sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 10

Diário da Samanta
21 de janeiro de 2013, segunda-feira


Querido diário,

É meia noite e eu ainda não fui dormir. Aliás, não vou dormir de jeito nenhum! Eu nunca gostei de dormir antes do voo, quando ele é de madrugada, porque prefiro guardar o sono para quando estiver acima das nuvens e esquecer um pouco que eu estou há milhares de metros do chão, dentro de uma máquina voadora que pode cair a qualquer momento de lá de cima e matar todos que estão dentro. Assustador, mas real. Enfim, nada, nem isso, vai poder estragar a minha felicidade nesse exato momento e nos próximos dias que eu vou passar no meu país favorito: INGLATERRA! Na minha cidade favorita: LONDRES! Ai, eu estou tão animada que estou parecendo uma criancinha que acabou de saber que vai poder comprar um kinder ovo! Eu sei, foi uma péssima comparação, mas tudo bem. Sim, eu já arrumei as minhas malas desde o momento em que os meus pais me disseram que eu poderia viajar! Elas estão meio velhas, mas dão para o gasto. São duas do mesmo tamanho: uma preta, onde eu estou levando as minhas roupas e uma vinho, onde coloquei meus saltos e sapatos preferidos e minhas duas nécessaires: uma com minhas joias e a outra, com hidratantes, perfumes e maquiagens! Ah, também estou levando a minha mochila, a nova que eu comprei para o colégio, apesar da minha mãe ter reclamado milhões de vezes, tentando me convencer a não levá-la, para não suja-la e estraga-la antes das aulas começarem! Nela, eu estou levando escova de dentes, creme dental, minha carteira com os meus documentos, meu passaporte, você e meu iPad. Ah, claro, também estou levando as capas lindas dele, para trocá-las em diferentes ocasiões! Parece meio exagerado e fresco, mas é divertido. Ai, droga, minha mãe acabou de gritar do corredor, me mandando ir dormir e guardar você. Mas tudo bem, diário, nós nos vemos no avião e em Londres, não se preocupe!
Fui dormir e acordei às 2:30h. Tomei um banho e coloquei a minha roupa da viagem: uma calça jeans preta justa, um suéter azul bebê longo e minhas botas pretas de cano alto sobre minha calça. Me olhei no espelho e uau, estava parecendo um zumbi. Passei uns cremes no meu rosto e fiz um rabo de cavalo baixo e de lado. Chequei a minha mochila e minhas malas. Olhei em volta do meu quarto e me despedi de tudo. Quando cheguei na sala, Letícia e Kaitlin estavam sentadas no sofá, uma com a cara maior que a outra. Rabugentas e de braços cruzados. Se fosse por elas, nem teriam se levantado para ir me deixar no aeroporto, porque com certeza foi a minha mãe que as obrigou. Meu pai estava sentado na mesa de jantar, tomando um xícara de café e minha mãe estava me fazendo um interrogatório.
― Filha, pegou casacos para levar? Ouvi falar que lá faz muito frio nessa época do ano!― Peguei, mãe. Peguei vários! Não precisa se preocupar.― Tá levando calça também, né? Nem pensar de sair do hotel com aqueles shorts curtos que você gosta de usar, pra depois ficar doente e eu me preocupar! ― Falava minha mãe, me olhando fixamente.― Eu peguei tudo, mãe. Tudo. ― Trate de me ligar quando chegar lá, pra saber que chegou bem. Ligue o celular imediatamente quando o avião pousar e lembre-se de carregá-lo toda noite, pra não ter perigo de eu não conseguir falar com você. Sempre que precisar de dinheiro, vá no banco e pegue a quantia, não se esqueça da senha! Ligue quando tiver qualquer emergência, minha filha. ― Tagarelava ela, ajeitando a minha roupa.― Tá bom, sargento. ― Brinquei.― Vou sentir tanta saudade. ― Sussurrou ela, me olhando e deixando lágrimas escaparem.― Ah, mãe! Não chora, vai. Vai ser por pouco tempo, e a gente ainda nem chegou no aeroporto! ― Falei, passando a mão no seu rosto.― É melhor irmos, senão podemos chegar atrasados. ― Lembrou meu pai, alisando as minhas costas.
Meu pai colocou as malas no carro e todos entramos no mesmo. Não sei porquê, mas quando ele girou a chave, ligando o motor do carro, fiquei toda arrepiada. Não dava pra acreditar que aquilo tava acontecendo. Nem nos meus melhores sonhos achava que os meus pais deixariam eu fazer uma coisa dessas um dia. Eu estava sentindo mil coisas ao mesmo tempo: medo, ansiedade, frio na barriga, felicidade, receio, vontade de ir no banheiro. A cada metro que andávamos, eu ficava mais ansiosa. Finalmente, depois de uns 15 minutos, chegamos no aeroporto. Pegamos um dos carrinhos, colocamos as bagagens e fomos esperar Ana e sua família em uma cafeteria, aproveitando e comendo alguma coisa bem leve. Não demorou muito e Ana chegou! Corri em sua direção e abracei! Ela parecia triste, deve ser por causa daquele garoto da praia. Ela ficou encantada com ele, mas aposto que logo depois que ver o primeiro gatinho britânico, vai esquecê-lo. Fomos fazer o check-in. Estávamos na filha: Meu pai estava abraçado com as minhas duas irmãs, que ainda estavam muito sonolentas; minha mãe não parava de conversar com a mãe da Ana, questionando sobre a localização do hotel, como ele era e acertando o preço da minha passagem, que eles haviam comprado, enquanto eu não parava de olhar para Ana, suspirando e fazendo expressão de medo! Passamos alguns minutos na filha, fizemos o check-in e despachamos as malas, apenas ficando com a minha mochila e a bolsa de Ana. Logo, fomos para o portão de embarque. Chegando lá, avistamos um telão ao lado do portão e fomos checar o horário do voo!
