sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 15

Diário da Ana

23 de janeiro de 2013, quarta-feira



Disquei os números do telefone da Amanda e botei no viva voz. A cada chamada, eu e a Samanta ficávamos mais apreensivas. Seis chamadas mais tarde, ela atendeu.
― Alô?
― Amanda? Sou eu, Ana!
― Ah, oi, Ana! Tudo bom?
― Uhum, tudo sim... Estou te ligando para saber se o almoço de hoje ainda está de pé...
― Claro, linda! Inclusive já está quase na hora, né? Vou só avisar para os meninos que vou dar uma saidinha rápida e depois encontrarei eles no estúdio.
Meu coração gelou.
Afastei o telefone e comecei a gritar em silêncio, vibrando junto com a Samanta. Estávamos a ponto de jogar o celular pela janela de tanta empolgação e alegria. "Vou só avisar para os meninos que vou dar uma saidinha rápida"... aquelas palavras não saíam da minha mente.
Engoli, com muito esforço, toda a minha empolgação e disse:
― Ah... claro, sem problemas... Daqui há quarenta minutos nos encontramos no saguão, então?
― Fechado! Espero vocês lá! Um beijão!
― Outro!
Assim que desliguei o celular, eu e a Samanta nos olhamos, sorrimos e demos o maior grito da história da humanidade! Jogamos todos os travesseiros no chão e começamos a pular em cima da cama, berrando muito, feito duas estéricas.
Quando nos demos conta, faltava apenas meia hora para encontrarmos com a Amanda no saguão, então fomos correndo nos aprontar.
Tomei um banho, fiz babyliss nos meus cabelos, depois os prendi em um rabo de cavalo e me maquiei (sem esquecer, é claro, do meu velho amigo olho de gatinho e batom vermelho), para ficar ao menos apresentável. Depois revirei o armário inteiro procurando uma peça bonita, até que encontrei um vestidinho florido lindo. E, para finalizar, coloquei um salto alto amarelo, para me dar uns dez centímetros a mais (não queria ficar constrangida perto da Amanda, que deve ter uns 1,75 – ela parece uma das modelos da Victoria Secret's).
Avisamos para o Sandro que iríamos dar uma saidinha e que não era para ele se preocupar (e muito menos avisar para os meus pais), pois iríamos com uma amiga de confiança. Demos uma olhadinha rápida no espelho, para conferir se estava tudo ok, e voamos para o saguão. A Amanda já estava lá – mais linda do que nunca (fiquei até com uma invejinha branca dela).
― Amanda! ― Exclamei, ainda um pouco ofegante por ter ido de escada ao invés de elevador (não tínhamos tempo para esperar a boa vontade dele).
― Meninas! ― Ela disse, mostrando os seus lindos dentes brancos e perfeitamente alinhados ― Como vocês estão lindas! Querem arranjar algum gatinho inglês, é?
Nós três rimos e fomos em direção ao carro da Amanda, que por sinal é muito chique e... vermelho! Minha cor favorita – e provavelmente a dela também!
― E então, meninas, aonde querem almoçar?
― Hum... ― Fingi estar pensando ― que tal no Nando's?
A Samanta deu um risinho e me lançou uma piscadela.
― Ótima escolha, Ana! A comida de lá é simples e gostosa! ― Falou Amanda, me olhando pelo retrovisor.
Concordei, com ar de riso. Mal ela sabia que eu não estava indo no Nando's exatamente pela comida...
Conversa vai, conversa vem, até que chegamos no nosso tão desejado destino...
Ao entrarmos, não pude deixar de reparar em cada detalhe do restaurante, imaginando o Niall em uma das mesas, pedindo o seu prato com aquele seu sorriso lindo e encantador. Estava tão esperançosa que até cheguei a cogitar que ele estivesse no banheiro, mas quinze minutos se passaram e nenhum irlandês lindo e loiro saía de lá de dentro. Fiquei um pouco triste, mas logo me animei quando o meu prato chegou: frango picante com batata frita e milho. Novamente não pude deixar de imaginar o que o Niall pediria se estivesse aqui... será que o mesmo que eu pedi?
A Samanta e a Amanda pediram o mesmo prato: taco, arroz e milho.
– Hum... isso aqui tá muito bom! ― Dizia a Samanta enquanto mastigava ― Muito bom mesmo!
― Samanta! ― Falei, em tom de brincadeira ― É falta de educação falar de boca cheia!
