segunda-feira, 29 de abril de 2013

CAPÍTULO 50

Diário da Samanta
07 de março de 2013, sábado


                                                



Não senti nada ao beijar John. Era como se eu estivesse beijando uma parede. Meu coração não disparou, não senti aquele típico frio na barriga e muito menos soei frio. Na verdade, estava muito desconfortável com a situação toda. Enquanto o beijava, se passavam mil e um pensamentos na minha cabeça. Durante um tempo, até abri os olhos. Não era justo ficar ali correspondendo aquele beijo. John realmente gosta de mim, sente algo por mim. Eu não podia fingir que sinto o mesmo e continuar fazendo aquilo. Precisava, urgentemente, colocar um ponto final naquilo.

- John, por favor... – Sussurrei, meio abatida, logo após ter o afastado de perto de mim.

John me olhava, parado e em silêncio. Eu também olhava em seus olhos, aflita e pensativa com tudo que tinha acontecido. Pelo o meu olhar e minha expressão facial, ele já devia ter entendido tudo o que eu queria dizer. Talvez eu tenha dado muitos sinais para ele de que talvez, sentisse o mesmo que ele sente por mim. Sinais esses, muito errados. John era um ótimo garoto, respeitador e muito divertido, mas era impossível o olhar com outros olhos, além dos de amizade. Juro que queria poder dizer que estou apaixonada por ele e poder recomeçar com outro alguém, mas se fizesse isso, estaria mentindo para mim mesma.

- Não vai dizer nada? – John perguntou, quebrando o silêncio. Ele parecia desanimado.
- Isso não devia ter acontecido, John... Não faz sentido. – Comecei, muito confusa. – Nós somos amigos. Você não sabe como eu queria te corresponder e continuar esse beijo, mas querer não é poder... Você é tão especial para mim, John. – Desabafei, olhando para baixo. – Eu só não quero perder ou estragar essa amizade.
- Samanta, eu vejo nos seus olhos que você ainda gosta dele. Isso é mais que óbvio. - John segurou as minhas duas mãos, me olhando profundamente nos olhos. – Mas se você pelo menos me desse essa chance... Deixa eu te mostrar que eu sou melhor que ele, que eu posso te tratar do jeito que ele não foi capaz.
- Não é tão simples assim. – Lamentei, querendo chorar. – Certas coisas levam tempo, John. Elas não desaparecem tão rápido! Não é opção minha, não sou eu que faço as regras! É o destino! A vida! – Deixei as lágrimas escaparem, totalmente acabada.
- Eu sinceramente não compreendo, Samanta! – John se afastou, colocando as mãos na cabeça e olhando para cima, desentendido. – Não é ele que está aqui dizendo o quanto você é importante pra ele. Não é ele que veio até o Brasil te procurar! Não é ele que pensa em você todas as noites. Não é ele, Samanta. – John pousou suas mãos no meu rosto. - Sou eu.
- Você não pode me forçar a nada. E, muito menos, ficar jogando tudo isso na minha cara. Você não sabe o que se passa na cabeça dele! Nem na minha!
- Posso não saber, mas eu não sou tão estúpido ao ponto de não ver o quanto ele te faz mal, mesmo estando longe. – Ele parecia indignado.
- John, por favor, vai embora. Eu não quero ouvir mais nada! – Estava cansada daquela conversa, meu coração estava partido.
- É isso mesmo que você quer? – John me olhou, parecendo lançar um ultimato.
- É. É isso que eu quero.