― Como assim? O horário previsto do voo era de 5:00h, e aqui tá dizendo que só vai ser de 8:00h! ― Exclamei, confusa.― Calma, filha. Pode ser um engano! Vou me informar ali. ― Falou meu pai.― Não acredito que vamos ficar aqui mais três horas esperando essa droga de voo. ― Disse Letícia, bufando.― Eu que devia tá reclamando aqui, garota. ― Falei, aumentando o tom.― Parem as duas! ― Falou minha mãe, nos olhando. ― Pois é, parece que vamos esperar mais um pouco. ― Explicou meu pai, chegando do meu lado.
Eu e Ana não podíamos fazer nada. E nem ninguém. Fomos para a praça de alimentação. Os meus pais estavam e uma mesa conversando com os pais de Ana, minhas irmãs e seu irmão em uma outra mesa e eu e Ana, em outra. Minhas irmãs apoiavam suas cabeças em seus braços, apoiados na mesa, e dormiam. O irmão de Ana lia um livro. Nós duas conversávamos sobre o trajeto que íamos fazer quando chegássemos em Londres, para ir ao show. Conversa vai, conversa vem, já eram 8:00h! Nos dirigimos ao portão de embarque e tivemos mais uma grande surpresa.
― Sinto informar, mas o voo está previsto para as 14:00h. – Falou uma moça de uniforme, fria e desatenciosa. ― Não, espera aí. – Reclamei. ― Primeiro, disseram que seria de 5:00h. Depois, de 8:00h. E agora de 14:00h? Que absurdo! ― Olhei para Ana, que estava aos prantos.― Peço que aguardem. É a única opção, senhorita. ― Retrucou ela.― Calma, filha. É o jeito: esperar. ― Sussurrou meu pai, colocando seu braço em volta dos meus ombros.― Se chegarmos atrasadas para o show, eu processo essa companhia aérea ridícula. ― Me irritei.
Decidimos todos irmos para o apartamento de Ana. Nossos pais conversavam na sala sobre negócios, nossos irmãos conversavam na mesa de jantar e nossas mães faziam o almoço na cozinha. Eu e Ana estávamos muito preocupadas. Esse voo estava atrasando mais que o normal! Ou quer dizer alguma coisa, ou é mesmo azar. Que lindo, nossa viagem já começou muito bem. Na verdade, nem começou! Piorou tudo. Eu não parava de perguntar para Ana: “E se perdermos o show?” Ana dizia que não queria nem pensar na possibilidade e pedia pra eu pensar positivamente. Quando já era 11:00h, todos nós almoçamos e voltamos para o bendito aeroporto. “Voo 7304, com destino a Londres, embarque imediato. Portão 5.”, dizia uma voz feminina, no alto falante. Eu e Ana suspiramos alto, olhando uma para a outra e fomos em direção ao portão de embarque, com nossas famílias. Nossas mães já vinham chorando desde o apartamento de Ana. O irmão dela estava silencioso e cabisbaixo, enquanto minhas irmãs estavam me pedindo milhares de presentes da Inglaterra. Meu pai me abraçou, me desejando ótima viagem e me dando conselhos. Logo depois, minhas irmãs me abraçaram ao mesmo tempo e falaram para eu ter juízo, tentando me provocar. Minha mãe, em seguida, veio e me abraçou por um bom tempo, chorando e dizendo para eu ter cuidado com tudo e todos, enquanto eu apenas balançava a cabeça e sorria. Me despedi dos pais e do irmão de Ana. Eu e Ana entregamos nossos tickets ao homem do portão de embarque e entramos. Colocamos nossas mochilas e pertences de mão na esteira para detectar objetos indevidos e passamos pelo portal detector de metal. Pegamos nossas coisas e entramos na última fila, para checar nossos assentos e entrarmos no avião. Os olhos de Ana brilhavam, assim como os meus, obviamente. Minhas pernas mexiam involuntariamente, eu não podia estar mais ansiosa para chegar ao nosso destino e colocar nossos planos em prática! Nós nos comunicávamos através de olhares e expressões faciais. Enfim, entramos no avião. Nossos assentos ficavam bem no fundo do avião. Haviam três fileiras de poltronas, com dois corredores paralelos entre elas. Haviam muitos estrangeiros no avião. Uns falávamos espanhol, outros inglês e outros, línguas que nem eu mesma consigo identificar. Eu e Ana guardamos nossa mochila e bolsa acima das nossas poltronas e nos acomodamos nelas. Haviam três: uma para uma moça, já idosa, na janela, a do meio para Ana e a encostada com o corredor, para mim. Nós apertamos os nossos cintos e suspiramos, aliviadas. “Tripulação, preparar para a decolagem.”, disse o piloto, minutos depois. ― Vamos fazer dessa viagem, inesquecível! ― Falei, encostando a cabeça na coluna da poltrona e sorrindo.― Vamos sim! ― Disse Ana, segurando a minha mão e apoiando sua cabeça em meu ombro.

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