A Amanda deu um risinho para descontrair e pediu licença para atendar a um telefonema. Eu e a Samanta nos entre olhamos, prestando atenção em cada detalhe da conversa.
― Alô? ― Disse ela em inglês para a tal pessoa do outro lado da linha ― Ah, eu vou me atrasar um pouquinho, tudo bem? Eu estou aqui no Nando's com umas colegas... Desculpem, não estava nos meus planos.
Meu coração gelou só de imaginar com quem ela estaria falando...
― Ah, então tudo bem. Se vocês querem vir... Eu encontro vocês aqui, então. Um beijo! Ok, tudo bem... Até daqui a pouco. Outro!
A Amanda desligou. O meu coração estava batendo tão forte e tão alto que eu estava vendo a hora de alguém escutar.
Eu – e percebi que a Samanta também – não queria ser indiscreta e perguntar com quem ela estava falando, por isso fiquei esperando que ela mesma dissesse.
― Era os meninos do One Direction. ― Falou ela, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Meu coração deu um pulo, rodopiou, andou de monta-russa e ainda saltou de paraquedas no exato momento em que ela disse aquelas seis palavrinhas mágicas.
Tenho que te confessar uma coisa, Diário... foi extremamente difícil vibrar apenas interiormente. A minha vontade era de sair gritando e pulando pelas mesas, comer todas as batatas fritas que tenho direito e nem me preocupar com a conta depois. Mas eu não fiz nada disso, é claro.
― Ah... eles vão vir para cá? ― Disse, forçando desinteresse ― Se quiser nós podemos ir embora, para não atrapalhar...
― É... nós podemos ir. Vamos entender, é sério. ― Completou Samanta, me apoiando.
Nós sabíamos que ela iria recusar, afinal, não correríamos um risco desses se não soubéssemos.
― Ah, não, meninas! Que besteira! ― Disse a Amanda e eu e a Sam demos um leve suspiro de alívio ― Vocês podem ficar, não vai ser nada demais. Na verdade, vai ser uma reunião bem informal, só os meninos vão vir mesmo.
― Então tudo bem... ― Falou a Sam ― Só não queremos atrapalhar.
― Mas vocês não vão, meninas. Sem cerimônia comigo, ok?
Uns quinze minutos se passaram e o meu coração só acelerava. Eu não sei se conseguiria aguentar olhar para frente e dar de cara com seis maravilhas entrando e vindo em direção a nossa mesa. Eu estava com muito medo de começar a chorar e a Amanda perceber que eu sou fã deles.
Eu esperei tanto por esse momento... Tanto. Ainda não tinha caído a ficha de que a qualquer momento eles apareceriam bem na minha frente e almoçariam comigo. Isso é bem mais do que eu imaginei. Muito mais, aliás. Na minha cabeça só iríamos nos olhar por três segundos, bater uma foto e darmos um último abraço de despedida. Porém, naquele momento, aconteceria algo muito mais duradouro e eu poderia até virar amiga deles. Era a minha chance, eu simplesmente não podia desperdiçar ela. Nem eu e nem a Samanta.
Repassei na minha cabeça tudo o que a Sam havia me dito umas horas atrás: para eu não me comportar como uma fã estérica e começar a chorar e berrar. Era para eles me enxergarem apenas como a amiga da garota da produção, para assim ser mais fácil ganhar a confiança deles.
― Eles chegaram. ― A voz da Sam saiu falha.
Levantei a minha cabeça e fui hipnotizada por um garoto baixinho, loiro e de lindos olhos azuis andando em nossa direção.
Minhas mãos começaram a tremer muito (quando eu digo muito, é muito mesmo)e a suar frio.
A cada passo que eles davam, se aproximando mais e mais de nós, o meu coração palpitava muito mais rápido.
Percebi que a qualquer momento eu desabaria em lágrimas, então fechei os meus olhos com bastante força e logo em seguida abri. Felizmente consegui controlar o choro.
Eles pararam em frente a nossa mesa.
Eu estava tão gelada que pensei que fosse desmaiar.
― Oi, Amanda! ― Disse o Louis, sorrindo, e então se virou para nós ― Oi, meninas!
Eu gelei.
― Oi... Louis? ― Disse com a voz trêmula, fingindo não saber direito o nome dele, quando na verdade eu sabia até a data de nascimento de seus pais.
― Isso! Louis! ― Ele respondeu, todo simpático, e se sentou ao meu lado.
― Bom, meninos, essas daqui são as minhas colegas, Ana e Samanta. ― Falou a Amanda, nos apresentando.
