03 de março de 2013, terça-feira
Querido diário,
Lá se vai mais um dia de março,
esse mês que chegou com tudo para não dizer ao contrário. Hoje foi mais um dia
de aula, de desânimo, tentativas de se reerguer em vão. Eu não aguento mais
essa pessoa que eu me tornei, essa pessoa sem vida, sem vontade pra tudo e que
só sabe se lamentar. Eu sei que preciso voltar a ser o que eu era, mas ainda
faltam forças e coragem para dar a volta por cima. Ver Ana de cabelo novo,
castanho, totalmente diferente do que costumava ser, me despertou um desejo de
também querer mudar. Quem sabe assim eu me sinta mais animada com a vida e
comigo mesma. Como ela mesma disse: “Cabelo novo, vida nova”. Talvez ela esteja
certa. Confesso que é estranho olhar para Ana e não reparar mais naquele cabelo
chamativo e lindo. Lógico que continua muito bonito, sedoso e brilhoso, mas não
é a mesma coisa. Estou com vontade de fazer algo diferente em mim, mudar alguma
coisa da minha aparência: Fazer uma tatuagem, colocar algum piercing. Reformar
o meu quarto também é uma boa alternativa, levando em conta que aqui estão os
mesmos móveis desde que eu me entendo por gente. Bom, ainda vou pensar em todas
as possibilidades, afinal de contas, mudanças drásticas merecem um pouco mais
de reflexão. Outra etapa será convencer os meus pais a concordarem com essas
ideias. Hoje lá na escola foi bem comum, como todos os dias de aula do ano
passado. Eu, Ana, Arthur, Gabriel e Juliana ficamos ouvindo música no recreio e
conversando sobre uma tal festa que Juliana quer fazer já que os pais dela vão
viajar. Ela tá toda animada e quer fazer uma loucura na vida dela, uma coisa
diferente. Bom, somos duas. Espero que ela decida mesmo fazer essa tal festa,
seria uma boa extravasar e se divertir um pouco. Pelo menos, tentar.
- Eu não acho uma boa ideia,
Juliana! Seus pais podem descobrir e tudo vai ir por água a baixo! Não é legal
desobedecer os pais. – Gabriel insistia em estragar a ideia.
- Gabriel, ela não está sendo
desobediente, ela não tá quebrando nenhuma regra. Pelo o que eu saiba, os pais
dela não disseram nada sobre fazer uma festa, né, Juliana? – Realmente me
empolguei com o assunto.
- Eles só disseram pra eu me
comportar e me deram dinheiro pra emergência. – Juliana parecia dividida e
confusa, nervosa com a conversa.
- Eu sei lá, gente... Concordo
com o Gabriel. Vai que dá alguma coisa errada! – Ana falou, desconfiada e
aflita.
- Não vai ser uma festa de
arromba, gente! A gente toma cuidado com tudo e com todos, chamamos só os mais
chegados e pronto. – Argumentei.
- Eu to com a Samanta. A casa da
Juliana é uma mansão, imagina uma festa naquele lugar! Ia arrebentar! – Arthur falava
todo empolgado e fascinado.
- Você acha, Arthur? – Os olhos
de Juliana brilharam.
- Tenho certeza, cara. – Ele
arregalou os olhos.
- Qual é, Ana! Gabriel! Vamos
arriscar, fazer uma coisa diferente. A gente só vive uma vez! – Falei, os
olhando.
- Pois é, gente! Que nem o One
Direction diz: “Vamos viver enquanto somos jovens!” – Arthur exclamou, levantando
os braços, querendo dar uma de engraçadinho. Eu e Ana fechamos a cara.
- Isso! Já sei! – Juliana gritou,
animada. – Ana e Samanta! Vocês podiam ligar pra os meninos e pedirem pra
quando eles virem no Brasil, cantarem na minha festa!
- Sou mais eu cantando. – Gabriel
revirou os olhos, incomodado com o assunto.
