Diário da Samanta
16 de janeiro de 2013, quarta-feira
Querido diário,
Adivinha só? A mãe da Ana acabou deixando ela ir no show gratuito do One Direction em Londres! Essa garota só pode ter nascido com a bunda virada pra lua, como dizem. Numa hora dessas, ela deve estar pulando de um canto pro outro do apartamento dela, fazendo um escândalo e com um sorriso de orelha a orelha. Bom, pra falar a verdade, eu faria o mesmo, ou até pior. Ela me mandou um e-mail contando tudo! Como eu queria estar no lugar da Ana, poxa. Se minha mãe tivesse o coração amolecido assim, eu ficaria tão feliz! Ela e o meu pai vivem me dizendo que eu preciso focar nos meus objetivos e correr atrás do que quero, mas do outro lado, vivem me super protegendo. Se eu quero ir numa festa sozinha, passam mil horas dizendo o que eu posso ou não fazer, que horas eu tenho que voltar pra casa e com quem eu tenho que ir. Se eu quero ir num cinema, perguntam quem vai comigo e me dão dinheiro contado. Tudo bem, todos os pais, no fundo, são assim, mas isso irrita. Os pais da Ana também são assim, lógico, mas pelo menos, eles entendem que ela é adolescente e precisa viver a vida, e sempre acabam cedendo de um jeito ou de outro. Mas os meus, por mais que eu esperneie, grite e quebre tudo, sempre ficam com receio sobre o que eu vou fazer. Lógico que eu não sou uma santa, mas também, não sou tão doida.
Eu não consigo imaginar o que eu vou fazer se a Ana for pra Londres e eu, ficar aqui nesse fim de mundo. Ela lá, vendo o big bang, conhecendo gatos britânicos, com um daqueles sobretudos, touca e cachecol; e ainda por cima, conhecendo o Niall James Hora, o Liam James Payne, o Louis William Tomlinso, o Zayn Javaad Malik e o MEU Harry Styles. Enquanto eu ficarei aqui, no tédio, no calor, dormindo a tarde inteira e ouvindo minhas irmãs fúteis falando sobre maquiagem e sapato. Mas como eu já disse, vou fazer de TUDO pra ir nesse show, nem que eu tenha que ficar sem mesada pra o resto da vida e ainda abrir mão de coisas como computador, televisão e aquela moto que eu tanto quero comprar!
A partir de agora, se eu realmente quiser ter um pingo de chance de ir com a Ana pra essa bendita viagem, vou ter que virar um anjinho nesse apartamento.
- Acordou tarde, hein, filha! – Disse minha mãe, entrando no meu quarto e abrindo as janelas.
- Ah... pois é, mãe. Mas eu já estou bem acordada e disposta! – Sorri, levantando da minha cama e dobrando o lençol.
- Você tá arrumando a cama? É isso mesmo? – Perguntou ela, desconfiada.
- Claro, mãe! Algo de errado com isso?
- Não, nada de errado. Mas você sabe que não faz isso diariamente, só quando quer alguma coisa ou está doente.
- Ai, mãe, que nada! Eu apenas refleti e percebi que estou sendo muito ingrata com você e o papai. Sempre me deram do bom e do melhor, e eu só faço reclamar, dormir e bagunçar. Não vou morrer se eu pelo menos manter meu quarto arrumado e limpo. – Coloquei meus braços pra trás do corpo e sorri.
- Ah, tá bom, então. – Riu ela. – Vai querer tomar café da manhã ou almoçar logo?
- Não precisa se preocupar, eu já estou indo fazer meu café da manhã! Você deve estar muito cansada. – Falei, ajeitando as almofadas na cama.
Minha mãe fez que sim com a cabeça, enquanto me olhava com um olhar desconfiado e mordendo o lábio inferior. Ela saiu do quarto e eu suspirei. Como os filhos exemplares conseguem ser assim? Manter tudo em seu lugar, serem tão certinhos e tão comportados. Submissos e sem personalidade. Se eu já estou farta de arrumar uma misera cama, imagina o que eu vou ter fazer nesses dias até a viagem! Ai, mas com certeza, vale o esforço.