Cada um deles nos cumprimentou, apertando as nossas mãos.
Mas foi o cumprimento de um que me paralisou.
― Prazer, Ana. ― Ele disse, apertando a minha mão, sorrindo e com os olhos cravados nos meus ― Sou o Niall.
Fiquei um tempo paralisada 
– e fazendo o possível e o impossível para não chorar –, sem querer soltar a sua mão. Até que ele ficou meio sem graça e se sentou na minha frente, ainda segurando a minha mão – na verdade, eu que estava segurando a mão dele (mas prefiro acreditar que foi o contrário).
― Bom, Nanda... primeiro nós vamos querer almoçar, ok? Depois a gente fala sobre negócios. ― Falou Niall e todos riram, descontraídos.
Eu comecei a rir também, com os olhos marejados e o choro entalado na garganta. Eu estava dentro do grupinho de amigos deles... eu estava rindo com as gracinhas do Niall, assim como eles riam nos vídeos diários que faziam. Eu só podia estar sonhando.
― Mas é sério, gente! Eu não como desde cedo. ― Niall se justificou.
― Todos nós não comemos desde cedo, Niall! ― Disse o Harry, com seu charmoso sotaque inglês.
Eles não pareciam reais. Por mais que estivessem bem na minha frente, eu custava a acreditar que eles eram realmente de verdade. Estava tão acostumada a vê-los pela TV que, vê-los assim, pessoalmente, me parecia surreal, um sonho que logo acabaria. Eles eram tão iguais as fotos... pareciam até ter saído de um dos meus pôsteres e criado vida.
― Eu acho que vou pedir um sanduíche de presunto... ― Falou Liam, olhando para o cardápio.
Quando virei rapidinho para o lado, reparei que, do outro lado da mesa, a Sam já estava batendo o maior papo com o Harry. Confesso que morri de inveja (branca, é claro). Como ela conseguiu arranjar um assunto assim tão rápido? Eu precisava pensar em algo para falar com o Niall...
Mas ele foi mais rápido.
― Você é daqui de Londres? ― Perguntou o Niall, olhando para mim.
Eu ainda não havia me acostumado com a presença deles. Assim que ele me perguntou aquilo, meu coração palpitou ainda mais rápido.
Cadê aquela Ana faladeira e super sociável? Justo na hora que eu mais preciso dela, ela simplesmente desaparece.
Fiquei um tempo sem saber o que responder, sem saber de onde eu vim e o que eu estava fazendo em Londres. Até que o Niall repetiu a pergunta, provavelmente achando que eu não tivesse escutado.
― Ah, não... eu sou do... ― De onde eu sou mesmo? ― do Brasil. E você?
É claro que eu sei de onde ele é. Sei de cor e salteado.
― Ah, bem que eu percebi que você não era daqui! Eu sempre quis conhecer o Brasil, dizem que lá é muito bonito. ― Eu estava tão hipnotizada pelos seus olhos que não consegui escutar meia palavra do que ele estava dizendo ― Eu sou da Irlanda.
― É, o Brasil é muito lindo mesmo. Por quê não nos faz uma visitinha qualquer dia desses? Garanto que as suas fãs iriam adorar! ― Ri um pouquinho, para descontrair e fingir que, para mim, ele não passava de um garoto normal e fofinho.
Niall também riu, ainda com os olhos cravados nos meus.
― É um pouco complicado... mas nós estávamos pensando mesmo em ir para o Brasil, quando a nossa agenda deixar.
Eu nem reparei no que os outros estavam fazendo, parecia que só havia eu e o Niall naquela mesa e que o resto do mundo havia congelado.
Eu ri e disse:
― Ao contrário da sua, a minha agenda é bem liberal, ela deixa tudo... ― Niall começou a rir e eu vibrei por dentro ― Sabe, eu ainda estou no segundo ano do ensino médio e só sou famosa no meu condomínio.
Ele então começou a rir ainda mais, me fazendo a garota mais feliz e sortuda do mundo.
― Você é muito engraçada! ― Disse ele aos risos ― Antes nem no meu condomínio eu era famoso!
Eu comecei a gargalhar – só não sei pelo quê, exatamente. Eu estava tão boba de felicidade que se ele falasse "pudim" eu teria um ataque de riso.
― Estamos parecendo dois bobos rindo! ― Falei, rindo ainda mais ― É melhor você pedir a sua comida agora.
Niall foi parando de rir aos poucos.
