Diário da Ana
17 de fevereiro de 2013, segunda-feira
"Você está presente todos os dias, todas as tardes, todas as noites, bem aqui, no meu pensamento
Você está presente em cada sorriso, em cada esquina, em cada pessoa
Eu te vejo aqui e ali, todas as horas, todos os minutos
Eu te vejo ao meu lado amanhã e depois
Eu vejo os nossos olhos se olhando, as nossas mãos se sentindo, os seus braços me abraçando
Pode ser amanhã ou depois, eu espero
Pode ser no próximo verão ou no próximo outono, eu espero
Eu posso esperar as quatro estações se for preciso
Só peço que me espere também
Vamos nos esperar juntos?"
Sorri ao ler aquela letra de música. Eu a havia escrito em 2011, aos meus 14 anos, quando eu chorava a cada vez que me diziam que conhecer o "loirinho daquela banda que esqueci o nome" era impossível. "Quem dirá namorar com ele", essas palavras eram atiradas no meu peito a todo instante. Foi difícil permanecer com a fé e a esperança, mas eu permaneci.
Naquela época eu ainda não tinha você, Diário, então o meu maior e único refúgio era escrever canções que me motivassem a continuar lutando pelo meu amor - que muitos julgavam ser falso. Bem, agora eu posso provar para todos aqueles que me desestimularam que eu consegui, sim, não só conhecer, como quase namorar o Niall Horan. Esse "quase" é tão doloroso de ser escrito... me vem lágrimas nos olhos a cada vez que eu penso que eu quase consegui namorá-lo, que ele quase me amou, que o meu sonho quase se realizou, que eu quase fiquei muito tempo com ele, que eu quase mostrei a música para ele, que eu quase fiz com que esse "quase" sumisse da minha vida.
Nesse tempo em que ficamos juntos, a cada esquina que íamos, víamos de longe vários paparazzis escondidos tentando capturar uma boa imagem nossa. No início, eu adorava aquilo tudo e tentava aproveitar cada minuto de fama que eu tinha, pois eu sabia que logo, logo eu iria ser esquecida e outra notícia bombástica tomaria o lugar da minha. Porém, com o passar dos dias, eu fui ficando cada vez mais irritada com essa perseguição insistente dos fotógrafos E no dia seguinte sempre havia uma ou outra notícia mentirosa nos sites de fofoca, dizendo coisas do tipo: "Niall Horan está namorando uma brasileira", "Niall Horan está em um relacionamento de fachada" e afins. E tudo era mentira. Infelizmente ou felizmente, não sei. Bem, agora nada disso importa mais. Agora ele não quer me ver nem pintada de ouro. Os jornalistas que vão adorar saber dessa fofoca fresca. Infelizmente só eles...
De 11h00, duas horas antes de eu ir para o aeroporto (o meu voo e da Samanta seria às 16h00), fui até o saguão encontrar o Eric, primo do John.
Ele me ligou de manhãzinha dizendo que queria me encontrar antes que eu fosse embora para o Brasil. Segundo ele, provavelmente essa seria a nossa primeira e última conversa. Ele também disse que estava triste com isso, pois gostaria muito de ter me conhecido melhor. Como eu não poderia dizer "eu sinto o mesmo", disse apenas que sentia muito.
Cheguei na hora marcada, e ele já estava lá, me esperando.
― Oi, Ana! Que pontual! ― Ele estava todo sorridente.
Para não desapontá-lo, esbocei um leve sorriso.
Foi inevitável compará-lo com o Niall. Provavelmente se ele estivesse dentro daquela situação, diria apenas: "Oi, Ana!" e me daria um beijo junto com um abraço. Mas Eric é apenas um conhecido, não poderia sair me beijando por aí. E, bem, ele não é o Niall.
Eu tenho que parar de procurar o Niall em outras pessoas. Quando eu vou me tocar que nunca vou achá-lo?
― Oi...
Ele disse para eu me sentar ao seu lado no sofá e assim o fiz.
― Que tal... darmos um passeio? ― Sugeriu ele, meio inseguro ― Tem alguma sugestão de lugar?
Tive vontade de chorar e fugir dali o mais rápido possível. O Niall saberia exatamente aonde eu queria ir, de cor e salteado, sem precisar me perguntar nada. O Niall me lançaria um olhar sorridente e encantador, sem precisar sorrir exatamente com a boca. O Niall alegraria o meu dia. O Niall... é o Niall.
― Não. ― Respondi simplesmente, sem vontade até de estar ali.
― Hum... tudo bem, então. Ficamos aqui.
Nós não tínhamos nenhuma química, nenhum assunto, nada em comum. Eu quis dizer que eu o achava tedioso e monótono, mas aí eu feriria os sentimentos dele. Se é que ele tem algum sentimento. Esse garoto parece pensar só nele mesmo, fica batucando na mesa e nem sequer se dá ao trabalho de puxar algum assunto.
Ficamos uns vinte minutos sem falar absolutamente nada um com o outro. Ele ficava discando em seu celular e eu ficava olhando a paisagem, imaginando como seria se o Niall estivesse ali. Ele jamais deixaria o silêncio reinar no meio de nós, dependendo da situação.
Até que o Eric olhou para o relógio, bufou e disse:
― Você vai ficar mesmo sem falar nada? Olha, eu não te fiz nada para você me tratar desse jeito indiferente. Eu tento puxar assunto e você responde pela metade. Parece até que é monossílaba.
Eu fiquei muito irritada e magoada quando Eric me disse aquilo. Ele falou em um tom tão grosseiro e arrogante que eu acho que o hotel inteiro sentiu as minhas dores.
