segunda-feira, 29 de abril de 2013

CAPÍTULO 50

Diário da Samanta
07 de março de 2013, sábado


                                                



Não senti nada ao beijar John. Era como se eu estivesse beijando uma parede. Meu coração não disparou, não senti aquele típico frio na barriga e muito menos soei frio. Na verdade, estava muito desconfortável com a situação toda. Enquanto o beijava, se passavam mil e um pensamentos na minha cabeça. Durante um tempo, até abri os olhos. Não era justo ficar ali correspondendo aquele beijo. John realmente gosta de mim, sente algo por mim. Eu não podia fingir que sinto o mesmo e continuar fazendo aquilo. Precisava, urgentemente, colocar um ponto final naquilo.

- John, por favor... – Sussurrei, meio abatida, logo após ter o afastado de perto de mim.

John me olhava, parado e em silêncio. Eu também olhava em seus olhos, aflita e pensativa com tudo que tinha acontecido. Pelo o meu olhar e minha expressão facial, ele já devia ter entendido tudo o que eu queria dizer. Talvez eu tenha dado muitos sinais para ele de que talvez, sentisse o mesmo que ele sente por mim. Sinais esses, muito errados. John era um ótimo garoto, respeitador e muito divertido, mas era impossível o olhar com outros olhos, além dos de amizade. Juro que queria poder dizer que estou apaixonada por ele e poder recomeçar com outro alguém, mas se fizesse isso, estaria mentindo para mim mesma.

- Não vai dizer nada? – John perguntou, quebrando o silêncio. Ele parecia desanimado.
- Isso não devia ter acontecido, John... Não faz sentido. – Comecei, muito confusa. – Nós somos amigos. Você não sabe como eu queria te corresponder e continuar esse beijo, mas querer não é poder... Você é tão especial para mim, John. – Desabafei, olhando para baixo. – Eu só não quero perder ou estragar essa amizade.
- Samanta, eu vejo nos seus olhos que você ainda gosta dele. Isso é mais que óbvio. - John segurou as minhas duas mãos, me olhando profundamente nos olhos. – Mas se você pelo menos me desse essa chance... Deixa eu te mostrar que eu sou melhor que ele, que eu posso te tratar do jeito que ele não foi capaz.
- Não é tão simples assim. – Lamentei, querendo chorar. – Certas coisas levam tempo, John. Elas não desaparecem tão rápido! Não é opção minha, não sou eu que faço as regras! É o destino! A vida! – Deixei as lágrimas escaparem, totalmente acabada.
- Eu sinceramente não compreendo, Samanta! – John se afastou, colocando as mãos na cabeça e olhando para cima, desentendido. – Não é ele que está aqui dizendo o quanto você é importante pra ele. Não é ele que veio até o Brasil te procurar! Não é ele que pensa em você todas as noites. Não é ele, Samanta. – John pousou suas mãos no meu rosto. - Sou eu.
- Você não pode me forçar a nada. E, muito menos, ficar jogando tudo isso na minha cara. Você não sabe o que se passa na cabeça dele! Nem na minha!
- Posso não saber, mas eu não sou tão estúpido ao ponto de não ver o quanto ele te faz mal, mesmo estando longe. – Ele parecia indignado.
- John, por favor, vai embora. Eu não quero ouvir mais nada! – Estava cansada daquela conversa, meu coração estava partido.
- É isso mesmo que você quer? – John me olhou, parecendo lançar um ultimato.
- É. É isso que eu quero.

Assim que ouviu o que eu disse, John balançou a cabeça lentamente e deu um sorriso desanimado, sem vida. Foi andando levemente para trás, ainda me olhando nos olhos. Finalmente, ele virou e foi embora, abrindo a porta da casa e sumindo. Foi difícil ver aquela cena, ver ele sair daquele jeito, decepcionado. Eu não queria magoar John, não queria de jeito nenhum! Eu só acho que ele não tinha o direito de ficar me dizendo tudo aquilo, como se soubesse de tudo. Se eu sofro por alguém que não me ama, o problema é meu, não dele! Se eu não signifiquei para o Harry o que ele significou para mim, não é da conta dele. Ele não percebia, achava que estava me ajudando e me convencendo, mas na verdade, estava acabando comigo. Além do mais, ele não pode me culpar por eu não sentir o mesmo por ele! Queria eu poder escolher e colocar os meus sentimentos em ordem. Ultimamente, essa tem sido uma tarefa bem difícil. Enxuguei as minhas lágrimas e olhei em volta, nenhum sinal de Juliana, Arthur, Gabriel, Ana ou alguém que eu conhecesse. Decidi procurar o banheiro mais próximo. Depois de andar um pouco, achei. Entrei e me olhei no espelho. Como suspeitava, a minha maquiagem estava completamente destruída e borrada. Limpei o meu rosto com papel toalha e água. Naquele momento, John devia estar pegando um táxi e voltando para o hotel. Droga. Por que não podíamos apenas nos divertir essa noite? Por que tinha que acontecer essa confusão, essa briga? Ambos tocamos em pontos muito fracos um do outro, não fomos justos consigo mesmos. Talvez, depois daquilo, ele nunca mais quisesse me ver. Não consigo suportar essa ideia, é horrível pensar nessa possibilidade! Nesse tempo, John se tornou quase um irmão para mim, um confidente, amigo, companheiro. Apesar de não querer estragar a nossa amizade, acabei fazendo isso sem nem me dar conta, sem nem perceber. Pelo jeito, eu sou mesmo intragável, todos querem se afastar de mim. Eu faço todos que amo irem para longe, de um jeito ou de outro. O problema, esse tempo todo, tem sido eu. Eu mesma, e nunca consegui ver isso. Se não tivesse escondido e omitido parte da minha vida para Harry, poderíamos estar juntos até hoje, não necessariamente eu estando lá com ele, mas juntos no sentido de termos um relacionamento, de eu poder chamá-lo de namorado e ele me chamar de namorada. Se eu não tivesse jogado as passagens de volta para o Rio na privada, lá em Londres, talvez teria poupado toda dor que sinto e Harry ainda quisesse me procurar, ainda pensasse em mim. Se eu parece de ser tão orgulhosa e egoísta, talvez Harry não teria se cansado de mim. Talvez se eu fosse menos impulsiva e boba, John ainda estaria ali na sala, dançando e rindo comigo. Como sempre, eu estou chorando, me lamentando pelos meus erros. Lamentando pelo passado que eu não posso mudar.
Atrapalhando os meus pensamentos, meu celular tocou. Número desconhecido, quem seria? Será que era John me ligando de algum orelhão, querendo resolver as coisas?