― Tem razão! ― Disse ele ― Vou pedir o mesmo que o seu. Acho que além de bobos, temos o mesmo gosto.
Meu coração conseguiu a proeza de palpitar ainda mais rápido no instante em que ele disse aquilo. Parece que foi há um segundo atrás que eu estava pensando no que o Niall pediria se estivesse aqui comigo no Nando's. E agora ele realmente estava. E ia pedir o mesmo que o meu.
Enquanto o garçom não chegava com o pedido do meu agora colega Niall (nem acredito que estou escrevendo isso! O André vão pirar quando eu contar!), ficamos conversando sobre tudo: colégio, Irlanda, Brasil, fama e várias outras coisas.
― Eu gosto de cantar, mas é só um hobby mesmo, sabe? Meu sonho mesmo é ser veterinária.
Eu omiti um pouquinho – mas só um pouquinho –, porque, na verdade, o meu sonho é ser uma cantora famosa e ser veterinária, para cuidar de todos os gatinhos doentinhos e cachorrinhos.
― Ah... depois eu vou querer te ver cantar, viu?
Meu coração gelou.
Depois ele queria me ver cantar? Então isso significa que vamos nos encontrar outra vez! Significa que ele quer se encontrar comigo outra vez!
― Tudo bem... ― Disse, um pouco sem graça 
– ele iria se decepcionar ― Você tem algum animalzinho de estimação?
Gata chamada Jess.
― Tenho uma gata chamada Jess e você?
― Sério??? ― Me fingi de surpresa ― Eu tenho um gatinho chamado... ― Droga, droga, droga! ― Harry.
O Niall teve um ataque de riso.
― Harry? ― Ele não conseguia parar de rir.
― O que foi? ― Estava me surpreendendo cada vez mais com o quanto eu podia ser sonsa, sínica e mentirosa.
― O que foi aí, ein? ― Perguntou o Zayn, rindo um pouco, contagiado pela risada do Niall.
― O gato da Ana se chama HARRY! ― Respondeu Niall, com a mão na barriga, provavelmente sentindo dor de tanto rir.
É tão lindo ouvir o meu nome saindo da boca do Niall... Meu estômago embrulha só de lembrar.
De repente, todos da mesa começaram a gargalhar – inclusive a danadinha da Samanta, que uma hora daquelas já deveria estar trocando telefone com o Harry.
― Eu preciso conhecer esse gato xará do Harry! ― Falou o Louis, rindo à beça.
Depois do que pareceram horas rindo (e eu vermelha de tanta vergonha), eles finalmente pararam e voltaram a conversar entre si. Apenas eu e o Niall estávamos separados do grupinho de conversa deles – parecíamos até um casal apaixonado...
Quando todos terminaram de comer, a Amanda disse que ela e eles teriam que ir embora, pois estavam um pouco atrasados para uma reunião. Meu coração se despedaçou em mil pedacinhos. E se eu nunca mais voltasse a ver o Niall?
Eu disse que, para não atrapalhar, eu e a Samanta poderíamos pegar um táxi de volta para o hotel, já que não contribuímos em nada para pagar a conta do almoço 
– por mais que tivesse sido barata –, esse era o mínimo que podíamos fazer.
Todos se despediram de mim. O Niall foi o último.
Ele estava de pé, se despedindo da Samanta (percebi que, com ela, ele apenas deu um abraço normal), quando olhou para mim, deu um sorriso e foi vindo em minha direção.
Assim que ele chegou mais perto, minhas mãos começaram a suar frio e minhas pernas ficaram bambas. Ele me deu um abraço de seis segundos (sim, eu contei) e logo em seguida um beijo na bochecha. Depois se afastou um pouco, olhou bem nos meus olhos e disse:
― Tchau, Ana... Adorei conversar com você!
― Eu também! ― Sorri ― Nos vemos depois, então?
Ai, Diário... eu não resisti!
― Claro! ― Ele disse, pegando algo do bolso – dois segundos mais tarde percebi que era o seu celular ― Qual é o seu número?
Meu coração congelou.
Comecei a ditar o número do meu celular com a voz trêmula, rezando para que ele não notasse.
― Eu te ligo, então! ― Ele disse, sorrindo, sem desgrudar os olhos dos meus – percebi que eles estavam brilhando um pouco... (não me chame de iludida, Diário!).
Por fim, Niall me deu um último abraço e se foi, juntamente com os outros.
Quando perdemos eles de vista, dei um suspiro, olhei para Samanta e... começamos a chorar.

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