Diário da Samanta
10 de fevereiro de 2013, segunda-feira
Harry havia acabado de me beijar. Me beijar pela primeira vez. Tinha acabado de me dar o meu primeiro beijo. Eu não sabia como reagir à aquilo, fiquei totalmente paralisada e perplexa. Ele me olhava atencioso, esperando alguma reação minha, ainda ofegante. Eu o olhava confusa e sem reação. Eu não planejava aquilo. Sempre sonhei em ter o meu primeiro beijo com quem eu amo. Eu amo Harry, mas aquele não era o momento certo, o lugar certo, a hora certa. Não sei se era culpa dele. Talvez, fosse minha. Eu ainda estava balançada com alguns pensamentos e pressentimentos ruins, não podia evitar me sentir mal. De repente, involuntariamente, meus olhos começaram a lacrimejar e lágrimas escaparam deles, o que fez Harry ficar totalmente desolado, me olhando confuso.
- Samanta, eu preciso saber o que tá acontecendo. Me deixa entender tudo isso. Me deixa ficar do seu lado. – Suplicou Harry, apoiando uma de suas mãos em meu rosto e a outra, nas minhas costas.
- Você não entende mesmo, né? – Falei, me lamentando e completamente angustiada, desprendendo meu corpo do dele e correndo dali sem rumo.
Qual era o meu problema? Eu esperei por esse beijo a minha vida inteira! Essa não era a reação que eu imaginava ter. Eu me imaginava o beijando feliz, cheia de vontade, não magoada e desconfortável. Apesar de sempre ter sido espontânea, parecer segura e confiante, nunca deixei de ter as minhas dúvidas sobre si mesma. Nunca vi nada de especial em mim. Nunca parei pra perceber ou pensar em algo que eu tenha ou seja que conquistaria um garoto, uma pessoa. Sempre fui cheia de inseguranças, mesmo que calada. Por mais que Harry me mostrasse sinceridade em suas palavras e em seus olhos, eu não podia deixar de pensar que ele estava se enganando com tudo aquilo. Tenho medo de me apegar demais, criar expectativas imensas e depois, acabar de magoando cedo ou tarde. Harry é jovem, conhece milhares de meninas todos os dias, tem milhares de mulheres aos seus pés, a qualquer momento, ele pode se interessar por qualquer outra e me largar. Não que ele seja insensível assim, mas não sei o que pensar, sinceramente. No momento, eu só conseguia pensar no lado negativo de toda aquela situação, na possibilidade de eu me enganar e depois, acabar quebrando a cara e ficando machucada. Andei até um banheiro feminino que ficava em um outro corredor e me tranquei em uma das cabines. Tentava imaginar como Harry estava com aquela situação. Talvez eu devesse algumas explicações à ele. Eu estava sendo muito exigente. Queria que ele me entendesse sem ao menos, explicar o porquê de tantas dúvidas. E também, se eu não arriscasse, talvez nunca perdesse o medo de ser rejeitada e nunca viveria o grande romance que eu tanto quero viver com ele. Afinal de contas, eu tive minha chance, tenho que pegá-la. Existem inúmeras garotas por aí que dariam tudo para estarem em meu lugar, eu não podia desperdiçar o que estava acontecendo e acabar afastando Harry de mim, mesmo sem intenção alguma de fazer isso. Parece que eu sempre percebo o certo a se fazer depois que o estrago foi feito. Que coisa! Passei mais algum tempo lá, sentada e presa nos pensamentos, nas possibilidades. Decidi sair da cabine e enxaguei meu rosto na pia, me olhando no espelho e me encorajando para dar a volta por cima. Peguei alguns papéis toalha e enxuguei toda aquela água, respirando fundo e ganhando coragem. Eu não iria ensaiar nenhuma fala, criar nenhum tipo de roteiro para falar o que queria. Pelo menos uma vez na vida, ia dizer tudo que eu penso para ele, sem nenhum receio e nenhum medo de mostrar o que eu sinto. Saí do banheiro e fui andando pelos corredores, voltando para o meu lugar na plateia, querendo conversar com Ana. Chegando lá, percebi que ela não estava mais onde a deixei quando saí correndo, desamparada. Cocei minha cabeça e olhei em volta. Percebi que os fãs saíam de pouco em pouco do parque. O show havia acabado. Uma mulher da produção veio em minha direção, perguntando como eu me chamava. Disse que o meu nome era Samanta e ela disse para eu acompanhá-la, pois Liam estava me procurando. Suspirei aliviada e assenti com a cabeça, seguindo-a. Fomos para os bastidores e ela me levou até uma porta onde havia uma placa escrito: “CAMARIM - ONE DIRECTION”. Respirei fundo, agradeci e abri a porta. Encontrei Louis e Zayn em pé, se olhando no espelho e abotoando suas camisetas, Liam colocando algumas coisas em sua mochila e Ana e Niall em pé, um em frente ao outro, se beijando. Parei ali mesmo e fiquei vendo tudo aquilo, sem entender absolutamente nada. Há um minuto atrás estavam se evitando e agora, já estão nesse clima apaixonado? Nossa! Fico feliz por Ana, finalmente ela se resolveu com o Niall. Ver ela sorrindo, feliz e satisfeita era realmente ótimo! Ela é a minha melhor amiga, a felicidade dela também é a minha. Quando eles terminaram de se beijar, todos da sala bateram palmas e disseram em um grande couro: “Own!”, inclusive eu. Começamos a rir todos juntos e fui vendo a reação de cada um, até que finalmente meus olhos acharam Harry. Harry me olhou, tirou seu sorriso do rosto e o meu sorriso foi sumindo aos poucos também. Continuei o olhando e ele, por sua vez, me lançou um sorriso fechado sem graça, como se não me conhecesse, virando para o espelho e vestindo sua camisa preta, abotoando os botões em frente ao espelho e em seguida, colocando seu blazer que estava pendurado nas costas de uma das cadeiras.
