terça-feira, 2 de abril de 2013

CAPÍTULO 44

Diário da Samanta
03 de março de 2013, terça-feira

                                          


Querido diário,

Lá se vai mais um dia de março, esse mês que chegou com tudo para não dizer ao contrário. Hoje foi mais um dia de aula, de desânimo, tentativas de se reerguer em vão. Eu não aguento mais essa pessoa que eu me tornei, essa pessoa sem vida, sem vontade pra tudo e que só sabe se lamentar. Eu sei que preciso voltar a ser o que eu era, mas ainda faltam forças e coragem para dar a volta por cima. Ver Ana de cabelo novo, castanho, totalmente diferente do que costumava ser, me despertou um desejo de também querer mudar. Quem sabe assim eu me sinta mais animada com a vida e comigo mesma. Como ela mesma disse: “Cabelo novo, vida nova”. Talvez ela esteja certa. Confesso que é estranho olhar para Ana e não reparar mais naquele cabelo chamativo e lindo. Lógico que continua muito bonito, sedoso e brilhoso, mas não é a mesma coisa. Estou com vontade de fazer algo diferente em mim, mudar alguma coisa da minha aparência: Fazer uma tatuagem, colocar algum piercing. Reformar o meu quarto também é uma boa alternativa, levando em conta que aqui estão os mesmos móveis desde que eu me entendo por gente. Bom, ainda vou pensar em todas as possibilidades, afinal de contas, mudanças drásticas merecem um pouco mais de reflexão. Outra etapa será convencer os meus pais a concordarem com essas ideias. Hoje lá na escola foi bem comum, como todos os dias de aula do ano passado. Eu, Ana, Arthur, Gabriel e Juliana ficamos ouvindo música no recreio e conversando sobre uma tal festa que Juliana quer fazer já que os pais dela vão viajar. Ela tá toda animada e quer fazer uma loucura na vida dela, uma coisa diferente. Bom, somos duas. Espero que ela decida mesmo fazer essa tal festa, seria uma boa extravasar e se divertir um pouco. Pelo menos, tentar.

- Eu não acho uma boa ideia, Juliana! Seus pais podem descobrir e tudo vai ir por água a baixo! Não é legal desobedecer os pais. – Gabriel insistia em estragar a ideia.
- Gabriel, ela não está sendo desobediente, ela não tá quebrando nenhuma regra. Pelo o que eu saiba, os pais dela não disseram nada sobre fazer uma festa, né, Juliana? – Realmente me empolguei com o assunto.
- Eles só disseram pra eu me comportar e me deram dinheiro pra emergência. – Juliana parecia dividida e confusa, nervosa com a conversa.
- Eu sei lá, gente... Concordo com o Gabriel. Vai que dá alguma coisa errada! – Ana falou, desconfiada e aflita.
- Não vai ser uma festa de arromba, gente! A gente toma cuidado com tudo e com todos, chamamos só os mais chegados e pronto. – Argumentei.
- Eu to com a Samanta. A casa da Juliana é uma mansão, imagina uma festa naquele lugar! Ia arrebentar! – Arthur falava todo empolgado e fascinado.
- Você acha, Arthur? – Os olhos de Juliana brilharam.
- Tenho certeza, cara. – Ele arregalou os olhos.
- Qual é, Ana! Gabriel! Vamos arriscar, fazer uma coisa diferente. A gente só vive uma vez! – Falei, os olhando.
- Pois é, gente! Que nem o One Direction diz: “Vamos viver enquanto somos jovens!” – Arthur exclamou, levantando os braços, querendo dar uma de engraçadinho. Eu e Ana fechamos a cara.
- Isso! Já sei! – Juliana gritou, animada. – Ana e Samanta! Vocês podiam ligar pra os meninos e pedirem pra quando eles virem no Brasil, cantarem na minha festa!
- Sou mais eu cantando. – Gabriel revirou os olhos, incomodado com o assunto.
- Concordo. – Comentei.
- Hã? Você o que, Samanta? – Arthur perguntou, não acreditando no que tinha acabado de ouvir.
- Ela tá doente ou o que, Ana? – Gabriel estranhou.
- Antes queria que ela estivesse. – Ana falou, triste, cabisbaixa. Todos ficaram em silêncio, sem entender o porquê se estarmos daquele jeito.

No mesmo instante, o meu celular começou a tocar. O tirei do bolso da calça e atendi a ligação.

- Alô?
- Hello. Who is it? Is Samanta? – Reconheci aquela voz.
- John, não acredito! É você mesmo? – Perguntei em inglês, totalmente surpresa e um pouco feliz. Era bom ouvir a voz dele, ouvir um sotaque britânico de leve.
- Sou sim, Samanta! Nossa, é tão bom ouvir a sua voz. – John me falou, feliz.
- Também é bom ouvir a sua. – Ri.

Arthur, Juliana e Gabriel me olhavam confusos, sem entender nada o que eu estava falando. Ana riu com a situação e falou para eles que eu estava falando com John, um amigo de Londres. Gabriel pareceu aborrecido.

- Saudades de mim? – Perguntei, brincando.
- Pra falar a verde, muitas. – John respondeu, todo fofo.
- Duvido!
- Estou morrendo de saudade, é sério! – Ele riu, me contagiando com o seu humor. Ri também. – E você, está com muitas saudades de Londres?
- De Londres, um pouco. De você, muitas!
- Nunca achei que escutaria isso de você. – John riu. – Meu primo, o Eric, ele não para de falar da sua amiga ruiva. Eu falei que ia te ligar e ele pediu o número dela! Falei que não prometia nada. E aí, o que você me diz?
- Desculpa, John, mas Ana não ficou muito interessada no seu primo. – Falei, constrangida. John riu alto.
- Na verdade, bom pra ela. – Rimos juntos. – Mas escuta, eu estou te ligando pra te contar uma novidade.
- Então conta logo, ué! – Falei, totalmente curiosa.
- Eu não te disse que faço faculdade de arquitetura aqui em Londres? – Ele começou.
- Disse!
- Então, o meu período de férias começou agora e eu tava pensando em passar uma temporada aí no Brasil.
- Isso é sério? – Perguntei, completamente surpresa e animada com a notícia. – Isso é demais, John! Demais!
- Pra falar a verdade, eu não estou só pensando. Já comprei a passagem, fiz hospedagem em um hotel aí do Rio e tudo. – Ele riu.
- Nossa, que menino rápido! – Ri. – Ai, finalmente uma notícia boa nesses dias. E você chega quando de viagem? Eu quero ir te buscar no aeroporto!
- Chego na sexta-feira, de 15:00h aí no Brasil. – John falou.
- Então eu e o Rio estamos te esperando de braços abertos! – Falei. – Mal posso esperar pra te ver.
- Nem eu a você. – John era realmente um menino bom.
- Olha, eu preciso ir agora, a minha aula vai começar! Nos falamos depois, John! – Me despedi.
- Tá bom, Samanta. Boa aula! Vai convencendo os seus pais a deixarem você ser a minha guia turística aí no Brasil, hein! Troca de favores. – Ri.
- Pode deixar! Beijo, foi ótimo falar com você!

Desliguei o celular. Ana já havia entendido tudo da minha conversa com John e eu contei sobre a vinda dele para o Brasil para Juliana, Gabriel e Arthur, super empolgada por sinal. John me fazia sentir bem, ele tinha um ar bom, era divertido e uma pessoa nova na minha vida, ele me animava. Ele era um bom colega. Mal podia esperar pra ele chegar! Se eu não posso estar na Inglaterra, que pelo menos um pedacinho dela venha até mim.

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