terça-feira, 22 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 13


Diário da Ana
22 de janeiro de 2013, terça-feira, 4h56 da manhã


Perdemos o show, Diário. Perdemos o show das nossas vidas.
Por mais que eu e a Samanta soubéssemos que o show seria às 21h, ficamos esperançosas de o avião dar a louca e chegar em Londres a tempo - por isso escondemos nossos relógios para não ficarmos preocupadas e fomos na fé. Mas nada disso aconteceu. Chegamos no local do show e já eram 2h45 da manhã, dá para acreditar? Ainda haviam pessoas desmontando suas barracas, tirando suas faixas escrito "I Love One Direction" e pegando seus carros para ir para casa. Porém, nós, diferente dessas pessoas, havíamos acabado de chegar e ainda íamos comprar nossas faixas e cartazes... se tivesse sobrado alguém lá para vendê-las.
Voltei para o hotel totalmente frustrada e desiludida, com os olhos inchados e ardendo muito - pensei até que não conseguiria suportar a ardência.
Me joguei na cama e fiquei apenas olhando para o teto por cerca de quarenta minutos, sem desviar o olhar um segundo sequer, perdida em meus pensamentos. De repente, o meu celular começou a fazer um som que indicava duas mensagens novas.
Li a primeira, que dizia:
"Oi, minha linda! Como foi o show? Se divertiu muito? Aqui são 23h... aí deve ser bem tarde, né? Foi mal... não aguentei de curiosidade. Um beijo grande! Arthur."
Ler aquelas palavras... "Como foi o show? Se divertiu muito" foi como facadas no meu peito. É tudo muito recente, ainda estou muito arrasada para suportar ler uma coisa daquelas, me lembrando da maravilha que eu perdi simplesmente por um mero atraso. E, bem, sem falar que o Arthur não é a pessoa exatamente certa para conversar comigo numa hora dessas. Tudo bem, ele é o meu melhor amigo e eu gosto muito dele, porém ele não se contenta em ser só o meu amigo. Por várias vezes já tentei alertá-lo de que eu não quero nada além de amizade, mas em todas elas ele diz que um dia vai me reconquistar (sim, nós já fomos namorados, Diário... desculpe por não ter te contato antes).
Na hora eu estava tão arrasada, que acabei sendo bem amarga com o Arthur... eu simplesmente respondi: "Não teve show nenhum.".
A segunda mensagem era do André.
"Eu soube de tudo, Aninha... O Sandro ligou para cá há pouco tempo. Poxa, eu sinto muito mesmo... Mas não se preocupe, haverá outras oportunidades! Um beijão, minha irmãzinha predileta!" 
Naquele momento, a positividade do André não conseguia me contagiar. E além do mais, não haveria outra oportunidade. Como eu vou conhecer o One Direction agora? Vou caçá-los por Londres nesses quatro dias que me restam aqui? Impossível... os milhares de seguranças que eles tem não deixariam eu chegar nem perto. E tem também o Sandro, que agora deu para ser um fofoqueiro. Ele não tinha nada que ter contato para os meus pais que perdemos o show sem antes ter deixado a poeira abaixar. Agora com certeza o meu pai está na internet tentando trocar as nossas passagens para voltarmos para o Brasil amanhã mesmo, para não me deixar "triste e solitária". Mal eles sabem que eu vou ficar triste e solitária se eles me obrigarem a voltar para o Brasil sem antes ter conseguido fazer alguma coisa para conhecer os meus meninos.