- Hello? – Falei, com esperança de John responder do outro lado da linha.
- Oh, finally! I was trying to call you all day (Ah, finalmente! Eu estava tentando te ligar o dia inteiro)! – Falou uma voz feminina. Definitivamente não era John.
- Com quem estou falando? – Perguntei, não reconhecendo quem era.
- Não acredito que não se lembra da minha voz, Samanta! Sou eu, Danielle! – Respondeu a voz, me deixando surpresa.
- Danielle, que bom ouvir a sua voz! – Falei, ainda desanimada. – Me desculpa, é que eu estou meio para baixo. – Decidi admitir.
- Pra baixo? O que houve? Me conta. – Danielle disse, totalmente compreensiva e solidária.
- Acho que você deve ter noção do que seja. – Abri o jogo.
- Ah, aquilo... – Ela disse, meio triste. – Olha, Samanta, não fica assim! Eu não quero te ver desse jeito, poxa! Faz tanto tempo que não ouço a sua voz, e quando ouço, ela tá tão triste assim? Nada disso! – Danielle era uma ótima amiga.
- Você tem tido notícias dele? – Perguntei, não resistindo. Queria saber sobre ele, precisava saber como ele estava.
- Eu vi ele há três dias atrás, eu e o Liam fomos à uma boate com ele e os meninos. – Ela explicou.
- Ele arranjou alguém? – Não resisti e perguntei aquilo. Era tudo que eu mais queria saber.
- Não sei a real resposta para essa pergunta... – Ela disse, receosa.
- Como assim? – Meu coração disparou, um medo imenso tomou conta de mim.
- É que ele deixou a boate acompanhado de uma mulher loira, uma modelo aí. – Danielle estava pisando em ovos para me contar aquilo. – Mas eles não devem ter nada, devem ser apenas amigos! – Ela tentou amenizar as coisas.
- “Amigos”... – Falei, com uma dor imensa no coração. – Que bom pra ele. Fico feliz. Ele merece.
- Eu nem devia ter te respondido. Viu como você está agora? Sabia que isso aconteceria! – Ela lamentou.
- Eu estou bem, Danielle. – Forcei um leve riso. – Eu preciso desligar agora, prometo que te ligo amanhã. Estou morrendo de saudade!
- Eu também, por isso mesmo que liguei! – Ela se importava comigo. – Não vou te atrapalhar, então! Vou ficar esperando a sua ligação!
- Ok, não vou esquecer. Tchau, beijo!

Que ela possa fazer ele feliz, porque a única pessoa que podia me fazer feliz naquele momento, eu não havia dado ouvidos. Já não estava mais ao meu alcance.

CAPÍTULO 49

Diário da Ana
06 de março de 2013, sexta-feira

                                                    


Às vezes, por mais que o Sol esteja brilhando lá fora, o seu mundo parece estar completamente frio e nublado. E é mais ou menos assim como eu estou me sentindo agora. Uma nuvem negra tampou todo e qualquer brilho que pudesse vir direcionado à mim. Nem o Harry (sim, eu resolvi chamá-lo de Harry novamente) foi capaz de me consolar. Ele agora anda todo cabisbaixo pela casa por causa da minha tristeza - depois dizem que gatos não têm sentimentos. 
― Alô? ― Falei, com a voz trêmula.
― O meu celular tá aí com você? ― Gritou uma voz distante do outro lado da linha. ― Está comigo, sim! ― Respondeu uma outra voz, dessa vez parecendo estar próxima.
― Alô? ― Repeti, com o choro entalado na garganta.
― Ah, oi! Me desculpa, é que... enfim. ― Disse uma voz feminina ― É a Ana que está falando?
Eu já estava nervosa quando vi o nome dele ligando para mim, agora eu estou prestes a desmaiar. O que uma voz de mulher estaria fazendo com o celular dele? Eu quero ouvir a voz doce e linda dele agora. Quer dizer, não quero, senão vou ter recaídas. Eu preciso esquecer esse garoto de uma vez por todas. Mas e se o que ele tem pra me falar é algo positivo? E se ele quiser voltar comigo? Não, eu duvido... Eu o magoei muito.
― Sim, é ela. Quem é?
― Não está reconhecendo a voz? ― Não, não estou. Diz logo quem é! ― É a Amanda, fofinha!
Então... então a voz lá trás era a do... era a dele? O que ele está fazendo com a Amanda? E por que essa falsa dissimulada está me ligando? Estava bom demais para ser verdade. Pronto. Eu já me recaí. Voltei a estaca zero. Pensei que meu amor por ele estivesse se apagando, mas pelo visto ele só está aumentando.
As lágrimas, sem que eu percebesse, estavam rolando sem parar pelo meu rosto.
― O que está fazendo com o celular do Niall, sua nojenta? ― Falei sem nem medir as palavras.
― Calma, Ana. Tenta se acalmar, tudo bem, flor?
― Anastácia. Pra você é Anastácia. E diz logo que eu estou sem tempo.
Ouvi uma gargalhada do outro lado da linha.
― Sem tempo? Por quê? Está ocupada brincando de bonecas? Ah, me poupe, Ana. Sua vida é um completo tédio.
O André, a Beatriz e o Jota estavam todos me olhando fixamente, apreensivos e incrédulos. Eu fiz um sinal dizendo que estava tudo bem, mas eles permaneceram onde estavam e nem sequer desviaram o olhar. O André saiu andando à passos ligeiros, provavelmente indo buscar um copo d'água para mim.
― Está no telefone com quem, meu amor? ― Gritou uma voz masculina, parecendo estar distante. ― Com uma amiga minha, Niall! Um instante, ok, amor? ― Respondeu a Amanda.
O mundo, naquele exato instante, desabou. 
Eu não sabia mais distinguir os meus berros com os meus soluços, nem as minhas lágrimas com a água que estavam praticamente me forçando a tomar. Todos à minha volta estavam com expressões apavoradas, se perguntando o que haviam me dito de tão horrível. O André tomou o telefone da minha mão e começou a xingar a pessoa que estava na linha (provavelmente ainda era a Amanda - ou ninguém. Do jeito que ela é covarde deve ter desligado para se livrar do escândalo). 
Ouvir aquelas palavras saindo da boca dele... Foi como se eu tivesse levado uma facada no coração. Ele me esqueceu assim tão depressa? Será que eu não signifiquei nada pra ele? Fui apenas mais um "amor de verão"? Eu simplesmente não posso acreditar. Como doeu ter ouvido aquilo... Como doeu. Aquelas palavras ficarão presas para sempre em minha memória. Por mais que eu custe para retirá-las, é inevitável. Elas sempre voltam. E sempre vão voltar. Eu nunca mais serei feliz por inteiro. O meu sorriso nunca mais será o mesmo. Eu não serei mais a mesma. Agora eu serei feliz pela metade. Sorrirei pela metade. Viverei pela metade.
Ingenuidade minha em pensar que ele iria ficar guardado por todo o sempre para mim, me esperando. Talvez o Jota esteja mesmo certo... Eu não passo de uma criança inocente e boba.
― Me dá esse telefone agora, André! ― Me esgoelei, chorando muito.
O André fez que não e se afastou, ainda gritando muito para a pessoa do outro lado da linha. Eu me levantei da cadeira (tão bruscamente que ela até caiu, fazendo um barulho maior que os meus gritos) e tomei o telefone da sua mão.
― Alô? Quem está aí? ― Falei em inglês, tentando manter a calma (porém os meus soluços me traíam).
― Ana? ― Falou uma voz masculina com sotaque inglês.
Era ele.
― Ana é você?
Eu gelei.
Eu simplesmente não sabia como reagir diante daquilo. Como se reage diante do amor da sua vida?
― Amanda, você não tinha nada que ter ligado para essa garota! ― Falou ele, não se importando nem um pouco com os meus sentimentos.
Eu não consigo me lembrar de nenhum outro dia em que eu tenha chorado tanto.
Ele ouviu os meus gritos. Ouviu o meu choro. E ainda assim foi capaz de dizer aquilo. A ficha caiu. Acabou.
― Niall, escute bem essa minha voz, pois a próxima vez que você irá ouví-la será nas rádios, quando eu estiver muito famosa e rica. Até mais que você. E até lá esse amor que eu sinto por você vai virar ódio e eu não vou nem mais ligar para a sua existência. Você é apenas mais um ponto no meio do mundo. ― Cuspi as palavras de uma vez só ― Ah, e uma última coisa: espero que você seja muito feliz com o seu sucesso idiota, porque quanto mais sucesso, mais chove garotas. Você sabe, nós somos todas muito interesseiras, adoramos uma grana. Afinal, só sendo muito interesseira para se aproximar de você. Um beijo. Não em você, mas no seu bolso.
E então eu simplesmente desliguei, sem nem esperá-lo responder.
Enxuguei minhas lágrimas e esbocei o meu melhor sorriso.
― E então, vamos pagar a conta? ― Falei, ajeitando o meu vestido e já indo em direção ao caixa.
A pizzaria inteira me acompanhou com o olhar, todos boquiabertos com o escândalo que eu fiz.
― Ana, não se preocupa mais com esse cara, eu já coloquei ele no lugar dele. ― Falou o André, ofegante com a situação toda. 
Assim que eu abri a boca para falar que tudo bem, que eu não estou mais nem aí, ele me abraçou forte e disse que a dor logo vai passar.
― Que dor, André? A do meu tornozelo? Pois é, eu acho que vou ter que ir no médico verificar isso.
O André revirou os olhos e disse para eu parar de me fingir de forte, que às vezes é bom chorar e ficar na fossa, para a tristeza sair logo de dentro de mim, ao invés dela se acumular.
― Eu não estou fingindo nada, André. Que saco! Por que todos têm essa imagem de mim? Será que uma garota cor-de-rosa não pode ser forte?
― Deve! ― Disse ele, forçando um risinho. ― Quer saber? Eu aprovo você e o Jota.
― Sai dessa, maninho! Ele é muito coroa para a pirralha aqui.
De repente alguém me pegou pela cintura e me virou. Era o Jota.
― Ei, eu ouvi isso, viu? 
Nós estávamos tão próximos que eu só conseguia reparar em seus lindos olhos azuis. E na sua beleza em geral. A pele rosada, os dentes perfeitamente alinhados e branquinhos, a barba bonita e clarinha... Tudo no Jota é lindo. E se for feio, só por ser dele se torna automaticamente bonito. Um belo exemplo é o seu cabelo. Quer dizer, ele mal tem cabelo. Eu detesto garoto com cabelo raspado. Mas nele fica tão lindo... 
― Me larga, garoto! ― Brinquei.
― E se eu não quiser te largar? ― Sorriu ele e então me beijou (é impressionante como o Jota torna o beijo uma coisa banal) ― E se eu não quiser te largar nunca mais? ― Disse ele em meu ouvido.
Levei na brincadeira e apenas ri. Porém, para ser sincera, me arrepiei da cabeça aos pés quando ele disse aquilo. Não sei o meu deu... Não sei se foi o seu lindo sotaque carioca, a sua beleza, o seu jeito... Só sei que alguma coisa nesse garoto me encantava muito. Talvez fosse ele por inteiro.
Eu sei que você deve estar me achando uma louca, Diário. Também, não é pra tanto: eu conheci o garoto há algumas poucas horinhas e já o beijei várias vezes. Ok... eu piorei a situação toda. Falando assim eu pareço até aquelas típicas vacas das novelas. Mas eu não me sinto uma vaca. Com o Jota esse tipo de coisa parece natural e, sei lá, eu sinto como se eu já o conhecesse há anos. 
Bem, depois que nós pagamos a conta fomos direto para o meu apartamento descansar. Durante o caminho até lá ninguém tocou no assunto Niall (pois é, agora eu estou me acostumando a escrever esse nome. Percebi que é besteira ficar evitando escrevê-lo), para a minha sorte. 
Umas duas horas mais tarde o Jota teve que ir embora. Já a Beatriz quis dormir aqui em casa, mas o André disse que não, que ia deixá-la em casa. Depois de muita insistência (que garota abusada!), ela acabou concordando. 
Mais tarde eu fui me arrumar para ir ao cinema com o André (nós dois resolvemos ir de última hora). Enquanto passava delineador, me peguei pensando nos últimos dias. Eu não me maquiava desde a minha volta para o Brasil. E agora, assim como a maquiagem, eu estou pintando a minha nova vida. E que ela seja cheia de surpresas.




