sábado, 16 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 33


Diário da Ana
12 de fevereiro de 2013, quarta-feira


Passei como um fucarão pelos corredores do hotel, até estacionar bem em frente a porta do quarto da Amanda, o lobo com pele de cordeiro.
Bati na porta dez vezes seguidas, completamente impaciente e revoltada. Antes dela aparecer, respirei fundo, contei até um milhão e esfreguei a minha cara. Eu precisava aparentar tranquila, otária e palhaça, exatamente como eu era, antes de saber quem ela era de verdade.
Depois do que pareceram anos, a Amanda abriu a porta, toda sorridente e... linda. Argh.
Ela vestia um baby doll curtíssimo (como eu não reparei que ela era, na verdade, uma tremenda de uma vaca?) e uma pandufa de oncinha. Seus longos cabelos castanhos cacheados estavam presos em um coque e seus cílios estavam mais pretos, grandes e grossos do que nunca. Por que ela teve que nascer com um olhar tão marcante?
― Amanda! ― Exclamei, com a minha voz mais agradável.
― Fofa! ― Falou ela, esbanjando os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados ― Entre!
Lancei-lhe um sorriso amarelo e entrei.
A minha ficha ainda não havia caído. Eu a considerava bem mais que uma amiga, uma irmã. A Amanda tinha me enganado direitinho. Para mim, ela era um doce, uma fofa que fazia tudo o que eu pedia, como um cachorrinho obediente. Não que eu a considerasse o meu capacho, não é isso. É que, bem, ela sempre fazia de tudo para me agradar e, segundo ela, nós éramos melhores amigas.
Por qual motivo ela faria uma coisa dessas comigo? Não entregar o CD para o Niall foi jogo sujo.
― Algum problema, querida? ― Perguntou ela, enquanto passava um creme hidradante em sua impecável pele morena.
Respirei fundo e disse que sim, a olhando bem séria.
Ai, ai, ai. Como eu a acusaria de uma coisa que eu nem tenho certeza que ela fez (na verdade eu tenho sim!)? Eu não queria parecer grosseira e ao mesmo tempo queria, para ela se enxergar. Mas aí eu estaria me rebaixando ao seu nível.
― E então, qual é o problema, meu amor? ― Disse ela, me olhando atentamente.
― O problema? ― A olhei com a minha melhor cara de sínica ― O problema é você, meu amor.
Eu odiava com todas as minhas forças possíveis a mania irritante dela de, sempre ao final das frases, falar alguma palavra carinhosa para a pessoa. "Claro, meu amor", "Oh, sim, minha flor",  "Ah, não, querida", "Isso é sério, coração?". Nunca admiti isso para mim mesma por pura pena dela, já que ela era tão legal e boa comigo.
― Eu? ― Espantou-se ela, boquiaberta (exatamente como as barbies dos filmes).
E mais uma vez eu me pergunto: como eu não pude reparar que, ao invés de cordeiro, era ela um lobo? Aliás, uma víbora?
― Amanda, por favor, não se finja de desentendida. ― Cruzei os braços ― Bem, pelo menos não na minha frente.
Ela franziu a testa e disse que não estava entendendo aonde eu queria chegar.
― Olha aqui, para a sua informação, eu já sei que você não mostrou o CD para o Niall.
― Mas é claro que eu mostrei, princesa! ― Ela riu e eu quis dar um tapa bem na sua cara ― Daonde você tirou essa ideia?
― Do próprio Niall.
Ela pareceu chocada e ao mesmo tempo com raiva (por mais que ela estivesse tentando disfarçar, eu percebi).
― Vocês... se acertaram?
O que ela quis dizer com isso? Você entendeu, Diário?
― Amanda, por favor, me dê o CD que eu te entreguei. Os dois, né? Já que você não entregou para o Niall o dele. ― Falei, ignorando a sua pergunta.
― Eu não vou te entregar CD nenhum, garota. Ficou maluca? ― Ela falou de repente, totalmente irreconhecível.
Por mais que eu já soubesse que a sua doçura era só de fachada, foi estranho vê-la daquele modo tão arrogante e agressivo, ao qual eu não estava acostumada.
― O quê?! ― Perguntei, completamente indignada.
Quem ela pensa que é? O CD é meu. E foi exatamente isso que eu disse para ela.
― Era seu. ― Falou ela, faiscando ódio pelos olhos ― Agora ele é meu.
Fiquei completamente sem palavras, apenas comecei a dizer coisas do tipo: "Não! Nada disso! Ele é meu!" - como aquelas típicas respostas que as criancinhas dão em suas brigas com a coleguinha.
Eu não havia tido muitas brigas, então sempre quando eu precisava retrucar de forma imediata e a altura, as palavras acabavam fugindo da minha boca. E mais tarde, em casa, sempre vinha em minha mente uma resposta perfeita. E dessa vez não foi diferente.
Agora, escrevendo aqui em você, Diário, eu pensei em uma coisa maravilhosa que eu poderia ter dito para a Amanda naquela hora. Mas deixa pra lá, já passou.
― Escuta aqui, Ana, você se acha muito esperta, não é? ― Dizia ela, apontando o dedo indicador para mim (praticamente o esfregando na minha cara) ― Mas eu posso te garantir que eu sou muito mais.
As palavras da Amanda estavam rodando em minha mente. Eu não conseguia processá-las direito.