Eu já estou decidida. Eu não vou voltar para o Brasil tão cedo. Nem tampouco em apenas quatro dias. Vou arranjar um jeito de fazer com que meus pais me deixem por aqui por mais uns dois meses (que é o tempo que voltam as minhas aulas). Até lá, com certeza, eu terei conhecido o One Direction, porque eu vou fazer o possível e o impossível para que isso aconteça. Ou eu não me chamo Anastácia Florentino Vieira.
Ops... mais uma coisa que eu esqueci de te contar, Diário... eu não me chamo apenas Ana. Eu me chamo, na verdade, Anastácia – igual a minha avó paterna. Só que, como você já deve ter deduzido, eu detesto com todas as minhas forças esse nome, que mais parece ser o nome de uma vovó mesmo e não de uma adolescente de dezesseis anos. Ana é um nome mais jovial... por isso peço que todos me chamem por ele (na verdade, só os íntimos sabem que eu me chamo... bem, aquele nome).
"Sei que sente muito André. E também sei que haverá outra oportunidade, mas só se o papai não inventar de trocar a minha passagem para hoje.  Portanto trate de avisá-lo que estou muito feliz aqui e não quero voltar para aí. Vou dormir. Boa noite! E não precisa me desejar uma boa noite também, porque a minha já está ótima. Bye, bye!"
Eu menti do início ao fim nessa mensagem que mandei para o André. Porém a minha intenção foi boa, eu não queria preocupá-los dizendo que estava completamente infeliz e me sentindo abandonada, já que a Samanta foi dormir reclamando de dor de cabeça, o Sandro está no quarto ao lado, provavelmente no sétimo sono, e a minha família está do outro lado do mundo. Eu queria prová-los que consigo ser feliz em um outro país longe deles, para assim o papai trocar a minha passagem de volta para o Brasil para daqui há uns meses...
O Arthur, mais tarde, me mandou uma outra mensagem. Lá no Brasil já deveria ser quase meia noite.
"Como assim não teve, Ana? Me explica essa história direito... Beijo!"
Na mesma hora eu respondi (já que era a única coisa que eu tinha para fazer sozinha em um quarto de hotel às 3h40 da manhã):
"Simplesmente não teve, Arthur."
O garoto é insistente.
"Nossa, que amargura... a coisa deve ter sido séria. Que tal se conversássemos sobre outra coisa para te distrair um pouquinho?"
"Não quero conversar."
Eu queria muito conversar. Não com ele. Com o Niall Horan.
"Nem comigo?"
"Principalmente com você", pensei em digitar.
Dois segundos depois comecei a sentir pena dele... eu estava sendo muito má com alguém que só queria o meu bem.
"Desculpa, Arthur... é que estou realmente chateada. Só não quero que comente nada disso com a Juliana, ok? Porque aí ela vai falar para a mãe, que consequentemente vai falar para a minha, já que elas são carne e unha."
"Pode deixar, isso fica só entre a gente. Mas e aí, como é Londres? E o hotel?"
"Até parece que você nunca veio em Londres, Arthur! Seu irmão mora aqui e você vive visitando ele! Enfim... o hotel é muito lindo, parece que estou dentro de um sonho."
"Eu sei. Só queria saber como é Londres da sua visão, boba!"
"Hum."
"Você está tão diferente... eu costuma te ver alegre, toda fofa e meiga..."
"Eu sei, Arthur... fico assim quando algo me abala profundamente. Bem, é melhor eu ir dormindo e o senhor também. Um beijinho bem estalado (como eu certamente diria se estivesse normal...)!"
"Hahaha é mesmo! Gosto dessa Ana... Um beijo estalado pra você também, ruivinha."
Dei um sorriso entristecido e guardei o celular na minha bolsa. Até eu estava sentindo falta de mim antes de ter dado de cara com o local do show vazio.
Agora eu realmente tenho que ir dormir, Diário. Amanhã promete – quer dizer, hoje. Eu sinto.