domingo, 28 de abril de 2013

CAPÍTULO 48

Diário da Samanta
07 de março de 2013, sábado

                                                 


Acordei tomando um susto, com o alto toque do meu celular que estava no meu criado mudo. Meu coração disparou e quase saiu pela minha boca, sorte que eu o engoli antes que isso acontecesse. Juliana estava me ligando.

- Alô... – Falei, ainda meio grogue.
- Sam, bom dia!!! Não estou te acordando, estou? – Ela perguntou do outro lado da linha, me fazendo querer dar um soco em alguém.
- Isso não vem ao caso. – Respondi, bem mau-humorada.
- Pelo jeito, acordei sim! – Juliana riu. – Enfim, foi por uma boa causa, acredite! Lembra daquela festa à fantasia que eu estava pensando em dar na minha casa já que os meus pais estão viajando?
- Claro que lembro! – Falei, já ficando um pouco animada e vibrando por dentro.
- Eu decidi que ela vai acontecer! E vai ser hoje à noite!
- Uhu, festa! – Exclamei, levantando da cama e fazendo uma dansinha da vitória.
- Você vem não vem? – Juliana perguntou.
- É claro que vou, Juliana! Eu sou a que mais queria que essa festa acontecesse. – Falei, rindo. – Será que eu posso levar um acompanhante?
- Acompanhante? Que história é essa? - Ela perguntou, parecendo bastante interessada no assunto.
- Se você deixar que eu leve, você irá descobrir! – Fiz um pouco de mistério.
- Depois dessa, pode com toda certeza! – Juliana realmente queria ver o tal acompanhante.
- Tá bom, então! Estarei na sua casa de noite com ELE. – Fiz questão de dar ênfase no “ele”, só pra colocar um clima maior de curiosidade no ar.
- Se ele tiver um amigo, pode levar ele também! – Ela falou, me fazendo gargalhar. Juliana nunca havia tido um namorado, mas sempre quis ter um. Juliana não é lá essas coisas, por isso, infelizmente, nenhum garoto se interessa por ela. Pelo menos pelo o que eu saiba. Hoje em dia, os garotos só se atraem por beleza. A futilidade no mundo cresce mais a cada dia que passa.
- Pode deixar. – Ri. – Nos vemos na festa!!! Hasta La vista, baby! – Comemorei, desligando o telefone em seguida.

No mesmo instante, procurei o número de John na lista telefônica e o disquei.