Ela simplesmente estava irreconhecível da Amanda de alguns minutos atrás. Será que alguém a raptou e colocou essa sósia para interpretá-la? É sério, Diário. Se você a conhecesse pessoalmente me entederia.
― Amanda, me dá o CD agora. ― Ordenei, bem séria.
Ela suspirou, abertou os lábios e me estendeu o CD.
― Tudo bem, você venceu. O que eu tinha que fazer com ele eu já fiz.
De repente eu fiquei estática. O que ela tinha feito com a minha música?
― O que você fez com o meu CD, Amanda?
Ela começou a rir debochadamente.
― Você é tão esperta, já deveria ter descoberto.
Resolvi acreditar que ela não tinha feito nada e só estava falando aquilo para me botar medo. Eu não queria dar mais esse gostinho para a Amanda.
Eu então puxei o CD da mão dela e saí daquele quarto à passos de elefante.
Assim que cheguei no meu quarto, o meu primeiro impulso foi ligar para o Niall e contar absolutamente tudo para ele. Contar que a sua amiguinha doce e frágil não era nada daquilo. Porém achei melhor deixar aquilo para outro dia, quando a minha cabeça estiver esfriado.
A Samanta ainda não havia chegado do seu encontro com a Danielle (pois é, Diário! E nem me pergunte como elas ficaram tão próximas nesses últimos dois dias que se passaram, porque eu não sei a resposta. Já eu, a Danielle parece detestar - eu acho que ela tem um pouco de ciúmes de mim e do Liam, já que nós também nos aproximamos muito durante esse período) e por isso eu fiquei sozinha e desamparada durante muitas horas, até que o Niall me ligou.
― Niall! ― Exclamei ― Que bom que me ligou!
― Eu estava aqui pensando em você... e então decidi te ligar, para ouvir a sua voz. ― Falou ele, sendo extremamente, completamente, profundamente fofo.
― Eu já estava sentindo a sua falta... ― Falei ― Por que não vem aqui?
― Ok! Eu chego aí em vinte minutos, tudo bem? Um beijo grande!
E então ele desligou e eu fiquei pensando no quanto eu era sortuda, até que ele chegou.
Ele estava vestindo uma bermuda, uma camiseta sem mangas e um boné para trás. A cara dele.
Enquanto ele falava qualquer coisa, eu só conseguia reparar em sua beleza interior e exterior. Tudo nele era lindo. Os olhos grandes, redondos e bem azuis. A pele branca e macia. Os sinais no pescoço. Os cabelos louros, agora um pouco escondidos debaixo do boné. As orelhas engraçadas. Os dentes agora perfeitamente alinhados e brancos. O nariz. Os lábios. Tudo. E de pensar que, agora, eu poderia ter tudo aquilo só para mim.
Há um tempo atrás, quando ainda estava no Rio de Janeiro, essa realidade paracia tão distante para mim. As pessoas falavam tanto que eu estava sonhando alto, que eu nunca iria conseguir, que, com o tempo, eu acabei acreditando um pouco nelas. Porém no fundo, eu sempre tive esperanças. E lá estava eu, cara a cara com o amor da minha vida, que também é apaixonado por mim. Infelizmente só não sei se ele me ama... talvez não. Ainda é muito cedo para saber. Mas no dia em que ele me disser que me ama, eu serei a garota mais feliz do Universo. Disso eu posso ter certeza.
Ficamos um tempo conversando, até que nós começamos a contar piadas sem graça um para o outro. Eu ria só porque estou boba de paixão. Mas se fosse a Samanta me contando aquelas piadas, eu no mínimo a mandaria calar a boca. Porém... bem, era o Niall. Cá entre nós, é meio impossível não rir das coisas que ele diz, por mais bobas que pareçam ser.
― Dois sapos estavam voando. ― Ele começou a contar a piada, já morrendo de rir ― Aí, de repente, um olha para o outro e diz: "Ei! Sapo não voa!"
Eu, que já estava gargalhando, ri ainda mais.
Eu acho que nós estávamos meio bêbados.
― Aí o outro diz: "É mesmo". ― Ele parou um instante, sem forças para continuar, por estar rindo muito ― E então eles começam a cair. Mas no meio da queda, o outro sapo diz: "Peraí! Sapo não fala!".


Eu simplesmente chorei de rir. Eu queria que você estivesse lá, Diário, só para ver que eu não estou mentindo ou exagerando demais.
― O outro sapo diz: "É mesmo". E então eles continuam voando.
Nós dois nos contorcemos de dor, de tanto que a gente gargalhou do final daquela piada mais sem graça impossível.
― Eu tenho uma! Eu tenho uma! ― Berrei, aos risos.
Ele me olhou atentamente, esperando a piada, enquanto tentava parar de rir da que ele havia contado.
― O que é um pontinho branco do meio da grama? ― Perguntei, prendendo o riso.
― Hum... Não sei!
― Uma formiga no réveillon!
Nós dois nos olhamos, prendemos a risada e então ela começou a sair pelos nossos narizes. De repente, soltamos uma gargalhada estrondosa.


Ficamos um tempão rindo. E mais a tarde inteira. Na verdade, nós viramos a madrugada rindo. Eu não consigo me lembrar de nenhum momento onde eu fui mais feliz.

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