- Faltam 16 dias pra você voltar para o Brasil. – Harry falou sério, olhando para a televisão, tentando disfarçar a tristeza.
- É, mas acontece que 16 dias não são 16 horas! – Falei, apertando sua boca com a minha mão e a beijando, tentando esconder o quanto eu odiava pensar naquilo.

Harry sorriu e falou que ia subir, já que estava com sono. Desejei boa noite e continuei assistindo televisão. Sei que falei aquilo, mas na verdade, 16 dias passam voando. Daqui a 6 dias a turnê do One Direction começaria e o Harry ficaria ainda mais ocupado, até eu voltar para o Rio. Senti uma dor horrível no peito, uma angústia gigante. Decidi subir e dormir, já que meus olhos já queriam fechar. Desliguei a televisão e subi as escadas, indo em direção ao quarto. Abri a porta e me deparei com Harry deitado na cama. Fiquei parada, o encarando e de braços cruzados, só esperando ele dar uma boa explicação para estar ali. Ele me olhou.

                                                

- Não vai vir pra cama? – Harry perguntou, na maior cara de pau.
- Eu vou. E você, vai sair. – Ri, ficando do lado da cama, em pé, e o puxando.
- Ah, Samanta! Qual o problema? Eu tenho medo de dormir sozinho! – Harry relutava, tentando escapar das minhas mãos e ria.
- Então continue com medo aí sozinho. Eu vou dormir na sala! – Sorri, pegando um cobertor no armário e já de saída do quarto.
- Tá bom, você venceu. – Ele lamentou, levantando da cama e indo em direção à porta, onde eu estava. Harry parou na minha frente e me olhou nos olhos. – Dezesseis dias não são dezesseis horas. – Ele sorriu, me dando um lento beijo em seguida.

Harry saiu do quarto e eu tranquei a porta, me encostando nela e suspirando. Na verdade, dezesseis dias, às vezes, podem ser dezesseis segundos.