Depois disso, fui até a cozinha e fiz meu café da manhã: Banana frita com queijo e um copo de suco de laranja. Enquanto eu fazia minha refeição e a comia, minha mãe não parava de me encarar enquanto andava pelo apartamento. Cochichava com as minhas irmãs, ia e voltava. Espero convencer ela com esse meu novo jeito de ser. Esse jeito... provisório. Quando terminei de comer, levantei da mesa, lavei a louça e fui na área de serviço pegar uma vassoura. Voltei para o meu quarto e o varri todo. Tirei os móveis do lugar, os limpei, arrumei meu guarda-roupa. Uau, ali tinham coisas do arco da velha! Meu Deus, verdadeiras relíquias. Tomei um belo banho gelado e vesti meu roupão roxo de veludo; caí na cama. Essa nova vida cansa. Olhei para a cabeceira da minha cama e o telefone tocava.
- Alô? – Falei, o atendendo.
- Oi, Samanta! Estou te ligando, já que você não me ligou, não é, bonitinha? – Disse a voz do outro lado da linha. Era Ana.
- Ah, é você. Achava que era alguém mais interessante.
- Nossa! Muito obrigada, eu também te amo, viu?
- Brincadeira, boba. – Ri. – Me ligou pra jogar na minha cara que enquanto você vai estar lá, em Londres, eu estarei no meu quarto recebendo ligações e mensagens do Gabriel, aquele babacão que vive atrás de mim?
- Ai, Samanta, tadinho! Ele até que é legal... Mas, enfim! Te liguei porque a minha mãe quer falar com a sua...
- Ah, então fica com ele pra você, ué! – Sugeri. – Mas já? Eu comecei a colocar o meu plano em prática hoje! Me comportando, arrumando o meu quarto e não respondendo ela! Será que é uma boa a sua mãe falar com a minha mãe hoje?
- Não tenho dúvida! A minha mãe é ótima de lábia, pode se despreocupar. – Falou Ana, sendo positiva.
- Tá bom! Vou passar pra ela! Vai cruzando os dedos aí, cabelo de fogo!
Suspirei e saí do meu quarto, indo em direção ao quarto da minha mãe, já que ela não estava na sala e nem na cozinha, pela falta de barulhos lá. Abri a porta e vi minha mãe penteando o cabelo, sentada em sua penteadeira.
- Que foi, filha? Algum problema? Você nunca vem aqui. – Perguntou ela.
- Ah, não, problema nenhum. É que... a mãe da Ana quer falar com você. Eu não faço ideia do que ela queira. – Fingi, apertando no viva-voz e colocando o telefone em sua mão.
- Maria Lúcia? – Falou minha mãe, colocando o telefone em seu ouvido com a mãe direita, enquanto apoiava a escova de cabelo na penteadeira, com a mão esquerda.
- Oi, Andréia! Tudo bom, querida? Desculpe estar te incomodando, mas você sabe como são as nossas filhas, não é... – Falou a mãe da Ana.
- Ah, é... Claro! – Riu minha mãe, me olhando confusa.
- Pois é, menina... Então... o André, o meu filho, me convenceu e eu acabei deixando a Ana ir para esse tal show em Londres. Só que eu soube que você ainda não deixou, não é? Mas pode ficar despreocupada, o Sandro, nosso motorista há anos, vai viajar com elas também! Ele é super de confiança, vai ficar de olho em cada passo que elas derem. – Disse Maria, tranquilizando a minha mãe.
- Ah, então é sobre esse show dessa tal banda lá na Inglaterra... Olha, Lúcia, é que eu não tenho certeza se a Samanta está merecendo ir para essa viagem. Ela anda muito rebelde e eu e o pai dela estamos tentando colocá-la na linha. Não sei se abrindo essa brecha, ela aprenderia uma lição.
- Entendo... Mas, às vezes, devemos dar um voto de confiança para os nossos filhos, Andréia. Quem sabe ela volta dessa viagem comportada, como uma forma de retribuição por você ter deixado ela ir para esse show.
- Bom, vendo por esse lado... Olha, vamos fazer o seguinte, Lúcia: Eu vou ter uma conversa sobre isso com o meu marido hoje à noite, quando ele chegar do trabalho, aí amanhã mesmo eu te ligo e te dou uma resposta, tá bom, querida?
- Ótimo. Vou ficar aguardado a sua ligação, meu bem. Um beijo!
- Beijo, meu amor! – Se despediu minha mãe, sorrindo e desligando o telefone.
- Bom, então... Eu to indo tirar um cochilo, mãe. To morrendo de dor de cabeça! – Peguei o telefone da mão da minha mãe, dei um beijo na testa dela e saí correndo pra o meu quarto.
Eu sinceramente não estava com cabeça pra ouvir os sermões da minha mãe naquele momento. Eu prefiro esperar a resposta dela e do papai! Espero que essa conversa com a mãe da Ana tenha amolecido o coração dela! Estou indo cochilar, diário. Buenas tardes!

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