sábado, 25 de maio de 2013

CAPÍTULO 57

Diário da Ana
13 de março de 2013, sexta-feira

                                                       


Sexta-feira treze. Antigamente eu costumava temer este dia, mas hoje eu não me importo, considerando que desde que voltei de Londres o meu calendário parece marcar todos os dias sexta-feira treze. 

Só que hoje, especialmente hoje, a minha sexta-feira treze foi de sorte e alegria. Ah, e... muita, muita esperança! 
E não, não é por causa da banda. Quer dizer, não é só por causa da banda. Bem, estou dando tantas pistas que eu acho que você já sabe o que é.
Antes de eu revelar o que me fez ficar assim, tão contente, vou contar um pouco sobre as novidades da proposta que o John nos fez ontem.
Assim que a Samanta saiu da minha casa, ela logo me ligou. Passamos horas no telefone e eu quase que não dormi de tanto escutar a Samanta falar. Pois é, é isso mesmo que você está lendo, Diário: a Sam estava tagarela. Dá para imaginar? 
Ela passou quase que a madrugada inteira me perguntando se ela deveria aceitar a proposta de seu namorado (como soa estranho escrever isso). Eu, é óbvio, respondia que com certeza sim, que será a nossa chance de alcançar o estrelato, de realizar o nosso sonho - pois eu sei muito bem que no fundo, no fundo a Sam sempre desejou ser uma cantora famosa. 
Um pouco mais tarde, ainda não convencida de meus argumentos, a Sam disse que não iria aceitar, que era loucura. Então eu resolvi apelar: 
― Poxa, Samanta, poxa! ― Lamentei. ― Lembra quando subimos no terraço do meu prédio e fingimos que aquilo era um palco e lá em baixo era a platéia? Nós nos acabamos de dançar e cantar as nossas músicas prediletas daquela época. Foi incrível... Eu lembro até que, quando terminamos de brincar, eu disse: "Me promete que, um dia, ser cantora não será mais uma brincadeira? Será realidade?" e então você respondeu: "Prometo". ― Sam estava calada. ― Eu acho que a hora de você cumprir essa promessa chegou. 
― E eu acho que você está voando alto demais. ― Falou ela simplesmente, orgulhosa. ― Não se cumpre esse tipo de promessa. 
― Que tipo de promessa? ― Me alterei. ― Uma promessa impossível? Ah, me poupe, Samanta. Até você? Lembra que também era impossível conhecer o One Direction?
Ela se calou do outro lado da linha e então eu percebi que as minhas palavras a tocaram.
― Você tem toda razão. ― Respondeu ela depois de um tempo. ― Chegou a hora de eu cumprir a minha promessa.
― Isso quer dizer que...?
― Que eu aceito fazer parte da banda.
Eu não sabia se gritava e acordava a vizinhança inteira ou se corria até a casa da Samanta para abraçá-la até não poder mais.
Emoção, felicidade, alegria, empolgação... era tudo fichinha para o que eu estava sentindo naquele momento.
Fui dormir sorrindo e acordei também sorrindo. Até me esqueci de olhar o calendário. 13 de março de 2013, sexta-feira.
― Bom dia, família! ― Exclamei, sentando na mesa. ― Eba! Bolo de ameixa!
Todos, que estavam acostumados a me ver cabisbaixa, me olharam incrédulos.
― Posso saber o motivo dessa felicidade toda, minha filha? ― Perguntou o meu pai, cortando o seu pão francês.
― Não quero contar agora pra vocês... Vou manter em sigilo o motivo da minha felicidade, para ela não acabar fugindo de mim. 
― Bom, o importante é que a minha boneca está feliz. ― Falou a minha mãe, colocando um pouco de café com leite na minha xícara. 
― Eu mereço! ― Disse o André do nada. ― O que esse babaca está fazendo na TV? ― E então ele logo se levantou para desligar a televisão.
Virei para trás e então eu vi. Vi do que o André estava se referindo. Estava passando, ao vivo, um show do One Direction.
Só em saber que era ao vivo já me deu um friozinho na barriga. 
É estranho saber que naquele exato momento o Niall estava lá, em cima daquele palco, cantando para um tantão de gente. 
Vira e mexe eu me pegava perguntando: "O que será que o Niall está fazendo nesse exato momento?". E agora eu sabia o que ele estava fazendo. Foi por isso que logo me apressei em dizer: 
― Não, André! Não desliga. Deixa aí. Por favor. 
Ele bufou e atendeu ao meu pedido, voltando para a mesa com a maior expressão de ódio.
Me levantei da cadeira com o meu pedaço de bolo e me sentei no sofá, em frente à TV. Por coincidência, o Niall estava dizendo alguma coisa, mas o volume estava muito baixo, então eu logo aumentei no máximo. 