- Here’s John (Aqui é o John). – Ele falou, com seu lindo sotaque britânico.
- E quem mais seria? – Falei, também em inglês, rindo do que ele tinha dito.
- Encantadora como sempre! – John riu, descobrindo que era eu do outro lado da linha. – Estou ansioso para saber qual será o programa turístico de hoje!
- Hm, vejamos... Iremos conhecer uma casa muito bonita, que mais parece um castelo, de uma amiga minha. Para a nossa sorte, lá, essa noite, vai ter uma festa! – Falei, animada.
- Festa? – John perguntou, parecendo meio preocupado.
- É, uma festa! – Respondi, estranhando a sua reação. – Por que essa desconfiança com as festas? – Ri, curiosa.
- Bem, é que as coisas não deram muito certo na última festa que decidimos ir juntos. – John deu um leve riso após a frase. Memórias desagradáveis voltaram na minha mente.
- Porque a festa foi ruim. Tudo relacionado à ela: O dono, o local, as pessoas. Mas nem se preocupe, eu vou te levar pra uma festa de verdade essa noite. – Disse, orgulhosa com tudo que houve.
- Vou confiar. – Ele cedeu, fofo como sempre.
- Combinado! Umas 20:00h vou passar em frente ao seu hotel e vamos juntos, tá bom?
- Parece perfeito pra mim.
- Vou desligar agora, vou falar com os meus pais! Beijão, nos vemos de noite! – Me despedi.
- Tá bom, então! Se cuida. – John também se despediu.
- Ah, esqueci de te avisar: É festa à fantasia! – Avisei.
- Hã, como assim? Como eu vou arranjar uma fantasia? Não conheço nada por aqui! – Ele riu, preocupado e perdido.
- Me surpreenda! – Ri e desliguei.

Com certeza John iria dar um jeito, ele não é nem um pouco bobo. Ele pode pegar um táxi e pedir pra o taxista o levar até uma boa loja de fantasias. Opões aqui no Rio é o que não se falta! Saí do meu quarto, fui até a sala e avisei para os meus pais sobre a festa. Meu pai resolveu que me levaria. Kaitlin e Letícia resolveram que queriam ir junto. Falei que a festa era da minha amiga, não da amiga delas, mas como sempre, fizeram a cabeça da minha mãe e minha mãe me obrigou a levá-las. Fala sério, não é culpa minha se elas são insuportáveis e não são convidadas para alguma festa! Aposto que elas iam ficar pegando no meu pé e grudadas no meu pescoço. Essa noite, eu quero me divertir, sem preocupações, esquecer do mundo! Esquecer quem eu ainda não consegui esquecer, mas continuo tentando. Sei que não falo muito ultimamente sobre isso por aqui, diário, mas é que prefiro nem escrever sobre isso, porque quanto mais se pensa sobre certo assunto, mais o pensamento vai se prolongando e trazendo mais e mais memórias. Olha só, já estou falando sobre isso! Vou parar. Bom, a questão é que vou ter que levar as minhas irmãs na festa ou então, não poderei ir. Fazer o que, né? Certas coisas são necessárias.
A minha tarde passou rápido: Fui ao shopping com a minha família para almoçar e ficamos um tempo andando por lá mesmo. Como sempre, babei as vitrines e sem poder comprar nada, claro. Por que as roupas mais bonitas são as mais caras? Eu sei que é uma pergunta que tem uma resposta meio óbvia, mais mesmo assim, as coisas não deviam ser como são! Os piores alimentos são os mais saudáveis, e os mais gostosos, são os que mais fazem mal. Que injustiça! Outro exemplo: Os garotos mais bonitos, na maioria das vezes, são gays! Ironia do destino? Talvez. Mas ironia com as garotas, claro. Porque com os outros gays, isso é uma maravilha! John é lindo, e não é gay. Ainda bem. Na verdade, tenho quase certeza que não. Ele sempre mostrou um certo interesse em mim. E não, não é coisa da minha cabeça. Ele sempre teve um brilho diferente no olhar quando me viu. E o Harry... quero dizer, o Louis, o Liam e o Zayn, também não são gays, obviamente. Nem o Niall. Eu nem devia tocar nesse nome aqui também, já que um dos motivos pela minha desgraça foi esse indivíduo, que antes eu admirava mais que tudo, mas agora, tenho uma raiva incontrolável. Tanto por Ana, quanto por mim mesmo. Por falar em Ana, falei com ela hoje! Ela me contou que também vai para a festa. Nós duas somos loucas por festa, loucas mesmo! Afinal, quem não gosta de uma boa e velha festa?
Quando voltei com meus pais e minhas irmãs do shopping, já era hora de começar a me arrumar para a festa da Juliana! Nem sabia por onde começar. Na verdade, eu nem tinha uma fantasia aqui no apartamento e nem havia lembrado de alugar. E obviamente, estava muito em cima da hora pra decidir fazer isso. O jeito foi procurar peças avulsas e tentar misturas tudo, para tentar formar uma fantasia descente! Resultado: Peguei um vestido preto, uma blusa preta e coloquei em volta do meu pescoço. Achei uma velha máscara que eu tinha usado há muito tempo numa apresentação da escola e coloquei também. Era uma máscara de gato. Só lembro de Ana! Misturei algumas pulseiras, anéis, colares... No fim das contas, acabei me fantasiando de um grande e belo gato preto. Até que não ficou tão ruim assim! Umas 19:50, eu já estava completamente arrumada! Não esqueci de maquiagem, perfume e tudo mais. Eu fui para a sala e vi que Letícia e Kaitlin também já estavam prontas! Milagrosamente, porque elas sempre era as últimas a ficarem prontas. Suspirei aliviada. Afinal, ainda tínhamos que ir para o Copacabana Palace buscar John e voltar para o Leblon, onde também fica a casa de Juliana. Letícia estava fantasiada de cigana e Kaitlin nem estava fantasiada. Que sem graça! No mínimo, ela devia achar que é “mico” se fantasiar. Mas mico mesmo é ir para uma festa à fantasia SEM fantasia. Deixa ela pra lá. Descemos do edifício e entramos no carro. Fui do lado do meu pai e as minhas irmãs, nos bancos de trás. Partimos em direção ao hotel de John. Estava ansiosa para ver sua fantasia! Ria sozinha, meu pai e minhas irmãs não entendiam o motivo. Mas eu, sim. Depois de algum tempo, finalmente chegamos em frente ao Copacabana Palace. Abaixei a janela e acenei para John, que estava já fora da recepção. Ele me viu, sorriu e veio em direção ao carro.

- Goodnight, mister. Goodnight, ladies. – John disse, assim que entrou no carro e fechou a porta.
- Oi, John! – Sorri, olhando para trás. Ele sorriu de volta. Percebi que Kailtin e Letícia olhavam para ele boquiabertas. Desesperadas.
- Oi, gatinha. – John respondeu, analisando a minha máscara e rindo.
- Eu sei que não está falando isso por causa da minha fantasia. – Levantei a sobrancelha direita e sorri.
- Talvez esteja certa. – Ele me olhou de um jeito completamente galanteador. Na mesma hora, virei e direcionei o meu rosto para a rua.

Continuamos a viagem e finalmente, após um bom tempo e engarrafamento, chegamos na casa de Juliana. Dei um beijo no meu pai e ele me disse para ligar quando quisesse ir embora. Ouvi com atenção e saí do carro com John e minhas irmãs. Todos ficaram impressionados com a casa de Juliana. Também, não é pra menos, parecia mais um palácio, como eu sempre costumo dizer. A casa fica na área mais chique e nobre do Leblon. Juliana é bem rica. Finalmente, decidimos entrar e dar início à festa. Quando abrimos as portas da frente, nos deparamos com milhares de figuras na sala. Figuras, que eu digo, eram as pessoas fantasiadas. Todos de fantasias diferentes! Estava uma loucura. Todos dançando, comendo, conversando e bebendo. Aquilo sim era uma festa de verdade! Kailtlin e Letícia estavam tão famintas, que assim que avistaram as comidas, partiram para cima e sumiram. Restamos só eu e John.