Assim que ouviu o que eu disse, John balançou a cabeça lentamente e deu um sorriso desanimado, sem vida. Foi andando levemente para trás, ainda me olhando nos olhos. Finalmente, ele virou e foi embora, abrindo a porta da casa e sumindo. Foi difícil ver aquela cena, ver ele sair daquele jeito, decepcionado. Eu não queria magoar John, não queria de jeito nenhum! Eu só acho que ele não tinha o direito de ficar me dizendo tudo aquilo, como se soubesse de tudo. Se eu sofro por alguém que não me ama, o problema é meu, não dele! Se eu não signifiquei para o Harry o que ele significou para mim, não é da conta dele. Ele não percebia, achava que estava me ajudando e me convencendo, mas na verdade, estava acabando comigo. Além do mais, ele não pode me culpar por eu não sentir o mesmo por ele! Queria eu poder escolher e colocar os meus sentimentos em ordem. Ultimamente, essa tem sido uma tarefa bem difícil. Enxuguei as minhas lágrimas e olhei em volta, nenhum sinal de Juliana, Arthur, Gabriel, Ana ou alguém que eu conhecesse. Decidi procurar o banheiro mais próximo. Depois de andar um pouco, achei. Entrei e me olhei no espelho. Como suspeitava, a minha maquiagem estava completamente destruída e borrada. Limpei o meu rosto com papel toalha e água. Naquele momento, John devia estar pegando um táxi e voltando para o hotel. Droga. Por que não podíamos apenas nos divertir essa noite? Por que tinha que acontecer essa confusão, essa briga? Ambos tocamos em pontos muito fracos um do outro, não fomos justos consigo mesmos. Talvez, depois daquilo, ele nunca mais quisesse me ver. Não consigo suportar essa ideia, é horrível pensar nessa possibilidade! Nesse tempo, John se tornou quase um irmão para mim, um confidente, amigo, companheiro. Apesar de não querer estragar a nossa amizade, acabei fazendo isso sem nem me dar conta, sem nem perceber. Pelo jeito, eu sou mesmo intragável, todos querem se afastar de mim. Eu faço todos que amo irem para longe, de um jeito ou de outro. O problema, esse tempo todo, tem sido eu. Eu mesma, e nunca consegui ver isso. Se não tivesse escondido e omitido parte da minha vida para Harry, poderíamos estar juntos até hoje, não necessariamente eu estando lá com ele, mas juntos no sentido de termos um relacionamento, de eu poder chamá-lo de namorado e ele me chamar de namorada. Se eu não tivesse jogado as passagens de volta para o Rio na privada, lá em Londres, talvez teria poupado toda dor que sinto e Harry ainda quisesse me procurar, ainda pensasse em mim. Se eu parece de ser tão orgulhosa e egoísta, talvez Harry não teria se cansado de mim. Talvez se eu fosse menos impulsiva e boba, John ainda estaria ali na sala, dançando e rindo comigo. Como sempre, eu estou chorando, me lamentando pelos meus erros. Lamentando pelo passado que eu não posso mudar.
Atrapalhando os meus pensamentos, meu celular tocou. Número desconhecido, quem seria? Será que era John me ligando de algum orelhão, querendo resolver as coisas?


- Hello? – Falei, com esperança de John responder do outro lado da linha.
- Oh, finally! I was trying to call you all day (Ah, finalmente! Eu estava tentando te ligar o dia inteiro)! – Falou uma voz feminina. Definitivamente não era John.
- Com quem estou falando? – Perguntei, não reconhecendo quem era.
- Não acredito que não se lembra da minha voz, Samanta! Sou eu, Danielle! – Respondeu a voz, me deixando surpresa.
- Danielle, que bom ouvir a sua voz! – Falei, ainda desanimada. – Me desculpa, é que eu estou meio para baixo. – Decidi admitir.
- Pra baixo? O que houve? Me conta. – Danielle disse, totalmente compreensiva e solidária.
- Acho que você deve ter noção do que seja. – Abri o jogo.
- Ah, aquilo... – Ela disse, meio triste. – Olha, Samanta, não fica assim! Eu não quero te ver desse jeito, poxa! Faz tanto tempo que não ouço a sua voz, e quando ouço, ela tá tão triste assim? Nada disso! – Danielle era uma ótima amiga.
- Você tem tido notícias dele? – Perguntei, não resistindo. Queria saber sobre ele, precisava saber como ele estava.
- Eu vi ele há três dias atrás, eu e o Liam fomos à uma boate com ele e os meninos. – Ela explicou.
- Ele arranjou alguém? – Não resisti e perguntei aquilo. Era tudo que eu mais queria saber.
- Não sei a real resposta para essa pergunta... – Ela disse, receosa.
- Como assim? – Meu coração disparou, um medo imenso tomou conta de mim.
- É que ele deixou a boate acompanhado de uma mulher loira, uma modelo aí. – Danielle estava pisando em ovos para me contar aquilo. – Mas eles não devem ter nada, devem ser apenas amigos! – Ela tentou amenizar as coisas.
- “Amigos”... – Falei, com uma dor imensa no coração. – Que bom pra ele. Fico feliz. Ele merece.
- Eu nem devia ter te respondido. Viu como você está agora? Sabia que isso aconteceria! – Ela lamentou.
- Eu estou bem, Danielle. – Forcei um leve riso. – Eu preciso desligar agora, prometo que te ligo amanhã. Estou morrendo de saudade!
- Eu também, por isso mesmo que liguei! – Ela se importava comigo. – Não vou te atrapalhar, então! Vou ficar esperando a sua ligação!
- Ok, não vou esquecer. Tchau, beijo!

Que ela possa fazer ele feliz, porque a única pessoa que podia me fazer feliz naquele momento, eu não havia dado ouvidos. Já não estava mais ao meu alcance.

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