― Aonde você estiver, quero que saiba que, hoje, eu dedico esta música à você, meu amor de verão. ― Dizia o Niall, enquanto a melodia de Summer Love invadia o local.
Meu coração gelou.
A platéia foi à loucura com as suas belas e tocantes palavras. Enquanto aqui, o meu coração ia à loucura.
O Zayn começou a cantar e eu só conseguia repassar na minha mente as palavras ditas pelo Niall. A ficha ainda não havia caído. 
Eu simplesmente não posso acreditar que a garota mencionada por ele era... eu. Todas as meninas presentes ali, literalmente todas, não só desejavam ser aquela garota como a invejavam. E aquela garota era EU. Talvez a minha ficha nunca caia. 
Eu paralisei. Ele começou a cantar.
― Cause you were mine for the Summer, now we know its nearly over. Feels like snow in September, but I always will remember, you were my Summer love. You always will be my Summer love.
As lágrimas rolavam pelo meu rosto sem que eu percebesse. "Você sempre será o meu amor de verão...". Como estas palavras confortaram o meu coração. 
Naquele instante eu percebi que a esperança não é a última que morre. A esperança simplesmente não morre.
Quando eu já estava esperando que a voz do Louis saísse, veio no lugar dela a do Niall. Ele estava cantando a parte do Louis. E ela é justamente a minha parte preferida da música.
― Wish that we could be alone now. If we could find some place to hide, make the last time just like the first time, push a button and rewind.
― Isso é demais pra mim! ― Falei, entre um soluço e outro.
O aperto no meu coração era enorme. Eu só queria poder entrar dentro da televisão e abraçá-lo. Abraçá-lo para sempre. Eu quero de volta a sensação de tê-lo por perto. De tê-lo para mim. Só eu sei o quanto doí essa distância, tanto literal quanto metafórica. 
Todo o encanto se desfez quando o André parou de frente para mim, de braços cruzados, tampando a televisão.
― Ana, para de se torturar desse jeito. Você sabe muito bem que ficar vendo essas coisas não vai mudar nada. O que passou, passou. ― E então ele se sentou ao meu lado e ficou acariciando as minhas costas. ― Ficou para trás. Já está mais do que na hora de você seguir em frente, não acha?
― Mas eu vou seguir em frente, André. ― Falei, fungando. ― Aliás, já estou seguindo em frente. Eu vou mostrar para ele que aquela que ele conheceu era o tempo todo eu. Eu nunca fui outra pessoa além de mim. 
― Você não precisa provar nada para esse cara, Ana. Se você está com a consciência limpa, ótimo. É apenas isso que importa. ― Disse o André. ― Bom, por falar nisso, você está atrasada para a aula. E, nesse momento, é apenas isso que importa.
Nós dois começamos a rir.
Perto do André eu sempre sou uma pessoa feliz.
Entrei na sala de aula pouco antes do sinal tocar. Meu coração estava disparado por eu ter corrido todos os trinta e seis degraus até o segundo andar.
― Oi, gente! ― Exclamei, ofegante, pendurando a minha mochila atrás da minha cadeira.
― Oi!!! ― Falou a Ju, vibrando, por algum motivo, de emoção. ― Como vai, srta. Horan?!
O Gabriel deu um risinho, já o Arthur e a Sam estavam com expressões sérias.
― Vocês também viram? ― Disse, com um sorriso de orelha à orelha.
― Eu não acredito, Ana! ― Falou a Sam. ― Que sorriso é esse na cara? O plano não era esquecê-los?
Meu sorriso logo se apagou.
― Eu sei... Mas é que, Sam, se ele dedicou àquela música para mim, significa que ele ainda gosta de mim!
A Sam revirou os olhos e disse:
― Ele não gosta de você e nunca gostou. Porque se gostasse, não teria te despachado daquela maneira e não estaria com a Amanda agora. Ou você se esqueceu disso? ― É, eu havia me esquecido. ― Sem falar que, como ele mesmo disse, você foi apenas um amor de verão. E o verão já passou, junto com o amor dele por você. 
Aquelas palavras foram tão cruéis que pareceram facadas no meu coração. Mas talvez a Samanta tenha mesmo razão. Eu não devo alimentar as minhas esperanças e fazer papel de boba novamente. Como o André mesmo disse, já está mais do que na hora de eu seguir em frente. E é exatamente isso que eu vou fazer. Só que na direção contrária que a Niall, para eu não correr o risco de esbarrar com ele por aí.
Sentei na minha carteira e não abri a boca para falar mais nada.
De repente o meu celular vibrou. Peguei-o disfarçadamente para ver o que era. Era uma mensagem do Jota, e nela dizia:
"A proposta ainda está de pé?"



                                              

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