- A sua fantasia é a mais criativa, sem dúvidas! – Zoei John, já que ele nem estava tão fantasiado assim.
- Como se a sua fantasia fosse a melhor da festa! – Ele retrucou, me fazendo ficar com expressão de indignada.
- Grande cavalheiro! – Exclamei, batendo no ombro dele e já me virando para sair dali, querendo fazer manha.
- E você não está se comportando como uma dama! – John puxou a minha mão, me virando para ele e retrucando mais uma vez.
- Já entendi! Você está aprendendo a ter respostas comigo! – Ri. – Preciso parar de ser assim. – Brinquei.
- E nós precisamos dançar! – John começou a dançar feito uma criança, todo lindo e encantador.
- Achei que você não soubesse dançar! – Gritei. – Além de respondão, é mentiroso. Estou descobrindo várias coisas ao seu respeito.
- E por acaso eu estou dançando bem? – Ele sorriu, olhando nos meus olhos.
- Pra falar a verdade, não. – Caímos na gargalhada.
- Você é incrível, sabia? – Ele se aproximou, me fitando de um jeito irresistível.
- Miau. – Respondi, fazendo ele rir e tirar a minha máscara.
- Eu acho essa máscara bem mais bonita. – John falou, desviando seu olhar para a minha boca. – Bem melhor.

No mesmo instante, John também retirou sua máscara, não pensou duas vezes e colocou sua mão na minha nuca, aproximando o meu rosto do seu. Nossos lábios se selaram. Não sabia se aquilo era certou ou errado, mas na dúvida, correspondi. Aquele beijo podia mudar tudo, quem sabe? E, sinceramente, eu torcia para que isso, finalmente, acontecesse.

CAPÍTULO 47

Diário da Ana
06 de março de 2013, sexta-feira

                                          


Me desculpe, Diário, por não ter terminado de escrever na quarta-feira... É que a minha mãe já estava brigando comigo, pois eram duas da manhã e eu ainda não tinha ido dormir. Sabe como é vida de estudante, não é? Acordar
cedo e coisa e tal. Bem, eu acho que te devo explicações do que aconteceu depois do beijo, certo? Não se preocupe, irei te contar tim tim por tim tim.
― Me desculpa, Jota... ― Falei, assim que nos afastamos, meia desnorteada ― Isso não devia ter acontecido. Eu não sei o que deu em mim...
Ao contrário do que eu pensei (que era ele começar a falar que tudo bem, sem problemas etc) ele simplesmente me calou com outro beijo. Ao invés de retribuir, me afastei bruscamente e o olhei com a minha melhor expressão de indignação. Eu já estava completamente sã e certa de que aquele não era e nunca seria o... bem, você sabe quem.
― É que você é muito linda, não dá pra resistir... ― Disse ele, esboçando um sorriso cafajeste e me olhando fixamente.
Opa, opa, opa... então é isso? Eu penso que vou arranjar um novo amor e o destino me trás um galinha?
E tem outra coisa. Eu sei exatamente o que você deve estar pensando de mim, Diário. Você deve estar pensando que eu sou uma vaca que sai beijando o primeiro que vê pela frente. Mas não é isso. Na verdade, não chega nem perto disso. Eu apenas estou morrendo de saudades dele. E dói cada vez que eu faço questão de me lembrar isso. Eu achei que, sei lá, o Jota poderia ocupar o buraco que tem no meu coração. Porém isso só me fez enxergar que ninguém mais além dele pode ocupar este espaço. Talvez alguém possa até tampar, mas não ocupar.
― Eu não sou qualquer uma, Jota, que você pode sair "pegando" a hora que bem entender! ― Gritei sussurrando (se é que isso faz sentido).
― Eu sei que você não é qualquer uma, Ana. ― E mesmo falando uma coisa fofa dessas o sorriso safado permanecia intacto em seu rosto.
― Como sabe? ― Perguntei com cara de durona, fingindo não estar derretida por dentro.
― Não sei, eu só sei. ― Ele riu ― Você é diferente.
― Diferente como?
― Viu! ― Exclamou ele, rindo.
― Viu o quê?!
― Isso! Você! ― Respondeu ele. ― As crianças costumam questionar tudo, perguntar o por quê de tudo, igual você. As garotas da sua idade não fazem isso.
― E isso é bom ou ruim? ― Perguntei e o Jota começou a rir. ― Juro que foi sem querer!
― Uhum... ― Falou ele, tentando parar de rir, enquanto dava uma golada na cerveja.
― Enfim, o fato é que você nem me conhece, então não pode sair por aí dizendo que eu ajo feito uma criança. Só porque você tem vinte e tantos anos não quer dizer que você seja mais maduro que eu.
― Vinte e três.
Caramba.
Vinte e três.
Eu não posso acreditar. Simplesmente não posso. Eu beijei um velho? É isso mesmo que eu acabo de saber? Eu vou ali chorar e já volto.
Ok, brincadeira, eu não fui ali chorar. Mas que tive vontade, tive.
Tudo bem, eu já deveria ter sacado que ele era velho pela sua barba e por ele beber cerveja. Quer dizer, a segunda coisa não tem nada a ver. E pensando bem, nem a primeira. O meu irmão tem vinte e um e já teve barba aos dezoito. E também aos dezoito a pessoa geralmente começa a beber. E, pensando bem, ele só é dois anos mais velho que o André. Só que, pensando bem de novo, o André é meu irmão mais velho. Imagina que estranho a Samanta namorando o meu irmão? Eu o chamaria de pedófilo e a chamaria de vaca. Porém eu estou me lembrando de um dia que a Juliana me contou que o seu pai é seis anos mais velho que a sua mãe. E o Jota é apenas sete anos mais velho que eu. Ai... falando assim parece muito. Mas segundo a Ju não é.
― Tanto faz!
― Eu não estou dizendo que você é mais madura que eu. Por mais que você tenha, sei lá, catorze anos, você pode muito bem ser mais madura que eu.
― Catorze??! ― Quase gritei ― Está me chamando de baixinha?! Eu tenho dezesseis! Sai pra lá!
― Calma, que estresse! Quando você for mais velha vai ver que isso não é uma ofensa e sim um elogio!
Eu já estava ficando irritada com esse tal de Jota. Ele me olhava de uma forma que me deixava muito mal. Não que ele me olhasse com desprezo ou coisa do tipo. Não é isso. Ele me olhava de uma forma como se me enxergasse como uma criancinha - coisa que eu não sou mais faz uns três anos. Eu me sentia até um pouco desconfortável, pois detesto que os mais velhos pensem que eu sou uma pirralha. Principalmente e especificamente os mais velhos garotos lindos amigos do meu irmão. E não, eu não estou gostando do Jota. Estou apenas me forçando a gostar dele. E torcendo para que ele se apaixone por mim. Só que para isso ele tem que me enxergar como alguém do seu nível (de idade, claro). Bem, o fato é que se houver algum tipo de ligação amora entre ele e eu, eu poderei finalmente esquecer tudo o que houve durante as minhas férias. E quando eu digo tudo, é tudo mesmo.
Por mais que escrever tudo isso te soe estranho, Diário, eu posso te dizer com toda certeza que não é. Eu sei, eu conheci o Jota agora e já quero ter algo a mais com ele; porém, na verdade, eu não quero. Assim... eu quero, só que ao mesmo tempo não quero. É difícil de explicar... O fato é que ele é de confiança, já que é o melhor amigo do meu irmão e, você sabe, o André tem aquele jeito todo certinho de ser.
― Eu já sou mais velha e sei que isso é uma ofensa! ― Exclamei e dei uma garfada na pizza.
Assim que o Jota abriu a boca para retrucar, o André e a Beatriz chegaram de mãos dadas, sorrindo muito.
― Vamos, gente? Já pedimos a conta. ― Falou a Beatriz e depois se virou para mim ― Gostou de almoçar com o Jota? Vocês formam um casal bonitinho!
Respirei fundo, engoli todo o meu desprezo por ela e disse:
― Gostei, sim. E você Jota, gostou? ― Esbocei um sorriso sínico.
― Ah, se gostei... ― Falou ele e então piscou para mim, com o seu sorrisinho cafajeste estampado na cara.
― Eu tô de olho em você, ein, Jota? ― Disse o André, cruzando os braços. ― Nem ouse chegar perto da minha irmãzinha.
― Esse é irmão coruja! ― Falou a Beatriz tentando dar uma de engraçada e por fim soltou uma risada extremamente fina e esquisita.
Senti que todos riram apenas para não deixá-la sem graça. Eu nem me importei, fiquei séria mesmo, na maior cara de pau.
Quando estava prestes a me levantar, senti o meu celular vibrando no bolso.
― Um instante, gente.
Peguei o meu celular e desbloqueei.
Meu coração gelou quando vi quem estava me ligando.
Niall.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CAPÍTULO 46

