Diário da Ana
12 de fevereiro de 2013, quarta-feira
12 de fevereiro de 2013, quarta-feira
Passei como um fucarão
pelos corredores do hotel, até estacionar bem em frente a porta do quarto da
Amanda, o lobo com pele de cordeiro.
Bati na porta dez vezes
seguidas, completamente impaciente e revoltada. Antes dela aparecer, respirei
fundo, contei até um milhão e esfreguei a minha cara. Eu precisava aparentar
tranquila, otária e palhaça, exatamente como eu era, antes de saber quem ela
era de verdade.
Depois do que pareceram
anos, a Amanda abriu a porta, toda sorridente e... linda. Argh.
Ela vestia um baby doll
curtíssimo (como eu não reparei que ela era, na verdade, uma tremenda de uma
vaca?) e uma pandufa de oncinha. Seus longos cabelos castanhos cacheados
estavam presos em um coque e seus cílios estavam mais pretos, grandes e grossos
do que nunca. Por que ela teve que nascer com um olhar tão marcante?
― Amanda! ― Exclamei, com
a minha voz mais agradável.
― Fofa! ― Falou ela,
esbanjando os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados ― Entre!
Lancei-lhe um sorriso
amarelo e entrei.
A minha ficha ainda não
havia caído. Eu a considerava bem mais que uma amiga, uma irmã. A Amanda tinha
me enganado direitinho. Para mim, ela era um doce, uma fofa que fazia tudo o
que eu pedia, como um cachorrinho obediente. Não que eu a considerasse o meu
capacho, não é isso. É que, bem, ela sempre fazia de tudo para me agradar e,
segundo ela, nós éramos melhores amigas.
Por qual motivo ela faria
uma coisa dessas comigo? Não entregar o CD para o Niall foi jogo sujo.
― Algum problema,
querida? ― Perguntou ela, enquanto passava um creme hidradante em sua impecável
pele morena.
Respirei fundo e disse
que sim, a olhando bem séria.
Ai, ai, ai. Como eu a
acusaria de uma coisa que eu nem tenho certeza que ela fez (na verdade eu tenho
sim!)? Eu não queria parecer grosseira e ao mesmo tempo queria, para ela se
enxergar. Mas aí eu estaria me rebaixando ao seu nível.
― E então, qual é o
problema, meu amor? ― Disse ela, me olhando atentamente.
― O problema? ― A olhei
com a minha melhor cara de sínica ― O problema é você, meu amor.
Eu odiava com todas as
minhas forças possíveis a mania irritante dela de, sempre ao final das frases,
falar alguma palavra carinhosa para a pessoa. "Claro, meu amor",
"Oh, sim, minha flor", "Ah,
não, querida", "Isso é sério, coração?". Nunca admiti isso para
mim mesma por pura pena dela, já que ela era tão legal e boa comigo.
― Eu? ― Espantou-se ela,
boquiaberta (exatamente como as barbies dos filmes).
E mais uma vez eu me
pergunto: como eu não pude reparar que, ao invés de cordeiro, era ela um lobo?
Aliás, uma víbora?
― Amanda, por favor, não
se finja de desentendida. ― Cruzei os braços ― Bem, pelo menos não na minha
frente.
Ela franziu a testa e
disse que não estava entendendo aonde eu queria chegar.
― Olha aqui, para a sua
informação, eu já sei que você não mostrou o CD para o Niall.
― Mas é claro que eu
mostrei, princesa! ― Ela riu e eu quis dar um tapa bem na sua cara ― Daonde
você tirou essa ideia?
― Do próprio Niall.
Ela pareceu chocada e ao
mesmo tempo com raiva (por mais que ela estivesse tentando disfarçar, eu
percebi).
― Vocês... se acertaram?
O que ela quis dizer com
isso? Você entendeu, Diário?
― Amanda, por favor, me
dê o CD que eu te entreguei. Os dois, né? Já que você não entregou para o Niall
o dele. ― Falei, ignorando a sua pergunta.
― Eu não vou te entregar
CD nenhum, garota. Ficou maluca? ― Ela falou de repente, totalmente
irreconhecível.
Por mais que eu já
soubesse que a sua doçura era só de fachada, foi estranho vê-la daquele modo
tão arrogante e agressivo, ao qual eu não estava acostumada.
― O quê?! ― Perguntei,
completamente indignada.
Quem ela pensa que é? O
CD é meu. E foi exatamente isso que eu disse para ela.
― Era seu. ― Falou
ela, faiscando ódio pelos olhos ― Agora ele é meu.
Fiquei completamente sem
palavras, apenas comecei a dizer coisas do tipo: "Não! Nada disso! Ele é
meu!" - como aquelas típicas respostas que as criancinhas dão em suas
brigas com a coleguinha.
Eu não havia tido muitas
brigas, então sempre quando eu precisava retrucar de forma imediata e a altura,
as palavras acabavam fugindo da minha boca. E mais tarde, em casa, sempre vinha
em minha mente uma resposta perfeita. E dessa vez não foi diferente.
Agora, escrevendo aqui em
você, Diário, eu pensei em uma coisa maravilhosa que eu poderia ter dito para a
Amanda naquela hora. Mas deixa pra lá, já passou.
― Escuta aqui, Ana, você
se acha muito esperta, não é? ― Dizia ela, apontando o dedo indicador para mim
(praticamente o esfregando na minha cara) ― Mas eu posso te garantir que eu sou
muito mais.