Tive vontade de chorar, mas eu não queria me mostrar vulnerável na frente dele, um covarde estúpido.
― Hum. ― Falei, engolindo todo o meu choro e ódio.
Se eu abrisse a boca, era capaz de o choro escapulir, então preferi permanecer calada.
Ele ficou um tempo com os olhos cravados em mim, enquanto eu olhava para baixo, sem coragem de encará-lo. Comecei a ficar assustada, pois se passaram uns dois minutos e ele continuou a me fitar.
― Você realmente não vai falar nada? ― Ele disse de repente, fazendo eu quase dar um pulo de susto ― Quer saber? Eu vou embora. Você é muito chata, garota. Eu só fiz perder meu tempo vindo aqui.
E então ele se foi, me deixando com a maior cara de trouxa, parada olhando para o nada. Assim que o perdi de vista, desabei. As lágrimas caíam a cada segundo e o soluço aumentava mais e mais.
Estava me sentindo um nada, uma qualquer. Ele falou de uma forma tão arrogante que doeu até a alma. Queria tanto que o Niall estivesse lá para me defender... É uma pena que não podemos ter tudo o que queremos. E eu nem quero tantas coisas assim... apenas o Niall.
Fui andando de cabeça baixa até o elevador, completamente desolada. Só quando eu entrei no elevador e apertei o número do meu andar que fui perceber que havia uma senhorinha bem ao meu lado, de chapéu e óculos escuros. Os cabelos dela eram bem acinzentados, mas a sua pele quase não tinha rugas.
Fiquei me sentindo um pouco incomodada, pois o elevador estava num completo silêncio, só se ouvia o meu soluço.
Até que a senhora tirou os óculos, deixando à mostra um belo par de olhos azuis, e os guardou dentro da bolsa.
― Não fique assim, querida... ― Falou ela, em inglês, de repente.
A olhei incrédula, procurando uma resposta do por quê ela ter me dito aquilo.
― Você não tem motivos para lágrimas ― continuou ela ―, apenas para sorrisos.
Assim que ela me disse aquilo, o meu andar chegou. Saí do elevador calada, refletindo cada palavra que ela havia me dito.
O que será que ela quis dizer com "Você não tem motivos para lágrimas, apenas para sorrisos"? Bem, eu não sei. Só sei que, depois disso, fiquei até um pouco mais alegre.
Entrei no quarto e me deparei com a Samanta guardando os seus últimos pertences em sua mala. Me bateu uma tristeza no instante em que vi aquilo, mas no fundo eu acreditava que não iríamos viajar, que o Niall, no último minuto, apareceria no aeroporto e nos impediria de entrar no avião. Vai ver que esse é o motivo daquela senhora ter me dito aquilo no elevador...
Tomei um banho rápido, me arrumei e fui conferir as minhas três malas, para ver se eu havia realmente guardado tudo. Depois de ter conferido, descemos para o saguão para esperar o Sandro acertar as últimas coisas da nossa hospedagem.
Alguns minutos mais tarde, entramos no carro e fomos em direção ao aeroporto.
Durante o caminho, nenhum de nós três falou absolutamente nada. Eu e a Samanta estávamos ocupadas demais com os nossos pensamentos, com as nossas angústias e tristezas. E a cada rua que o carro passava, indicando que estávamos cada vez mais próximos do aeroporto, meu coração acelerava. Eu não queria acreditar que o Niall estaria lá me esperando, porém, por mais que eu tentasse, eu acreditava fielmente naquilo. Tudo o que eu menos queria naquele momento era me decepcionar mais uma vez.
Antes, nós demos uma rápida passada em um local para devolver o carro alugado, e então fomos para o aeroporto.
Assim que pisei naquele local enorme, gelado e que dá frio na barriga, não pude evitar e então comecei a olhar para todos os lados, procurando algum garoto lindo, loiro e baixinho. Procurei, procurei e... nada. Bem, ele poderia ter se atrasado.
Enquanto o Sandro resolvia toda aquela burocracia para poder viajar, eu e a Samanta aguardávamos em um banquinho, de frente para uma livraria.
Nós duas estávamos muito caladas, distantes, lamentando a nossa volta para o Brasil mentalmente.
Tudo isso ainda parece inacreditável. Eu não consigo acreditar que estou realmente voltando para o meu país. Se eu pudesse, moraria para sempre aqui em Londres, para pelo menos fingir que eu tenho o Niall ao meu lado.
Uma hora e meia mais tarde, uma voz feminina ecoou por todo o local que estávamos, chamando o nosso voo.
Me deu um frio na barriga imenso e uma vontade de chorar maior ainda.
Olhei por uma última vez para os lados, ainda com esperança que ele aparecesse de repente, acenando para mim e pedindo que eu não viajasse.
Quando eu percebi que realmente ninguém apareceria para se despedir de nós (quer dizer, de mim, já que o John veio para se despedir da Samanta...), me vi chorando.
Assim que eu entrei na sala de embarque, a ficha caiu. Eu estava voltando para o Brasil e deixando para trás tudo o que eu demorei para conquistar. Eu estava voltando à estaca zero. Eu estava voltando para a parte da minha canção que dizia "Eu te vejo ao meu lado amanhã e depois". A parte em que eu ainda não tinha o Niall, mas sentia que um dia o teria. Agora, naquela sala de embarque, eu sentia isso, exatamente como antes.
Pode ser amanhã ou depois, eu espero.
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Final da 1º temporada

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