* * *

Acordamos de 9h30 e descemos para tomar café da manhã. A mesa estava tão cheia de comida que eu não sabia exatamente o que pegar. Depois de muito olhar, resolvi comer duas fatias de pão, queijo, suco de morango e um pedaço de torta de limão. Estava um pouco constrangida, pois, enquanto eu, o Sandro e a Samanta nos servíamos, percebi que algumas pessoas estavam nos olhando. Não sei se pelo meu cabelo ser cor de cereja, por nós estarmos falando português, ou por eu e a Sam estarmos com os olhos inchados (mais parecendo dois pandas) ou, quem sabe, por estarmos acompanhadas de um cara alto e de terno. Bem, resolvi não me importar e fui até a mesa do canto me sentar (que por sinal é bem chique, me senti até um pouco desconfortável). Em alguns instantes a Samanta e o Sandro vieram também.
Durante o café nós não falamos absolutamente nada, apenas estávamos concentrados em nossas comidas.
― Sam... ― Comecei a dizer, quebrando o silêncio.
― Hum? ― Ela disse, aparentemente chateada pelo que houve ontem.
― Nós não vamos desistir de conhecer eles só porque perdemos o show, né?
Percebi que o Sandro estava se sentindo um pouco desconfortável com o assunto em que ele não se encaixava. Ele então começou a olhar fixo para a janela, enquanto mastigava, fingindo que não estava ouvindo nada, para nos deixar mais a vontade.
― É claro que não, Ana! E eu já tenho um plano...
Subiu uma felicidade repentina no instante em que ela disse aquilo. Comecei a sorrir feito uma boba, sentindo a minha antiga eu de volta. Aquela alegre e positiva. Por mais que ela tivesse sumido apenas por algumas horas, eu senti muito a falta dela.
― E qual é, Sam? ― Perguntei, provavelmente com os olhos brilhando ― Fiquei curiosa agora!
Ela olhou de relance para o Sandro e falou baixinho:
― Agora não.
O Sandro, que não é bobo nem nada, percebeu tudo, então disse:
― Meninas... eu vou ter que ir checar o carro agora. Eu volto daqui a pouco. Por favor, permaneçam onde estão, não posso perdê-las de vista.
Eu e a Sam demos um risinho uma para outra e esperamos ele sair.
― É o seguinte ― Ela começou a dizer no instante em que perdemos o Sandro de vista ―, eu soube que o One Direction vai ficar aqui por mais algumas semanas, ou seja, temos tempo suficiente para botarmos o meu plano em ação.
― Ok, certo. ― Disse impaciente ― E qual é o plano?
Assim que a Sam ia abrir a boca para finalmente falar, ela desviou o olhar para uma outra coisa e simplesmente ficou paralisada. Virei para trás para ver o que era, até que eu também paralisei.
E não, não era o One Direction. Mas era quase isso.
― Eu não estou acreditando. ― Ela falou pausadamente, ainda com o olhar cravado na... na pessoa.
Até que a tal pessoa percebeu que estava sendo observada. Nós então desviamos o olhar bem rápido, para não dar bandeira.
― Você viu o que eu vi? ― Perguntei, com um sorriso tão grande que até doía.
― A camisa! ― Falamos ao mesmo tempo, como se tivéssemos combinado.
― "Produção One Direction"! Está escrito "Produção One Direction" atrás da camisa dela, Sam! Eu só devo estar sonhando acordada! Me belisca, me belisca!
Eu e ela começamos a gargalhar de felicidade, parecendo duas bobonas.
Até que resolvemos ir lá até a tal garota (pois é, ela parece ser muito nova para já estar trabalhando na produção do 1D. Eu e a Sam demos para ela uns vinte anos e olhe lá) para nos informarmos melhor...
― Excuse me... ― Falei, um pouco receosa do meu sotaque estar horrível.
Bem, inglês não é um problema para mim e nem para a Samanta, considerando que passávamos horas assistindo filmes americanos sem legenda, justamente para aprendermos a língua. E depois de uns dois anos vimos resultado: estávamos falando quase que fluentemente. Às vezes, em casa, eu e o André só conversávamos em inglês, para aprofundá-lo ainda mais.
― Sim? ― A garota disse, se virando para mim.
Eu e a Sam nos olhamos chocadas. Ela também fala português! E é ainda mais bonita cara a cara. Ela tem olhos bem verdes, longos cabelos castanhos cacheados e a pele morena. E além de tudo, convivia com o One Direction. Me senti uma ninguém perto dela.
