Diário da Ana
21 de janeiro de 2013, segunda-feira
De repente, começou a me dar um frio na barriga, uma cólica insuportável.
― Meu Deus, é daqui a pouco. ― Falei, andando de um lado para o outro, completamente nervosa e ansiosa ― Faltam só cinco horas.
Meu irmão, que também estava andando de um lado para o outro (não de ansiedade – ele estava apenas tentando me alcançar), falou:
― Ao invés de você ficar aí andando pelo apartamento, você devia ir dormir para descansar um pouco.
Parei de me movimentar e o olhei, completamente indignada.
― Dormir? Você realmente acha que eu vou conseguir dormir? ― Comecei a forçar um riso ― Certamente você nunca teve que esperar cinco horas para decolar em um avião com destino a Londres!
Eu estava enlouquecendo de ansiedade. Eu não sabia nem mais diferenciar se o que eu estava sentindo era dor de barriga, cólica ou apenas um frio na barriga de nervoso.
O que eu mais desejava naquele momento era adiantar o relógio um pouquinho (só umas cinco horas) e embarcar de uma vez por todas naquele avião, antes que eu perdesse toda a água do meu corpo de tanto suar frio.
― Mas assim você não vai deixar ninguém aqui de casa dormir! ― Reclamou o André ― Você está deixando todo mundo nervoso.
Eu já estava ficando com raiva do André. Se ele quisesse dormir, que fosse. Eu hein! Eu não estava fazendo barulho nenhum. O apartamento estava tão silencioso que deu até um medo (não se ouvia nem o barulho do ventilador do quarto dos meus pais).
― André, me poupe de suas frescuras! ― Gritei sussurrando (se é que isso faz sentido), para não acordar os vizinhos ― Faça o favor de ir dormir e me deixar em paz aqui.
― Você tem certeza de que quer ficar aqui sozinha?
Revirei os olhos e murmurei para mim mesma: "Ai, meu Deus do céu, dai-me paciência.".
― Eu não estou sozinha. ― Me agachei e peguei o Harry ― O Harry está aqui comigo.
O André suspirou e disse que tudo bem, que ia dormir e que era para eu ficar tranquila (como se isso fosse possível).
Foi triste ter passado a noite em claro sozinha, sentada em um sofá sem fazer absolutamente nada e desejando que as horas passassem rápido.
Decidi ligar a TV para me distrair um pouco e ver se assim o horário do voo chegava mais depressa, só que não estava passando nada de bom nos canais.
Resolvi então ir até o meu quarto conferir pela quinta vez a minha mala de roupas, de sapatos e de coisas pessoais.
Estava tudo certo, eu não havia me esquecido de nada.
Foi então que eu decidi que iria me deitar um pouco, para tentar fazer com que o meu coração desacelerasse, afinal, eu estava prestes a ter um ataque. Assim que fechei os olhos, comecei a me imaginar conhecendo o One Direction. Na minha cabeça, seria exatamente assim: depois de ter pulado bastante no show, eu estava exausta e morrendo de vontade de voltar para o hotel para dormir em um sono profundo debaixo do edredom quentinho e aconchegante de lá. Mas, assim que eu e a Samanta estávamos saindo do local, fomos barradas. O segurança pediu para que nós nos dirigíssemos até o camarim. Nos entre olhamos e ficamos loucas de felicidade.
Eu não lembro o resto, pois, de tanto imaginar, acabei caindo no sono.
Quando acordei, meia grogue e com a visão um pouco distorcida, dei de cara com a minha mãe, me olhando com uma expressão um pouco triste.
― Vamos?
― Vamos? ― Perguntei, bocejando ― Que horas são?
Eu não estava entendendo nada.
― Três da manhã, minha filha. ― Ela respondeu, me deixando mais incrédula ainda, afinal, aonde iríamos às três da manhã? ― Chegou a hora.
Foi aí que eu me lembrei.
Dei um pulo, me despertando completamente, e disse, sorrindo muito:
― Ai, eu não acredito que finalmente chegou a hora!
Minha mãe esboçou um sorriso meio entristecido e disse para irmos logo, senão iríamos nos atrasar.
Meu pai e o André foram descendo primeiro com as minhas malas maiores, enquanto eu e a minha mãe estávamos conferindo a minha mala menor. Eu levei três malas por precaução, mesmo sabendo que nós vamos ficar em Londres apenas quatro dias.