- Concordo. – Comentei.
- Hã? Você o que, Samanta? –
Arthur perguntou, não acreditando no que tinha acabado de ouvir.
- Ela tá doente ou o que, Ana? –
Gabriel estranhou.
- Antes queria que ela estivesse.
– Ana falou, triste, cabisbaixa. Todos ficaram em silêncio, sem entender o
porquê se estarmos daquele jeito.
No mesmo instante, o meu celular
começou a tocar. O tirei do bolso da calça e atendi a ligação.
- Alô?
- Hello. Who is it? Is Samanta? –
Reconheci aquela voz.
- John, não acredito! É você
mesmo? – Perguntei em inglês, totalmente surpresa e um pouco feliz. Era bom
ouvir a voz dele, ouvir um sotaque britânico de leve.
- Sou sim, Samanta! Nossa, é tão
bom ouvir a sua voz. – John me falou, feliz.
- Também é bom ouvir a sua. – Ri.
Arthur, Juliana e Gabriel me
olhavam confusos, sem entender nada o que eu estava falando. Ana riu com a
situação e falou para eles que eu estava falando com John, um amigo de Londres.
Gabriel pareceu aborrecido.
- Saudades de mim? – Perguntei,
brincando.
- Pra falar a verde, muitas. –
John respondeu, todo fofo.
- Duvido!
- Estou morrendo de saudade, é
sério! – Ele riu, me contagiando com o seu humor. Ri também. – E você, está com
muitas saudades de Londres?
- De Londres, um pouco. De você,
muitas!
- Nunca achei que escutaria isso
de você. – John riu. – Meu primo, o Eric, ele não para de falar da sua amiga
ruiva. Eu falei que ia te ligar e ele pediu o número dela! Falei que não
prometia nada. E aí, o que você me diz?
- Desculpa, John, mas Ana não
ficou muito interessada no seu primo. – Falei, constrangida. John riu alto.
- Na verdade, bom pra ela. –
Rimos juntos. – Mas escuta, eu estou te ligando pra te contar uma novidade.
- Então conta logo, ué! – Falei,
totalmente curiosa.
- Eu não te disse que faço
faculdade de arquitetura aqui em Londres? – Ele começou.
- Disse!
- Então, o meu período de férias
começou agora e eu tava pensando em passar uma temporada aí no Brasil.
- Isso é sério? – Perguntei,
completamente surpresa e animada com a notícia. – Isso é demais, John! Demais!
- Pra falar a verdade, eu não
estou só pensando. Já comprei a passagem, fiz hospedagem em um hotel aí do Rio
e tudo. – Ele riu.
- Nossa, que menino rápido! – Ri.
– Ai, finalmente uma notícia boa nesses dias. E você chega quando de viagem? Eu
quero ir te buscar no aeroporto!
- Chego na sexta-feira, de 15:00h
aí no Brasil. – John falou.
- Então eu e o Rio estamos te
esperando de braços abertos! – Falei. – Mal posso esperar pra te ver.
- Nem eu a você. – John era
realmente um menino bom.
- Olha, eu preciso ir agora, a
minha aula vai começar! Nos falamos depois, John! – Me despedi.
- Tá bom, Samanta. Boa aula! Vai
convencendo os seus pais a deixarem você ser a minha guia turística aí no
Brasil, hein! Troca de favores. – Ri.
- Pode deixar! Beijo, foi ótimo
falar com você!
Desliguei o celular. Ana já havia
entendido tudo da minha conversa com John e eu contei sobre a vinda dele para o
Brasil para Juliana, Gabriel e Arthur, super empolgada por sinal. John me fazia
sentir bem, ele tinha um ar bom, era divertido e uma pessoa nova na minha vida,
ele me animava. Ele era um bom colega. Mal podia esperar pra ele chegar! Se eu
não posso estar na Inglaterra, que pelo menos um pedacinho dela venha até mim.

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