― Você fala português? ― Perguntou a Sam, ainda visivelmente em choque.
A garota riu e depois disse:
― Sim. Eu sou brasileira, nasci no interior de São Paulo. Ah, e eu me chamo Amanda, prazer.
Eu e a Sam estávamos tão empolgadas com a descoberta, que começamos a interrogá-la, afinal, não é todo dia que viajamos para Londres, encontrarmos uma pessoa da produção do One Direction e descobrimos que ela é do nosso país.
― Como conseguiu ser da produção do One Direction? ― Questionei.
― Você mora em Londres? ― A Samanta perguntou quase que na mesma hora que eu perguntei.
Amanda começou a rir com a nossa empolgação.
― Vocês são fãs do One Direction, né? ― Ela simplesmente perguntou, ignorando as nossas perguntas.
Quando eu ia responder que com certeza sim, a Samanta foi mais rápida e disse:
― Não, não somos, não.
Olhei para ela com a maior cara de ponto de interrogação. A Amanda percebeu e falou, incrédula: "São ou não?". Novamente a Samanta foi mais rápida, respondendo por mim:
― Não somos. Na verdade, estamos em Londres a passeio. Perguntamos se você é da produção dessa banda, porque nosso sonho é trabalhar em produção também, só que da cantora Katy Perry, conhece?
A Amanda fez que sim e deixou que a Samanta continuasse a falar. É claro que ela conhecia. Quem não conhece Katy Perry?
― Então... como conseguiu ser da produção deles? Estamos loucas para saber.
― É, estamos mesmo. ― Concordei, embora sem saber aonde a Sam estava querendo chegar.
Amanda pareceu ter acreditado em nós e percebido que éramos de confiança e não apenas estávamos querendo arrancar informações para conhecer os patrões dela... Ela então nos contou tudo:
― Bem, ao contrário de vocês, eu sou muito fã do One Direction ― O meu queixo quase despencou ―, então eu comecei a arranjar maneiras de conviver com eles. Como o meu pai trabalha nessa área e eu já que eu sou maior de idade, ele conseguiu arranjar esse emprego para mim... desde então eu não desgrudo mais dos meninos. Estou até conseguindo ficar amiga deles... Bom, acho que já contei demais, não é?
Senti meu corpo inteiro vibrar de empolgação. Eu só podia estar mesmo sonhando, porque aquilo simplesmente não era possível. Aquela garota só podia ter caído dos céus para nos ajudar a conhecer o 1D! Eu pude até ter um pequeno vislumbre de nós, Niall e eu, nos casando no Brasil, com um monte de fãs querendo arrombar a porta para roubar o meu noivo.
― Ah, sim, você já contou demais... ― Disse, ainda em choque ― Muito obrigada pelas informações, Amanda. Eu não sei nem como te agradecer!
― Que isso! ― Ela disse, sorrindo ― Hoje mesmo vou encontrá-los... só não posso dizer aonde senão o meu chefe me mata!
Nós três rimos, parecendo amigas de infância. Eu estava bem descontraída por fora, mas por dentro apenas uma coisa percorria o meu pensamento: vou seguí-la, vou seguí-la, vou seguí-la.
― Mas nós nem somos fãs deles... ― A Samanta disse como quem não quer nada.
― Eu sei, meninas, mas é que eu realmente não posso, por mais que eu saiba que vocês não sejam fãs. Bem, eu nem deveria estar falando essas coisas para vocês... É melhor eu ir. Até logo!
― Só uma última pergunta! ― Falei rápido, antes que ela fosse embora ― Você está hospedada aqui?
― Estou sim... Até logo.
Até bem logo...

Um comentário:

  1. Me senti obrigada a comentar. Sei o quão importante é um comentário para um escritor, porque isso o ajuda a melhorar, a escrever mais, ter mais inspirações. E é por isso que hoje quero dar os meus parabéns para quem faz a Ana e a Samanta. Gostaria muito de ser amiga de uma delas ou das duas ao mesmo tempo. Vocês conseguem transmitir todos os sentimentos possíveis e eu estou muito ansiosa para saber o que acontecerá nos próximos capítulos! Tomara que essa assistente ajude elas. Vou ficar na torcida por vocês, Samanta e Ana.
    Saibam que não é só o One Direction que tem fãs. Vocês também tem! E eu sou uma delas.
    Beijo,
    da fã.

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