Não o culpo por ter agido daquela forma, afinal, há pouco tempo atrás, eu havia acabado de o tratar com indiferença quando tudo que ele tentou fazer era com as melhores intenções possíveis. Mas eu ia resolver as coisas, só estava esperando o momento certo.Não podia deixar aquilo como estava. Louis nos informou que iríamos à uma sessão de autógrafos e todos nós nos dirigimos até um grande carro preto, que nos aguardava atrás do parque, rodeado de seguranças. No caminho todo, Ana conversava feliz com os meninos, rindo e se divertindo. De vez em quando me olhavam e eu sorria para pensarem que estava fazendo parte de tudo aquilo, mas na verdade, só conseguia reparar em Harry, que estava com a cabeça encostada no banco, encostado na parede do carro e olhando para o vago. A cada minuto passado, me sentia mal por vê-lo daquele jeito. As palavras estavam presas na minha garganta, loucas para saírem, mas ainda não era o momento. Não ali, perto de todos eles. No carro, haviam 4 bancos de um lado e 4 bancos em frente. Eu estava sentada com Liam, Louis e Zayn. Zayn estava na ponta, eu do seu lado, Louis do meu e Liam do lado de Louis. Nos outros bancos, obviamente, estavam Harry, Ana e Niall. Ana estava na ponta, Niall do seu lado e depois, Harry.
- Que foi, cara? Já tá cansado? – Perguntou Niall, percebendo que Harry estava calado e longe daquelas conversas.
- Trate de acordar! Temos uma noite longa pela frente. – Louis bateu no joelho de Harry, querendo irritar ele.
Harry soltou uma riso nasal, completamente sem sal, e voltou seu olhar para a janela. Decidi parar de reparar naquilo, para não ficar me condenando, e comecei a interagir com os meninos e Ana até chegarmos no local da sessão de autógrafos. Quando finalmente chegamos, haviam muitos fãs em volta do carro, batendo nos vidros e suplicando por fotos. Demorou uns 15 minutos para os seguranças conseguirem controlar a multidão e finalmente, saímos do carro, um de cada vez. A cada vez que um dos meninos saíam, os fãs berravam e choravam mais ainda, tentando tocar neles. Primeiro saiu o Niall de mãos dadas com a Ana, depois saiu Zayn, depois Louis e depois Liam. Ficamos eu e Harry no carro, naquele silêncio de matar qualquer um, que já estava me matando. Harry saiu do carro e me deixou para trás. Nem sequer me olhou ou me chamou. Aquilo estava me matando aos poucos. Logo depois, saí também, o seguindo. Todos nós fomos para uma mesa imensa, onde tinham 5 cadeiras para os meninos. Eu e Ana sentamos em um sofá que havia perto. Essa área era dividida por uma grade de onde estavam os fãs, formando uma enorme fila para receberem seus autógrafos, que estavam sendo vigiadas por enormes seguranças de terno preto. Quando a sessão se iniciou, Ana e eu começamos a conversar.
- Finalmente você decidiu tirar à limpo aquela história com o Niall! Viu só? Agora são namorado e namorada! – Falei, alegre pelos dois, mas ao mesmo tempo, sentindo uma ansiedade ruim para falar com Harry.
- Será que somos mesmo?! – Perguntou Ana, empolgada e segurando a minha mão, boquiaberta.
- Depois daquele beijo, são praticamente casados! – Brinquei, a fazendo rir de tanta felicidade.
- E pelo visto, você e o Harry não fizeram o mesmo, né? – Ana fez expressão de lamentada, segurando minha mão.
- Não se preocupa, Ana, nós vamos fazer o mesmo! – A tranquilizei, já que Ana ficava triste por me ver daquele jeito.
Na verdade, nem tinha certeza do que havia acabado de dizer. Depois de ter agido daquela forma e ter feito o que fiz, talvez nunca mais tivesse chance nenhuma com o Harry. Ana sorriu e eu retribuí com um sorriso forçado. Fiquei observando os meninos. Todos eles estavam felizes e tratavam as fãs super bem. Uma por uma ia, abraçava eles, pedia o autógrafo e dizia o quanto os amava. Algumas, choravam demais. Uma delas, quando estava frente a frente com o Harry, ajoelhou no chão e começou a chorar desesperadamente. Harry não sabia o que fazer, apenas pedia que ela parasse de chorar e desse um sorriso.