Diário da Samanta
06 de março de 2013, sexta-feira

                                                 


Sexta-feira, como você demorou para chegar! Na verdade, veio de lesma, mas finalmente, chegou! Contei os segundos, minutos, as horas para te ver, se sentir, te viver (se é que é correto dizer isso). Enfim, resumindo: SEJA BEM-VINDA. E MUITO BEM-VINDA. Terça-feira, quarta-feira e quinta-feira levaram praticamente uma eternidade para passar, não conseguia pensar em mais nada a não ser na chegada de John aqui no Rio de Janeiro. Admito que quando estava em Londres, não dava muita bola pra ele e até mesmo não ia muito com a sua cara, mas acabei percebendo que John me anima e coloca o meu astral lá pra cima! Se apenas ouvir a voz dele no telefone já me deixou absurdamente feliz, imagina quando o ver? Vai ser quase um alívio. Decidi esquecer tudo de ruim de aconteceram nessas férias e tocar a minha vida para frente, afinal de contas, não posso deixar de viver uma vida toda por causa de dois míseros meses. Não adianta sofrer por alguém que nem se quer sente sua falta ou entende o seu lado. Se aquilo tudo aconteceu, foi porque realmente tinha que acontecer. Eu preciso parar um pouco de focar o meu pensamento na vida de outra pessoa e começar a focar na minha própria vida. É o jeito. É preciso.
Dormi a noite toda como uma pedra, relaxada e para acordar totalmente disposta hoje! O dia, pelo visto, vai ser longo! Assim que abri os olhos, um sorriso abriu junto. Pulei da cama, corri para o banheiro, tomei um belo de um banho e cantarolei. Milagre. Fazia tempo que eu não cantava no chuveiro. Estava sentindo falta dessas coisas simples que eu deixei de fazer enquanto perdia tempo me lamentando, com a cabeça lá no passado. Assim que terminei o banho matinal, me sequei e fui escolher uma roupa para ir no aeroporto! Me vesti, terminei de me aprontar, peguei minha bolsa e coloquei todos os itens importantes e essenciais no dia-a-dia: carteira, maquiagem, celular, perfume (teria colocado spray de pimenta se tivesse um). Saí do quarto felicíssima e fui em direção à sala.

- Uau! Parece que alguém acordou bem-humorada. – Letícia comentou, sentada no sofá e me fitando.
- Os deuses ouviram nossas preces! – Kaitlin foi na onda. As duas riram.
- Parece que sim! – Respondi, feliz e saltitando. Letícia e Kaitlin se entreolharam e estranharam meu comportamento.
- Como você está linda, filha! – Minha mãe me encarou. – Tudo isso é pra ir buscar esse tal menino no aeroporto?
- Que foi? Eu não posso mais querer me arrumar e me sentir bonita não, mãe? Que coisa! – Ri, sentando na mesa de jantar e servindo um copo de suco de abacaxi.
- Essa daí esqueceu o garoto de cabelo cacheado daquela banda rapidinho. – Kaitlin insistiu em comentar.
- Kailtin, não vá começar! Você...
- Tá tudo bem, mãe! – Interrompi. – Ela está certa. Eu realmente o esqueci. – Fiz questão de deixar aquilo bem claro.
A sala ficou totalmente em silêncio. Bebi todo o suco que estava no copo, levantei da mesa e o deixei na pia, na cozinha. Voltei para o meu quarto, escovei os meus dentes e retoquei o batom.

- Eu não vou almoçar em casa hoje, tá bom, mãe? Eu e o John vamos comer juntos em algum restaurante. – Meio que fiz um pedido para ela, já afirmando.
- Tudo bem, senhorita já maior de idade. – Minha mãe riu, me fazendo rir junto.
- Não é justo a Samanta sair com um gatinho britânico e eu e a Kaitlin ficarmos aqui que nem duas patetas nesse apartamento! – Letícia resmungou, me fazendo rir alto.
- Quem sabe um dia a vida sorria para vocês duas, caras irmãs. – As provoquei, colocando minha bolsa no ombro. As duas me lançaram um olhar repleto de raiva.
- Tome cuidado, Samanta! Não faça nada que não deva. – Minha mãe me aconselhou.
- Mãe, você sabe com quem está falando? – Ri e a beijei na testa. – Não se preocupa, eu tenho total noção das coisas. John é um cara legal, você logo irá conhecer ele.
- Uh, namoro oficial. – Kaitlin riu.
- Nossa, essa daí só pensa em namorado. Não se preocupa, irmã. Assim que eu puder eu arranjo um outro desesperado pra você também. – Letícia gargalhou e minha mãe deu um leve riso.

Sorri e me despedi de todos, saindo do apartamento. Fui até a rua principal e peguei um ônibus em direção ao Galeão. Sentia um frio na barriga a cada rua que passava. Minha ansiedade estava a mil por hora! Sentei do lado de uma senhora bem simpática. Nós duas conversamos. Ela me disse que também estava indo para o aeroporto, pegar o filho dela que estava vindo de São Paulo. Que coincidência! A vida às vezes é bem engraçada. Tempo depois, finalmente desci no aeroporto. Entrei pela entrada principal e fui me informar de onde seria o desembarque do voo internacional vindo de Londres. Aquilo soava estranho! Ainda não acreditava que estava indo pegar um colega que eu conheci na Inglaterra. Olhei para o meu relógio e percebi que estava bem em cima da hora! Andei depressa até o portão e percebi que já haviam várias pessoas aguardando ali perto pelos passageiros. Me juntei à aquelas pessoas e fiquei atenta ao portão, esperando ver John. Pessoas vindas da viagem começaram a sair. Meu coração disparou! John podia sair a qualquer momento, de surpresa. Eu vibrava por dentro e ao mesmo tempo, tremia. De repente, avistei John sair do portão, parecendo totalmente perdido e olhando em volta. Finalmente, seu olhar encontrou o meu. Ele esboçou um sorriso e veio em minha direção.

