sábado, 9 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 25

Diário da Ana
01 de fevereiro de 2013, sábado



O Liam nos olhou meio atordoado e disse que iria procurar a Danielle, para nos deixar a vontade. Puxei-o pelo punho com força e pedi para que ele ficasse.
― Com licença. ― Falou o Niall, em um tom áspero e meio impaciente, passando por mim brutalmente.
Antes que ele pudesse se afastar, o Liam o puxou.
― Niall. ― Disse ele, bastante sério e com o olhar cravado no Niall, como se estivesse querendo dizer algo para ele. 
O Niall bufou, cruzou os braços e ficou me olhando, sem nenhuma expressão.
Liam sussurrou algo em seu ouvido, ao que ele assentiu.
― Ana, me desculpe pelo Niall, ele não está se sentindo bem... ― Disse Liam em um tom solidário, com a mão pousada no meu ombro ― Bom, vou deixar vocês sozinhos, para ficarem mais à vontade. Qualquer coisa eu vou estar na varanda, tudo bem?
Fiz que sim com a cabeça e então ele se foi, misturando-se com a multidão.
― Niall ― decidi dizer, para quebrar o silêncio entre nós ―, por que está me tratando desse jeito? O que foi que eu fiz?
Eu estava tão abalada que por pouco eu não comecei a chorar. Ver o Niall ali, bem na minha frente, me olhando como se não me conhecesse, doeu. Eu só queria que ele percebesse que eu o amo mais que tudo nessa vida, que sem ele nada faria mais sentido.
― Ana, eu...
― Eu o quê? ― O interrompi ― "Eu estou te tratando normal"? É isso que você ia dizer? Se sim, vou logo te responder, para poupar sua saliva. Não, não está. Está me tratando indiferente, como se não me conhecesse. Por que, Niall? Por quê?
De repente, quando dei por mim, algumas lágrimas estavam descendo. Enxuguei-as rapidamente, para não ficar por baixo. Não queria que o Niall me visse como uma garota frágil e indefesa, a qual ele pode brincar e depois jogar fora quando se cansar. Eu não sou  descartável. 
― Ana, eu não quero falar sobre isso. ― Ele disse simplesmente ― Se não percebeu, você está me atrapalhando.
― O quê? ― Eu falei mais para mim do que pra ele, completamente perplexa.
O que antes eu temia, agora eu não estava nem mais me importando. Me virei pisando firme e, antes de chegar em algum lugar mais vazio, desabei em lágrimas. 
Bem que a Juliana dizia. Bem que o Arthur, o Gabriel, a minha mãe, todos diziam. A fama sobe a cabeça dos artistas e arrancam o coração deles. Eles são frios, metidos, olham com indiferença para os pobres miseráveis comuns. Ainda mais uma brasileira qualquer, bicho do mato que se pendura em árvores e come mosquito. Bem, certamente é essa a imagem que os estrangeiros tem de nós, brasileiros. 
Eu estava com nojo do Niall. Eu nunca havia me decepcionado tanto com alguém. Nunca. De pensar que, para mim, ele era fofo, gentil, diferente das outras celebridades... Pff, engano meu. Se ele não for igual, ele é até pior. 
Minha vontade era de desaparecer para nunca mais voltar. Eu não queria nem imaginar os olhares de pena que me lançariam quando eu contasse a maneira que o Niall me tratou. Eu já estava com pena de mim mesma o suficiente, não precisava de mais consolo. Eu poderia me consolar muito bem sozinha.
Fiquei andando pela festa, sem rumo algum, esbarrando em todas as pessoas que passavam por mim. A fumaça, as luzes terrivelmente fortes, o som quase estourando e o fedor de suor estavam me fazendo passar mal. E eu pensando que a minha situação não poderia ficar pior.
De repente, eu paralisei. 
Bem em minha frente estava o Niall, com um cupcake em mãos, rindo à beça com uma vaca de longos cabelos louros falsos e extremamente lisos, que mais pareciam lambidos por um boi. Morri de ciúmes e pena de mim. Enquanto eu estava lá, chorando feito uma condenada, ele estava rindo e se divertindo com uma qualquer? Eu não merecia isso.
E quando eu achava que aquilo não poderia piorar, piorou. 
O Niall colocou um pouco do glacê do cupcake na ponta de seu nariz e começou a gargalhar. Logo se passou pela minha cabeça que ele poderia estar bêbado. 
Até que, de repente, a garota se aproximou e simplesmente lambeu o glacê do nariz do Niall.