O Harry me olhou com uma cara meia tristinha, provavelmente percebendo que eu iria ficar longe dele por um tempinho. Meu coração quase derreteu ali mesmo. Fui até ele e comecei a agarrá-lo, sentindo saudades antecipadas – eu nunca havia ficado um dia sequer longe do meu bebê.
De repente, eu comecei a chorar.
― O que foi, minha filha? ― Minha mãe perguntou, apavorada. ― Nós nem chegamos ainda no aeroporto e você já está chorando?
― Eu quero levar o Harry comigo! ― Disse, entre um soluço e outro ― Vocês não sabem cuidar dele como eu cuido. E vocês nunca lembram de dar comida pra ele! Não quero que ele morra de fome.
Minha mãe deu um risinho, parecendo aliviada pelo motivo do meu choro ter sido "só" aquilo.
― O Harry vai ficar bem, eu prometo.
Então ela veio até mim e me deu um beijo na testa.
Me despedi mais uma vez do Harry, tranquei a porta e chamei o elevador, que não cooperou muito e demorou uns dois minutos para abrir. Eu já estava ficando impaciente. Tudo o que eu menos queria naquele momento era me atrasar e perder o voo.
E confesso que também estava com medo de tudo dar errado e eu e a Samanta não conseguirmos conhecer o One Direction. Nós vínhamos planejando aquele dia há muito tempo, nós até tínhamos um plano arquitetado. Só que, olhando agora, tudo parece muito mais complicado... na teoria parecia tão fácil. Mas eu resolvi não me torturar mais pensando naquilo, só quando eu chegasse em Londres. Até lá eu teria muito tempo para esfriar a cabeça.
Quando todos nós já estávamos dentro do carro, eu pedi para o meu pai colocar o CD que eu gravei só com a música "Little Things". Ela tocava, terminava e tocava de novo. Por mais que a minha mãe não parecesse de reclamar que não aguentava mais ouvir aquela música "sem ritmo", eu continuava chorando – bem baixo, para ninguém escutar –, cada vez mais envolvida com o clima, o ritmo e a letra de Little Things. E todas as vezes que chegava a parte "I'm in love with you", eu chorava ainda mais, rezando para que um dia eu pudesse ouvir isso vindo da boca do Niall, falando para mim. Mas não para mim e mais um monte de fãs, como eles fazem nos shows. Apenas para mim.
Quando chegou a parte que o Niall diz "I'm here for you", eu não consegui mais fazer com que ninguém me ouvisse chorar. Foi como se eu tivesse levado um tiro no coração... As lágrimas desciam cada vez com mais intensidade e os soluços não paravam de aumentar.
O André, que estava no banco de trás comigo, se aproximou e me deu um abraço bem apertado, tentando me consolar – mesmo sem saber a razão daquelas lágrimas.
Os meus pais me olharam através do retrovisor, com expressões não muito felizes, provavelmente pensando que o motivo do meu choro era saudade antecipada.
― Quer que eu peça para o papai tirar o CD? ― Murmurou o André no meu ouvido, lendo os meus pensamentos.
Fiquei chocada por ele ter sacado tão rápido o motivo da minha crise de choro.
― Não! ― Exclamei ― Deixa a música tocar.
O André deu um suspiro entristecido e se afastou de mim, me deixando chorar sozinha.
Em poucos minutos finalmente chegamos no aeroporto. Meu pai disse para já irmos descendo para adiantar as coisas, enquanto ele procurava uma vaga para estacionar o carro.
Assim que entramos no aeroporto avistei a Samanta perto da cafeteria com a mãe dela, o pai e as duas irmãs.
Acenei para ela, que logo me viu e veio vindo em minha direção, acompanhada de sua família.
― Samanta! ― Exclamei e dei um abraço bem apertado nela.
Não queria soltá-la, pois assim que ela me olhasse de perto, repararia nos meus olhos inchados e molhados e no meu nariz vermelho. Apesar que eu estava fungando muito, então certamente ela já deveria ter percebido que eu havia chorado.
Nós finalmente nos afastamentos e ela olhou para o meu rosto.
― Eu estaria exatamente igual a você nesse exato momento, mas eu não quero ficar parecendo um monstro de olhos inchados quando conhecer os nossos meninos! ― Ela disse, sorrindo ― Estou me segurando pra não explodir de lágrimas de felicidade!
Eu esbocei um sorriso triste e falei:
― Queria eu que o motivo do meu choro fosse esse...
― Ai, Ana! Esquece aquele cara da praia! Ele não chega na unha do pé do Zayn mesmo! ― Falou Samanta, dando de ombros.
"Eu estou chorando por um original...", pensei em dizer.

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