- Como é bom te ver! – John me abraçou, soltando sua mala no chão.
O abracei de volta. John estava absurdamente cheiroso. Ficamos ali uns 10 segundos abraçados e finalmente, nos distanciamos.

- Bem-vindo ao Rio de Janeiro, gringo! – John riu.
- Eu já estou amando essa cidade! A vista do avião era incrível. – John disse, empolgado e fascinado.
- Não se preocupa, isso é só o começo! – Fiz mistério.
- Estou com um leve pressentimento que essa será a melhor viagem que eu já fiz. – Ele me olhou, encantador.
- Olha, eu não duvido. – Rimos juntos.
- Eu estou morrendo de fome. Que tal irmos para o meu hotel, para deixarmos as minhas bagagens e de lá, você me leva à algum restaurante e me surpreende?
- Isso é o que eu faço de melhor, querido. – Novamente, rimos.

A risada de John era gostosa de se ouvir, charmosa. Era visível: Eu realmente estava feliz com ele. Pegamos um táxi e fomos para o hotel que ele iria ficar hospedado. John ficou nada mais nada menos do que no Copacabana Palace. Quase surtei quando paramos em frente à ele! Eu sempre quis ver como era um quarto daquele palácio! Fiquei super empolgada. John pegou a chave do quarto na recepção e subimos até o andar. Meu queixo caiu quilômetros! Aquilo não era um quarto, era um mundo! Nós dois pulamos na cama e ficamos abismados com o tamanho e luxo de tudo. Logo depois, pegamos novamente o mesmo táxi que estava nos esperando embaixo e fomos ao “Porcão”, um famoso restaurante daqui do Rio. John nunca havia comido churrasco. Na verdade, ele não sabia nem do que se tratava. Chegando no restaurante, descemos e pegamos uma mesa. Assim que o rodízio começou, John ficava mais doido ainda com as opções que tinha. Ele não recusava nada que aparecia, apenas ia enchendo o prato cada vez mais e mais. Eu ria de tudo aquilo, me engasgava quase toda hora. Conversa ia e comida vinha. Nem parecia que eu havia tido aula hoje cedo, na verdade, nem parecia que escola existia. Ali, com John, parecia que eu havia voltado a ter férias! Sabia que a visita dele me faria bem novamente. Passamos a tarde juntos. Quando pedimos a conta do restaurante, já não conseguíamos nem andar de tanto que tínhamos comido! Fizemos uma aposta para ver quem tomava mais sorvete e adivinha quem ganhou: eu! Não me lembro da última vez que comi tanto como hoje. Foi simplesmente fantástico! Logo depois que saímos do restaurante, fomos andar pela praia de São Francisco, já em Niterói. O dia foi tão bom que passou voando. Quando nos demos conta, já era 20:00h! Hora de eu ir pra casa, claro. John fez questão de me deixar na porta do condomínio. Entramos no táxi e fomos. Quando chegamos, o taxista estacionou.

- Obrigado por me suportar e gastar o seu tempo comigo. – John me olhou, sorrindo.
- Eu me diverti! – Ri.
- Eu também. – John segurou minha mão, me olhando.
- Mas como sempre, o fim da diversão chega, né? – Me lamentei.
- Ei, amanhã é sábado! E sábado é, obrigatoriamente, dia de diversão. Nem tudo está perdido! – John me fez sorrir.
- É verdade. – O olhei.
- Boa noite. – Ele falou, olhando no fundo dos meus olhos e me dando um abraço caloroso. O taxista estava em silêncio e provavelmente, observando tudo do retrovisor. Fiquei completamente envergonhada.
- Boa noite. – Respondi, dando um beijo na bochecha de John e saindo do abraço. – Vê se não se perde pelo Rio de Janeiro, hein! Vai ser difícil de te encontrar já que você não é branquelo que nem a maioria dos britânicos. – John riu.
- Pode deixar.

Saí do táxi e entrei no condomínio. Subi o elevador e entrei no apartamento, com a minha própria chave. Minhas irmãs dormiam nos sofás e minha mãe estava provavelmente no quarto com o meu pai, que já devia ter chegado do trabalho. Decidi não fazer barulho e não falar com ninguém, apenas fui para o meu quarto, troquei de roupa e me joguei na cama. Bem-vinda de volta, vida.

CAPÍTULO 45

Diário da Ana
04 de março de 2013, quarta-feira

                                                    


