terça-feira, 2 de abril de 2013

CAPÍTULO 43

Diário da Ana
02 de março de 2013, segunda-feira

                                                  


É... tudo parece estar exatamente no mesmo lugar. A minha cama continua no canto direito do quarto, a minha parede continua com aquele adesivo de gato que, agora, nem tem mais tanta graça assim pra mim e os meus pôsteres continuam grudados no meu mural. Mas acho que algo mudou... este lugar não me conforta mais. Olhar para aqueles olhos no meu mural não me deixam mais alegre, dançar ao som do meu CD não é mais tão legal e agarrar o meu urso agora me parece coisa de criança. Como as coisas mudam em um mês. Um mês esse que poderia ter durado uma vida inteira, eu não me importaria, se quer saber. 
Apanhei o Harry do chão e comecei a acariciá-lo, pensando em um novo nome para dá-lo, afinal, toda vez que for chamá-lo vou me lembrar de momentos que eu preferia que nem tivessem existido, para assim evitar esse sofrimento todo. Até a minha alma dói, meu Diário. Os meus pulmões já nem tem mais tanto fôlego assim de tanto que chorei, aqui trancada nesse quarto, que agora nem sei mais se é meu. A Ana que um dia viveu aqui não é mais a mesma, ela se foi já tem um tempo.
― Larry, vem cá, Larry! ― Chamei, estalando os dedos.
Larry me olhou de cara feia e se enfiou debaixo da cama.
― Barry, vem cá, Barry. Vem, bebê, vem! 
Barry saiu da cama e eu esbocei um sorriso - ou pelo menos tentei esboçar um. Peguei-o no colo e comecei a fazer massagem na sua cabecinha.
― Êeh, bebê! Gostou do nominho?
Barry pulou do meu colo e foi até a porta e então começou a arranhá-la. Fui até lá e a abri. Assim que ele saiu, rapidamente a tranquei, não queria que ninguém me visse de olhos inchados. 
Abri as cortinas e logo o Sol adentrou todo o meu quarto. Franzi a testa, tentando enxergar alguma coisa em meio à claridade. Um tempinho depois meus olhos começaram a se acostumar com a luz e então eu pude enxergar o lindo arco-íris que havia lá fora, no jardim do condomínio. Isso só me fez ficar ainda mais triste. Tudo lá fora parece estar feliz e bonito, só aqui dentro que a tristeza fez questão de dominar. 
Fiquei a tarde inteira olhando para o céu, admirando-o. Todas as nuvens ali me lembravam... ele. Havia umas que eram idênticas ao formato de seu rosto e outras que pareciam as suas orelhas. Fiquei imaginando se ele estivesse aqui do meu lado... acho que riríamos à beça dessas minhas observações... 
Quando dei por mim, estava chorando. Aproveitei toda a nostalgia e fui compor uma música, para ver se a dor aliviava. Porém, eu acho que só piorou. Bem, vou transcrevê-la para cá, Diário:
Da janela do meu quarto o Sol parece tão próximo
Daqui eu posso ver o arco-íris
E as nuvens em formatos engraçados
Olha aquela, parece o seu nariz...
Aquela ali parece os meus olhos quando te enxergam
Eu acho que estou ficando obcecada
Obcecada por você
Tudo agora parece ter o seu formato
Eu já te disse que as minhas mãos adoram tocar os fios de seu cabelo? 
Dia desses pensei ter te visto
Mas aí lembrei que estamos há 6861 quilômetros de distância
Da janela do meu quarto você parece perto
Daqui posso sentir o seu cheiro
E enxergar os seus olhos azuis
Que tal fingirmos que nada daquilo aconteceu?
Que tal fingirmos que estamos perto?
Vai ver nós estamos mesmo...
Eu sinto que, aí onde você está, você pensa em mim
Assim como eu penso em você...
Mais tarde, o Sol se pôs e as nuvens desapareceram. Olhei para o relógio e vi que já eram oito da noite. Meu estômago roncou, fazia mais de seis horas que eu não comia absolutamente nada e também não bebia nada, nem água. 
Assoei meu nariz e logo em seguida lavei meu rosto, para tentar amenizar a minha cara de choro. Depois fui até a cozinha ver se ainda tinha sobrado o salmão do almoço.
Andar pelos corredores do meu apartamento me desanima profundamente. Até pouco tempo eu estava andando pelo quarto de hotel de Londres, onde... onde ele praticamente morava. Da vista de lá não se via janelas alheias e nem grama seca de condomínio, se via pontos turísticos incríveis e pessoas bem vestidas andando para lá e para cá. Eu podia sair de lá e dar de cara com ele. Aqui, se eu sair, o máximo que encontrarei é o moço das empadas de um real. 
― Por que você fica se maltratando desse jeito, Aninha? ― Perguntou o André assim que me viu completamente acabada.
― Tem comida? ― Falei, ignorando o seu comentário.
Ele suspirou e disse que tinha lasanha de caixa no freezer. "Lasanha de caixa no freezer"... em Londres eu comia lasanha de verdade, em um restaurante de verdade, ao lado da pessoa que sabia exatamente como me fazer feliz (e que também sabia exatamente como me fazer triste...).
― Como foi na escola?
― Horrível. Fotógrafos por toda a parte.
― Eu sinto muito...
― Eu sei que sente.
Isso foi o máximo que eu e o André conversamos desde o dia em que eu cheguei no Brasil. Nós dois mal havíamos nos olhado nos olhos, se quer saber, Diário. Eu nem sabia mais reconhecer se ele havia cortado o cabelo ou se estava com o mesmo desde a minha viagem.
Por mais que conversar com ele me animasse um pouco, eu não estava mais com saco de suportar ninguém, nem mesmo o André. Eu havia mudado da água para o vinho. Até meu cabelo sentiu a mudança. Os meus fios estavam quase todos desbotados, só se via um fio ou outro vermelho, o resto estava todo castanho. Eu não tinha mais ânimo para ir para o salão de quinze em quinze dias retocar a minha cor vermelha-cereja.
Eu lembro que um dia ele disse que era apaixonado pela cor do meu cabelo e que não me imaginava com outra cor a não ser vermelho. Agora eu fico imaginando se ele me visse com o cabelo castanho... Será que ele se desencantaria por mim? Bem, agora isso não importa mais. E foi até bom eu me desapegar daquele bendito vermelho que tanto me fazia lembrar ele. 
Cabelo novo, vida nova.

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