Uns oito segundos depois, após ter rido bastante, ele se virou para ir buscar alguma coisa e se deparou comigo, feito uma palhaça em prantos, olhando aquela cena patética.
Ele então me lançou um olhar de pena, parecendo estar completamente constrangido. 
Foi aí que eu percebi que ele não estava bêbado. Muito pelo contrário, estava mais lúcido do que nunca.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, saí correndo pela festa, batendo em todo mundo sem pedir licença, chorando feito uma coitada. Até que eu encontrei uma varanda vazia, pouco iluminada e silenciosa. Me sentei em um sofá pequeno branco e fiquei olhando para a imensidão de estrelas lá no céu, me sentindo pequena e insignificante, o que me fez chorar ainda mais.
Perdida em meus pensamentos, senti alguém me tocar. Virei depressa, um pouco assustada, e vi que era só a Amanda. Bem lá no fundo, eu tinha a esperança de que fosse o Niall, querendo me pedir desculpas por tudo, como os mocinhos dos filmes faziam. Mas esse era o problema: ele não era o mocinho. Ele era o vilão.
― O que foi, Aninha? ― Falou a Amanda, se sentando ao meu lado.
― Nada, não... É só saudades do Brasil mesmo. ― Respondi, completamente seca ― É uma pena que eu só volte dia 2 de março.
Ela franziu a testa.
― Uma pena? Achei que você estivesse gostando aqui... Os meninos te adoram... Bem, quer dizer...
De repente a Amanda parou de falar, parecendo um pouco sem graça de ter começado aquela frase.
― Quer dizer o quê? ― Perguntei depressa, já sentindo as lágrimas aflorarem.
― Ai, Ana, não é nada... É besteira minha. Que tal tomarmos um drinque?
Aquilo estava ficando cada vez mais estranho... Por que a Amanda mudaria de assunto tão brutalmente se o que ela tinha para me falar não fosse tão sério?
― Agora você vai ter que me falar, Amanda. ― Disse com firmeza ― Quer dizer o quê?
Ela pareceu meio indecisa, respirou fundo e abriu a boca, provavelmente decidida a me contar tudo.
― Olha, Ana, não quero que me ache uma fofoqueira, uma estraga prazeres. Você sabe que eu sou sua amiga e que nunca faria nada para o seu mal, não é? Eu só não quero que você seja feita de boba.
Eu estava ficando cada vez mais incrédula e impaciente. Por que a Amanda não falava de uma vez por todas? 
― Amanda, eu sei de tudo isso. Nesses últimos dias você se mostrou uma verdadeira irmã para mim. Eu nunca ficaria com raiva de você. Agora, por favor, conta logo, já estou ficando impaciente.
Ela respirou fundo mais uma vez e continuou.
― Olha, Ana, desde que você conheceu o Niall, ele tem me contado coisas estranhas a seu respeito...
Meu coração começou a palpitar trilhões de vezes mais rápido.
― Que coisas estranhas, Amanda? Pelo amor, fala logo!
― Ele disse... Bem, ele tem me dito que você é muito... como eu posso dizer? É muito... hum... atrevida.
Eu tinha certeza absoluta de que "atrevida" não foi bem a palavra que o Niall disse sobre mim. A Amanda só estava querendo amenizar as coisas.
― Amanda, por favor, fala a verdade. Eu sei muito bem que o Niall não me chamou apenas de atrevida e sim de coisa muito pior. Só me responda duas coisas: do que mais ele me chamou e quando ele começou a me chamar dessas coisas?
― Olha, Ana, como eu disse antes, eu não quero que você seja feita de boba. Eu tenho um carinho enorme por você e realmente te considero a minha melhor amiga. Eu nunca tinha encontrado alguém com gostos e opiniões tão parecidas com as minhas.
Eu comecei a chorar, já esperando pelo pior.
― Por favor, Amanda, eu imploro, fala logo! Eu já estou ficando apavorada!
― O Niall, Ana. O Niall tem te feito de boba. Desde que vocês se conheceram, ele só tem falado mal de você para mim. E só continua andando com você por pena. Você sabe, o Niall é meio sem jeito, ele não sabe como te dizer essas coisas que eu estou te dizendo agora. Ele diz que você é fútil, só pensa em fama e só sabe conversar com ele sobre assuntos banais. Ele pensa que você é uma interesseira.
― Chega! ― Eu gritei, aos prantos ― Eu já ouvi demais!
Saí andando com passos firmes até a sala de estar, procurando pelo Niall. Até que eu o encontrei. Por mais que eu estivesse chorando feito uma louca, não me importei naquela hora, apenas o olhei bem profundamente, quase o fuzilando com os olhos, e disse:
― Eu nunca mais quero ver você na minha vida. E, ah, faça bom proveito dessazinha aí que você arranjou, pois logo, logo ela vai te dispensar. Ninguém é capaz de suportar muito tempo ao seu lado. 
E então eu fui embora daquele apartamento, deixando para trás o meu sonho.


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