Faltei a escola hoje, Diário. Mas não por falta de vontade ou coisa parecida, e sim porque amanheci com febre e muita cólica, então decidi ficar em casa descansando. E venhamos e convenhamos, os professores nunca dão nada de importante nos primeiros dias de aula. Sem falar que tem gente pior que eu, que vai faltar a semana inteirinha por estar viajando na Disney por uma daquelas agências de viagem. Enfim, eu não vou ficar aqui escrevendo sobre viagens para a Disney, não é?
Bem, só fui acordar de dez da manhã. Mais precisamente eu acordei com uma faladeira sem tamanho vindo da sala de estar. Na mesma hora me estressei. Fui até lá à passos de elefante, já preparada para mandar todo mundo calar a boca.
Assim que cheguei até lá, vi dois rostos completamente desconhecidos para mim. Um era um garoto de olhos azuis, cabeça quase raspada e pele branca (muito bonitinho, dica-se de passagem). O outro era uma garota de longos e esticados cabelos loiros, de olhos castanhos e pele branca. Parecia uma daquelas patricinhas vulgares da faculdade do André que de vez em quando viam aqui à "trabalho". E talvez ela até fosse uma.
Quando os dois perceberam que eu estava encarando-os, ficaram sem graça. Provavelmente eles não tiveram uma boa imagem minha: cabelo frizado cor de vômito e olheiras pretas profundas. Eu deveria estar completamente assustadora.
― Ah, oi... Você deve ser a famosa Ana, não é? ― Falou a loura oxigenada.
Esbocei um sorriso amarelo e disse que não.
― Não? ― Ela perguntou, sem entender.
― Não... Eu ainda não sou famosa.
O meu humor estava péssimo hoje de amanhã, Diário, portanto não se assuste.
O garoto lindinho forçou para não rir e a loura deu um tapa em seu braço. Quem era, afinal, aquela dupla ridícula?
De repente o André apareceu equilibrando três copos de pepsi. Cada um pegou o seu refrigerante e tomaram-o quase em um gole só.
― Bom dia, Ana! ― Exclamou o André, sorrindo muito.
Aquele seu sorriso me estressou. Como ele poderia sorrir com a minha desgraça? Eu estava horrível. E pior: estava horrível na frente de um garoto bonito. E além do mais, não estava apenas horrível por fora, estava horrível por dentro também.
― Mal dia, André. ― Falei, fazendo questão de fazer uma expressão bem séria.
― Bom, como podem ver a minha caçulinha é de uma educação invejável... ― Ironizou o idiota do André ― Aninha, esse aqui é o João, mas conhecido como Jota. Jota, essa aqui é minha irmã Ana.
― Prazer, Ana... ― Falou o "Jota", receoso (provavelmente com medo de eu dar um fora daqueles nele).
Dei um sorrisinho e virei a cara para o André, esperando que ele me apresentasse a outra peça.
― E essa aqui... Bom, essa aqui é a Beatriz, aquela que te falei, lembra? Minha namorada.
Como assim???!!! Aquela loura com cara de vômito é a namorada do André? Que mal gosto!
Ótimo. O meu dia havia começado ótimo. Além de eu estar extremamente triste por conta de tudo que ocorreu no meu último mês, ainda me vem uma tal de Beatriz para desgraçar tudo de vez.
― Prazer, Ana. Eu estava muito ansiosa para te conhecer, o André fala tão bem de você...
De repente se formou um nó enorme na minha garganta. Aquelas palavras... "O André fala tão bem de você"... E naquele momento eu estava tratando tão mal as visitas... A Ana antiga jamais faria isso. Essa Beatriz deve estar pensando que o meu irmão é louco de falar bem de mim.
― Você deve ter me achado uma mal educada, né? ― Disse, já chorando.
Corri para o meu quarto e me joguei na cama, enfiando o meu rosto no travesseiro e chorando até não poder mais.
Agora, além de chata e enjoada, eles devem me achar uma mimada chorona.
Alguns instantes mais tarde o André e os seus dois amigos apareceram na porta do meu quarto, com expressões de pena.
― Que tal irmos para uma pizzaria, Aninha? ― Sugeriu o André, para tentar me animar.
― De dez da manhã? Me poupe, André. ― Falei entre um soluço e outro.
Ele se ajoelhou ao lado da cama e entrelaçou a sua mão na minha.
― E daí? Almoço antecipado!
Quando eu dei por mim, eu estava sorrindo.
― Que saudade desse sorriso! ― Falou o André, puxando ainda mais o meu sorriso.
Logo em seguida ele se levantou e disse para eu me aprontar em meia hora.
Fiquei mais uns cinco minutos lamentando a vida, até que decidi deixar a preguiça de lado e me levantar. Tomei banho, escovei os dentes e vesti qualquer roupa. Diferente de quase todas as vezes que saio, não pus um arco ou um laço, fui de cabelo solto mesmo. Ao invés de colocar um salto para não me sentir tão baixinha no meio dos gigantes, coloquei simplesmente um chinelo havaianas e fui em direção a sala, ainda com um pouco de cara de choro.
― Vamos? ― Falei, meia desanimada.
A pizzaria estava lotada, o que só me fez indagar: o que faz uma pessoa vir a uma pizzaria às dez da manhã? Aliás, o que faz metade do Rio de Janeiro vir a uma pizzaria às dez da manhã? Porque, sim, parece que toda a cidade está aqui.
Sentamos na única mesa que estava vaga, bem no canto, onde nem sequer se podia enxergar o ar condicionado, quem dirá sentí-lo.
Apoiei meus dois cotovelos em cima da mesa e coloquei meu rosto entre minhas duas mãos, fazendo minhas bochechas amassarem.
― Vão querer qual pizza, galera? ― Perguntou o tal de Jota.
― Hum... sei lá... quatro queijos, pode ser? ― Sugeriu a tal de Beatriz.
Minha língua estava coçando para dizer que quatro queijos é a pizza mais enjoada que existe, mas preferi ficar calada para eles não pensarem ainda mais que eu sou uma garota mimada e enjoada. Eu não queria sujar o meu filme com os melhores amigos do meu melhor irmão.
― A Ana detesta quatro queijos... ― Comentou o André e eu quase pulei no seu pescoço para beijá-lo ― Vamos pedir uma pizza grande metade portuguesa e metade quatro queijos. Pode ser?
― Pode, sim. ― Falou a Beatriz. ― Por mim está ótimo.
― Por mim também! ― Concordou o Jota ― E pra você, Ana?
Meu coração gelou quando ele disse aquilo. Eu estava tão compenetrada em roer as minhas unhas que já havia esquecido que estava diante dos amigos do André. E não era só isso. O Jota sabia o meu nome e, além disso, lançou um olhar tão penetrante para mim que eu quase desmaiei. E, ok, tudo bem, ele sabe o meu nome porque o André disse, mas mesmo assim.
Eu tenho que parar com essa minha mania de me encantar por todo garoto bonito que vejo pela frente. Meu coração está guardado apenas para um garoto bonito espécifico.
― Tanto faz. ― Respondi simplesmente, fingindo estar desinteressada.
Cinquenta minutos mais tarde (literalmente) a nossa pizza chegou. O que foi bom, em partes, pois já eram onze horas, então não era mais tão cedo assim para se comer uma pizza.
A pizzaria continuava extremamente lotada e sufocante (quando eu digo sufocante, me refiro ao calor que fazia lá dentro, pois estava tão entupido que ninguém mais conseguia sentir o ar condicionado). Uns cinco minutos depois uma mesa de dois lugares que ficava bem em baixo do ar condicionado foi desocupada. Nós quatro nos entre olhamos.
― Quem de nós vai pra lá? ― Perguntou a Beatriz, se abanando com o cardápio.
― Como eu e o André somos cavalheiros, vamos deixar as moças sentarem na melhor mesa. ― Falou o Jota meio em tom de brincadeira.
Me deu um enjôo na barriga só de imaginar eu e a Beatriz almoçando juntas naquele lugar. Eu preferia passar mal no calor horrível que estava fazendo na mesa em que estávamos do que ficar sozinha com ela.
― Eu não me importo de ficar aqui. ― Falei.
― Nem eu. ― Disse o Jota.
― Então eu vou pra lá com a Bia, já que vocês dois não se incomodam. ― Falou o André, provavelmente vibrando por dentro.
Caramba, Diário, eu acho que você simplesmente não tem noção do quanto eu detesto esse apelido: "Bia".
É tão enjoado e horrível que só de ouvir me dá vontade de vomitar na primeira pessoa que eu vir pela frente.
Depois de muita cerimônia o André e a sua namorada acabaram mesmo nos largando sozinhos naquela mesa calorenta. O que só me fez ficar com muita raiva do André. O que ele tem na cabeça, afinal? Eu acabo de conhecer o seu amigo e ele simplesmente me larga sozinha com ele? A gente não tem nem o que conversar, não temos nada em comum.
Ficamos uns quinze minutos em um silêncio constrangedor (provavelmente o Jota tinha medo de mim, já que ele fazia mais o tipo tagarela e estava completamente calado comigo).
― E então...? ― Eu tentei começar uma conversa.
― E então... ― Ele disse e nós dois caímos na gargalhada.
Ufa! Pelo menos assim o clima descongelou.
― Você deve me achar uma/um idiota, né? ― Nós dois dissemos supreendentemente em coral.
Novamente soltamos uma risada.
Eu já estava ficando com medo. Como assim dissemos exatamente a mesma coisa exatamente ao mesmo tempo?
― Não! ― Falamos juntos de novo.
Nós dois simplesmente choramos de rir. Rimos tanto que o garçom até veio na nossa mesa perguntar se queríamos um copo d'água para nos acalmar. Dissemos que não, que estava tudo bem.
Nossa risada foi parando aos poucos e, de repente, estávamos nos olhando. O clima ficou tão constrangedor que minha vontade foi de enfiar minha cara de baixo da toalha da mesa.
Eu não sei como vou te explicar isso, Diário, mas vou tentar. Foi como se eu tivesse enxergado ele ao invés do Jota. Minha cabeça foi girando e meu coração palpitando cada vez mais rápido. O momento falou mais alto e então eu fui me aproximando aos poucos dele, até que nossas respirações se misturaram. A cada segundo que se passava o seu rosto estava ficando cada vez mais parecido com o dele e eu já não sabia mais quem ele realmente era. Até que, de repente, eu me vi beijando o melhor amigo do meu irmão.