As palavras da Amanda
estavam rodando em minha mente. Eu não conseguia processá-las direito.
Ela simplesmente estava
irreconhecível da Amanda de alguns minutos atrás. Será que alguém a raptou e
colocou essa sósia para interpretá-la? É sério, Diário. Se você a conhecesse
pessoalmente me entederia.
― Amanda, me dá o CD
agora. ― Ordenei, bem séria.
Ela suspirou, abertou os
lábios e me estendeu o CD.
― Tudo bem, você venceu.
O que eu tinha que fazer com ele eu já fiz.
De repente eu fiquei
estática. O que ela tinha feito com a minha música?
― O que você fez com o
meu CD, Amanda?
Ela começou a rir
debochadamente.
― Você é tão esperta, já
deveria ter descoberto.
Resolvi acreditar que ela
não tinha feito nada e só estava falando aquilo para me botar medo. Eu não
queria dar mais esse gostinho para a Amanda.
Eu então puxei o CD da
mão dela e saí daquele quarto à passos de elefante.
Assim que cheguei no meu
quarto, o meu primeiro impulso foi ligar para o Niall e contar absolutamente
tudo para ele. Contar que a sua amiguinha doce e frágil não era nada daquilo.
Porém achei melhor deixar aquilo para outro dia, quando a minha cabeça estiver
esfriado.
A Samanta ainda não havia
chegado do seu encontro com a Danielle (pois é, Diário! E nem me pergunte como
elas ficaram tão próximas nesses últimos dois dias que se passaram, porque eu
não sei a resposta. Já eu, a Danielle parece detestar - eu acho que ela tem um
pouco de ciúmes de mim e do Liam, já que nós também nos aproximamos muito
durante esse período) e por isso eu fiquei sozinha e desamparada durante muitas
horas, até que o Niall me ligou.
― Niall! ― Exclamei ― Que
bom que me ligou!
― Eu estava aqui pensando
em você... e então decidi te ligar, para ouvir a sua voz. ― Falou ele, sendo
extremamente, completamente, profundamente fofo.
― Eu já estava sentindo a
sua falta... ― Falei ― Por que não vem aqui?
― Ok! Eu chego aí em
vinte minutos, tudo bem? Um beijo grande!
E então ele desligou e eu
fiquei pensando no quanto eu era sortuda, até que ele chegou.
Ele estava vestindo uma
bermuda, uma camiseta sem mangas e um boné para trás. A cara dele.
Enquanto ele falava
qualquer coisa, eu só conseguia reparar em sua beleza interior e exterior. Tudo
nele era lindo. Os olhos grandes, redondos e bem azuis. A pele branca e macia.
Os sinais no pescoço. Os cabelos louros, agora um pouco escondidos debaixo do
boné. As orelhas engraçadas. Os dentes agora perfeitamente alinhados e brancos.
O nariz. Os lábios. Tudo. E de pensar que, agora, eu poderia ter tudo aquilo só
para mim.
Há um tempo atrás, quando
ainda estava no Rio de Janeiro, essa realidade paracia tão distante para mim.
As pessoas falavam tanto que eu estava sonhando alto, que eu nunca iria
conseguir, que, com o tempo, eu acabei acreditando um pouco nelas. Porém no
fundo, eu sempre tive esperanças. E lá estava eu, cara a cara com o amor da
minha vida, que também é apaixonado por mim. Infelizmente só não sei se ele me
ama... talvez não. Ainda é muito cedo para saber. Mas no dia em que ele me
disser que me ama, eu serei a garota mais feliz do Universo. Disso eu posso ter
certeza.
Ficamos um tempo
conversando, até que nós começamos a contar piadas sem graça um para o outro.
Eu ria só porque estou boba de paixão. Mas se fosse a Samanta me contando
aquelas piadas, eu no mínimo a mandaria calar a boca. Porém... bem, era o
Niall. Cá entre nós, é meio impossível não rir das coisas que ele diz, por mais
bobas que pareçam ser.
― Dois sapos estavam
voando. ― Ele começou a contar a piada, já morrendo de rir ― Aí, de repente, um
olha para o outro e diz: "Ei! Sapo não voa!"
Eu, que já estava gargalhando,
ri ainda mais.
Eu acho que nós estávamos
meio bêbados.
― Aí o outro diz: "É
mesmo". ― Ele parou um instante, sem forças para continuar, por estar
rindo muito ― E então eles começam a cair. Mas no meio da queda, o outro sapo
diz: "Peraí! Sapo não fala!".
Eu simplesmente chorei
de rir. Eu queria que você estivesse lá, Diário, só para ver que eu não estou
mentindo ou exagerando demais.
― O outro sapo diz:
"É mesmo". E então eles continuam voando.
Nós dois nos contorcemos de dor, de tanto que a gente gargalhou
do final daquela piada mais sem graça impossível.
― Eu tenho uma! Eu tenho uma! ― Berrei, aos risos.
Ele me olhou atentamente, esperando a piada, enquanto tentava parar de
rir da que ele havia contado.
― O que é um pontinho branco do meio da grama? ― Perguntei, prendendo o
riso.
― Hum... Não sei!
― Uma formiga no réveillon!
Nós dois nos olhamos, prendemos a risada e então ela começou a sair pelos
nossos narizes. De repente, soltamos uma gargalhada estrondosa.
Ficamos um tempão rindo. E mais a tarde inteira. Na verdade, nós viramos
a madrugada rindo. Eu não consigo me lembrar de nenhum momento onde eu fui mais
feliz.



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