Era engraçado pensar que há algum tempo atrás, eu faria a mesma coisa se o conhecesse, mas agora, por mais que seja incrivelmente estranho, eu tinha acabado de receber um beijo dele e de certa forma, recusado. Eu o via abraçando as fãs e lembrava de como era surpreendentemente bom ficar dentro de seus braços, sentindo seu calor, seu cheiro e seu abraço.
Ao mesmo tempo, rezava para que pudesse ter essa oportunidade uma outra vez. Mais ou menos uma hora e meia depois, a sessão de autógrafos terminou, os meninos se despediram das fãs pelo microfone e fomos para uma sala, onde haviam comidas e bebidas. Não conseguia desgrudar meus olhos de Harry, estava pronta para lhe falar tudo o que achava e sentia. Ele estava conversando com Louis, mas mesmo assim, me aproximei. Harry estava assobiando, pegando uma bebida na mesa e quando se deparou comigo perto dele, o olhando abatida, ficou parado e sem reação, me encarando.
- Harry, será que podemos conversar? – Perguntei, séria e aflita.
- Mas é claro que podemos, meu amor! Aliás, não precisamos conversar, podemos só nos beijar mesmo! – Louis atrapalhou, mexendo na boca de Harry e fingindo que sua voz era a dele.
Harry o empurrou, dando um riso rápido e logo ficou sério novamente, balançando a cabeça em minha direção. Peguei sua mão e saímos daquela sala, indo para outra qualquer que encontramos no mesmo corredor. Era bem pequena, era um quartinho onde se guardavam materiais de limpeza, baldes, vassouras e coisas do tipo. Tranquei a porta, respirei fundo e me virei para Harry, que estava encostado na parede, de braços cruzados e olhando para baixo.
- Antes de tudo, eu quero pedir desculpa por ter agido dessa maneira por todos esses dias, Harry. – Comecei, o olhando e tentando me redimir. – Você tem todo o direito de me tratar dessa forma, já que eu te tratei assim por motivo algum.
Harry continuava de cabeça baixa, olhando fixo para o chão, parecia que não dava a mínima pra o que eu dizia.
- Você quer olhar pra mim? – Indaguei, completamente desestimulada com a reação dele ao o que eu dizia.
- Sinceramente? Não, não quero. – Respondeu Harry, me olhando indiferente e seco. Minha vontade era de sair correndo e não falar mais absolutamente nada, mas eu sabia que não era mais hora para fugir, e sim, de resolver tudo de uma vez por todas.
- Sinto muito, mas vai olhar mesmo assim. – Me aproximei dele e o olhei nos olhos, apoiando minhas mãos em seu rosto, o direcionando para o meu.
– Eu preciso te dizer como eu estou me sentindo sobre isso, Harry.
- Samanta, eu cheguei à um ponto de nem querer mais saber. – Harry tirou minhas mãos de seu rosto. - Eu to cansado desses seus joguinhos, tá legal? Eu percebi que eu estou fazendo papel de palhaço, e eu não vou mais fazer isso. – Ele concluiu, andando em direção à porta e esticando sua mão para abrir a maçaneta.
- E eu percebi que eu não te tratei do jeito que eu deveria. – Falei, abrindo o meu peito e reconhecendo todos os meus erros, fazendo Harry permanecer em frente à porta, parado e de costas para mim. – Eu fiz uma confusão com coisas só minhas e acabei descontando tudo em você, mas eu quero que você saiba que essa não foi minha intenção, desde o início. – Harry virou para mim, atento e ainda sério feito uma pedra. – Eu sempre entendi, desde o começo, o que você significa pra mim. E quando você se vai... Eu começo a entender ainda mais. – Desabafei, olhando para baixo e abaixando meu tom. O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos. Quando voltei meus olhos para Harry, ele me olhava fixamente, depositava toda sua atenção em mim.
Não conseguia decifrar o que aquele olhar e aquele pequeno sorriso fechado queria dizer. Não sabia se ele estava sorrindo de deboche das minhas palavras ou se estava feliz com o que tinha acabado de escutar. Esperei mais alguns segundos para esperar por alguma reação da parte dele, mas ele não se manifestou nenhuma vez. Permaneceu daquele jeito até eu decidir falar alguma coisa.
- Eu só queria deixar isso bem claro. – Concluí, já sem esperanças e pronta para o pior.
- Era só isso? – Harry me perguntou, frio como gelo.
- Era. – Respondi, o olhando e decepcionada com o jeito que ele havia reagido à tudo aquilo.
De repente, Harry desviou seu olhar, sério, e rapidamente, o voltou para mim, deixando um sorriso escapar.
- E era só isso que eu precisava ouvir. – Ele falou, vindo em minha direção e me levantando, com seus braços em volta da minha cintura, me abraçando. Envolvei meus braços em volta de seu pescoço e o beijei. O beijei como se nunca mais fosse o ver novamente. O beijei como se não houvesse amanhã. O beijei feliz, cheia de vontade, como devia ter sido desde o início.









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